Diário da Região

08/06/2019 - 00h30min

Entrevista

Design que transforma

Marcelo Rosenbaum está à frente de projeto que valoriza as tradições de pequenas comunidades brasileiras por meio do design

Johnny Torres O designer Marcelo Rosenbaum esteve em Rio Preto
O designer Marcelo Rosenbaum esteve em Rio Preto

Você certamente já o viu em quadros da TV como 'Lar doce Lar', no 'Caldeirão do Huck', ou apresentando o programa 'Decora', do canal GNT. O designer Marcelo Rosenbaum sempre esteve envolvido com projetos que, de alguma forma, transformavam a vida das pessoas, seja com a reforma de uma casa, que levava mais dignidade para as famílias ou com a mudança de algum espaço para proporcionar alegria.

Desde 2010, Rosenbaum desenvolve a metodologia do Design Essencial, que é a capacidade de olhar para uma cultura, descobrir, despertar e potencializar os seus valores e saberes essenciais por meio do design. Com o projeto A Gente Transforma, o designer atua em comunidades do Brasil profundo aplicando essa metodologia. Nesta entrevista, ele explica o que é e como o projeto mudou a sua vida. 

Marcelo Rosenbaum esteve em Rio Preto para participar da mostra Arq Design, realizada no Riopreto Shopping. A mostra de arquitetura apresentou 20 ambientes decorados montados em uma casa contêiner, além de jardins temáticos, instalados em mais de 1.200 metros quadrados. 

V&A - O que é o projeto A Gente Transforma? Como esse projeto mudou a sua vida?

Rosenbaum - É um projeto que mudou a minha vida, hoje eu dedico 100% do meu tempo ao projeto A Gente Transforma, ao Instituto e ao Movimento. O projeto, nada mais é do que pegar o meu talento, tudo que fui conquistando durante esses 50 anos da minha vida, nesses 32 anos de trajetória. É onde eu consigo colocar o meu trabalho com impacto, usar o trabalho do design e da arquitetura como uma ferramenta de transformação. De que forma? Eu tenho uma grande paixão pelo Brasil, sempre tive, sempre coloquei isso como um olhar do meu trabalho. Ele muitas vezes entrava como uma identidade, como uma imagem, como um saber que era traduzido a partir de uma imagem.

Fui percebendo que o grande potencial de transformação está na base, naquele lugar que é o detentor do saber, aquele lugar que está lá e que é a nossa memória ancestral, aquele pedaço da nossa alma brasileira, a grande virtude da nossa alma brasileira que é esse povo que construiu o país ou que já estava aqui quando a gente chegou, ou essa mistura que forma toda essa tradição que tem muito valor e muito saber, isso me instiga muito, me traz muita adrenalina.

V&A - Como você poderia explicar o movimento A Gente Transforma?

Rosenbaum - É um movimento multidisciplinar onde a gente olha para os saberes ancestrais. Saberes ancestrais que muitas vezes nas comunidades é a vocação, é o talento. Então eu consigo imaginar, eu olho para uma comunidade não olho como uma extrativista, ou como uma produtora de algo, ou um potencial fazedor de artesanato. Eu olho uma comunidade como uma universidade de saber ancestral, eu vejo nessa comunidade um lugar rico de saberes, com muito potencial de troca para o nosso mundo de hoje, para o momento que a gente vive hoje.

É um momento muito complicado de novas práticas de entendimento, de como se relacionar com a própria natureza. E quando a gente fala de comunidades tradicionais nesse Brasil profundo são comunidades que têm um entendimento, uma relação muito própria da natureza, integrado com a natureza. Eu acho que a gente perdeu isso e essas comunidades, por um momento de esquecimento, de abandono, preservaram isso e para gente, nesse momento, é muito importante se reconectar com a natureza e aí naturalmente se reconectando com a natureza, você se conectar com a sua própria natureza, e assim eu fiz esse processo também me reconectando com o meu trabalho, com a minha alma.

V&A - Como é feito esse trabalho?

Rosenbaum - A gente vai para as comunidades tradicionais fazer uma investigação, fazer uma arqueologia afetiva, tentar escavar aquela memória que estava lá dentro, muitas vezes esquecida, abandonada. Trazer isso a partir da troca. Então, como colocar um produto que fale da memória, que estimule a ancestralidade dessa comunidade e jogar, de repente, ou para o mercado, ou criar alguma relação que se possa ficar na própria comunidade? Muitas vezes o design não é só olhar para o mercado, é observar o que aquele entorno pode gerar por si só lá dentro, a partir de saber e de necessidades também, se interligando com políticas públicas. No nosso trabalho a gente usa a arquitetura e design como ferramenta para comunicar e valorizar esses saberes.

V&A - Como você vê o crescimento dos cursos de arquitetura pelo Brasil?

Rosenbaum - É muito interessante porque fala exatamente do momento da qualificação desse profissional, desse serviço da arquitetura, do design de interiores, porque teve uma época, há uns 15, 20 anos atrás, a arquitetura, o design ou mesmo arquitetura de interiores era absolutamente de uma elite e não era para todo Brasil, era muito segmentado em algumas capitais, grandes centros e era limitado a meia dúzia de pessoas. Então, com essa expansão, há também a qualificação desse profissional, há reconhecimento, há democratização do serviço. É lindo porque hoje pessoas de uma outra classe, de uma classe média, de uma classe que está expandindo com o poder de compra de uma nova casa, um jovem recém-formado, uma pessoa entrando no mercado pode fazer a sua casa. Então, hoje você vê qualidade de trabalho em todo lugar que poderia estar, em qualquer canto.

V&A - Qual é a importância da democratização do design?

Rosenbaum - Isso depende da indústria, depende da Educação, do público, porque o design pode trabalhar no processo, pode trabalhar numa forma de uma ferramenta, trabalhar com aproveitamento de madeira, com menor resíduo da madeira, aproveitar a estrutura, ter conhecimento da produção do processo de fabricação e perceber que de uma forma o desenho, por exemplo, diminuindo 10cm de uma mesa, ele pode economizar muito dinheiro no processo, no aproveitamento. Então isso é um design, mas para isso você precisa ter um público que está preparado a entender esse produto.

V&A - Você é a favor de construções em contêiner, tanto residencial quanto comercial?

Rosenbaum - É uma questão que está ligada à sustentabilidade e ao reaproveitamento. É muito bom e acho que tem uma questão mercadológica, de identidade, do marketing, do espaço lifestyle, é uma coisa jovem. O reaproveitamento é maravilhoso, entender isso enquanto sustentabilidade. É importante saber qual é essa logística, qual é a procedência desse material, mas de qualquer jeito, de forma estética ele já funciona. Mas para falar de sustentabilidade acho que é importante entender qual que é esse impacto.

V&A - Como é sua parceria com as marcas atualmente, especialmente com empresas aqui de Rio Preto?

Rosenbaum - Eu já tive uma relação muito maior com as marcas, hoje a gente desenvolve para algumas marcas produtos e são relações muito legais. Com a Marcato a gente trabalhou junto em Canuanã, em algumas moradas da Fundação Bradesco, dos jovens que moram na escola, que é o internato da Fundação Bradesco, uma instituição de ensino. Nesse projeto, a Marcato fez todos os armários dos quartos. Esse projeto ganhou o maior prêmio de arquitetura do mundo, que é o Riba, foi super importante. Nele foi usado a metodologia do Design Essencial, então a gente co-criou com as crianças, fez um processo de entendimento, fez uma investigação dos saberes das tecnologias de construção, das comunidades.

Eu convidei o Leandro Marcato como pessoa física para fazer parte de um projeto que a gente tem lá na Amazônia, do Instituto A Gente Transforma em parceria com a FAS - Fundação Amazonas Sustentável - em Mamirauá, na reserva de desenvolvimento sustentável de Mamirauá, em Nova Colônia, comunidade onde a gente produziu brinquedos a partir da identidade local, para vender para uma política pública que é do programa da FAS de primeira infância. A gente produz o brinquedo na comunidade, esse programa compra o brinquedo e esse brinquedo volta para a comunidade, para as crianças brincarem, a partir do trabalho feito pelos pais e da identidade local. Então, esses brinquedos vêm carregados de muita energia e uma energia de cura, que atravessa essa memória escravocrata de que quem produz não pode usar. Então, o Leandro foi fazer a implementação de novas máquinas de uso de marcenaria para a produção desses brinquedos, para aproveitar melhor a madeira molongó, uma árvore nativa, que demora 30 anos para crescer e nós estamos cuidando do manejo em parceria com o Instituto Mamirauá também. Eu uso essa possibilidade da marca se engajar em projetos, de ser uma ferramenta de comunicação de ser uma ferramenta de troca, de engajamento. V&A

 

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