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Projeto social

Carolina Herrera adota As Valquírias em parceria

Trabalho do instituto realizado na zona norte da cidade é reconhecido por marca internacional


    • São José do Rio Preto
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Desde sua criação em 2007, o Instituto As Valquírias realiza diversos trabalhos sociais que mudaram a vida de muitas meninas em Rio Preto. E graças ao trabalho árduo e a vontade de transformar o mundo, o projeto agora recebe visibilidade internacional.

A marca Carolina Herrera, sediada em Nova Iorque, nos Estados Unidos, e que trabalha com design de roupas e acessórios, além de possuir uma ampla linha de perfumes, entrou em contato com o instituto através da sua filial no Brasil. O interesse veio da vontade da grife em conhecer ONGs por todo o país que realizam trabalhos voltados para o empoderamento feminino. Neste contexto, As Valquírias foram as indicadas. Segundo Amanda Oliveira, fundadora do projeto, um produtor do Rio de Janeiro foi quem fez a indicação.

"Ficamos sabendo que fomos indicadas por um produtor carioca, mas até agora não sabemos quem foi. A marca Carolina Herrera recebeu várias indicações, mas fomos nós as escolhidas pela forma singular com que trabalhamos com as meninas", conta ela.

Além do reconhecimento mundial, a instituição rio-pretense recebeu uma doação em dinheiro (euros) para seus planos futuros e agora as participantes possuem reuniões marcadas no Rio de Janeiro para definir a expansão dos projetos que serão apoiados pela marca internacional.

Como tudo começou

Ricardo Boni Amanda Oliveira, fundadora do Instituto
Amanda Oliveira, fundadora do Instituto (Foto: Ricardo Boni )
Amanda Oliveira é uma jovem de 29 anos que nasceu e passou a infância em uma favela na zona sul de São Paulo. Quando tinha três meses de vida, por falta de recursos financeiros, sua mãe precisava improvisar uma inalação. Em uma fatalidade, Amanda caiu com o rosto dentro da água fervente e foi levada às pressas para o hospital. Naquela noite os médicos começaram a preparar a família para a sua morte.

Em uma reviravolta, o estado de saúde dela foi ficando cada vez melhor, mas as dificuldades enfrentadas pela garota não pararam por aí. Ver a mãe fazer apenas uma refeição por dia para que ela e suas irmãs pudessem ter o que comer, passar por enchentes que levavam tudo o que havia no barraco onde moravam foram alguns obstáculos que Amanda aprendeu a superar. "A desigualdade e o bullying em virtude da cicatriz que o acidente me deixou também se tornaram acontecimentos comuns na minha infância", conta.

Junto com sua família, chegou até Rio Preto e se mudou para um bairro na zona norte da cidade que era dominado pelo tráfico de drogas e pela prostituição. Aos 11 anos, ela entrou em um projeto social onde viu sua vida se transformar através da música, em aulas ministradas por uma professora chamada Valquíria.

Amanda se tornou musicista, empreendedora social e teve a ideia de multiplicar o impacto positivo que transformou a sua vida: o acesso à educação de qualidade. Foi assim que ela fundou o Instituto As Valquírias, para atender meninas que lutavam naquela mesma realidade em que vivia.

Ricardo Boni O Instituto As Valquírias visa dar oportunidade a mulheres, crianças e jovens que se encontram em situação de extrema pobreza, estimulando seu potencial através do desenvolvimento educacional.
O Instituto As Valquírias visa dar oportunidade a mulheres, crianças e jovens que se encontram em situação de extrema pobreza, estimulando seu potencial através do desenvolvimento educacional. (Foto: Ricardo Boni )
O Instituto atua em três frentes diferentes: a Organização Social, a Banda Musical e o Negócio de Impacto Social. A fundadora explica que vive em uma correria para fazer com que os instrumentos musicais e a educação de qualidade cheguem nas mãos das crianças antes das armas. São oferecidas aulas de percussão, de empoderamento feminino, resiliência, empatia, customização de roupas e agora terá início a hidroginástica para a terceira idade.

O público alvo são crianças e jovens que estão em situação de risco e vulnerabilidade social, tendo idades entre 3 e 45 anos.

Os meninos também são atendidos, mas, como explica Amanda, o atendimento com eles também é em prol das meninas.

Ricardo Boni Instituto As Valquírias dá oportunidade a mulheres, crianças e jovens que se encontram em situação de vulnerabilidade e extrema pobreza
Instituto As Valquírias dá oportunidade a mulheres, crianças e jovens que se encontram em situação de vulnerabilidade e extrema pobreza (Foto: Ricardo Boni )
Com todo o esforço, o reconhecimento também veio. Amanda já recebeu 18 premiações, destacando entre elas o reconhecimento no programa do Caldeirão do Huck.

"Foi uma grata surpresa, talvez o Luciano Huck não saiba e nem tenha noção do quanto ele ajuda as ONGs desse Brasil. Isso nos trouxe visibilidade e ocupamos espaços que jamais pensamos que ocuparíamos", conta.

Ela também recebeu o prêmio Jovem Empreendedora do ano pelo Lide e apareceu no Under-30 da revista Forbes, a lista de jovens que se destacam antes dos 30 anos.

Para Amanda os projetos sociais são essenciais para a comunidade. Ela acredita na força da periferia, em como as pessoas são inteligentes, esforçadas e apenas não possuem o acesso suficiente para mudar suas realidades.

"Um projeto social consiste em provocar os sonhos e mudar histórias daqueles que seriam apenas estatísticas na lista do poder público". Ela também conta que é notável o aumento do acesso à cultura para os moradores da zona norte de Rio Preto, desde acesso a cinema e teatro como o giro da economia local.

Ricardo Boni Banda formada no Instituto As Valquírias, que foi escolhido por grife graças ao trabalho direcionado ao empoderamento feminino
Banda formada no Instituto As Valquírias, que foi escolhido por grife graças ao trabalho direcionado ao empoderamento feminino (Foto: Ricardo Boni )
Ao longo dos anos, muitas meninas viram suas vidas serem transformadas pelo Instituto, uma delas é Bianca Franco. Ela entrou no projeto aos 12 anos em um momento em que passava por grandes dificuldades na sua vida e na vida de seus familiares em decorrência do histórico de crimes, tráficos e prostituição na região. Uma conhecida de sua mãe foi quem a matriculou no projeto e viu tudo se transformar.

"Comecei a participar das rodas de conversas, aulas de músicas e lá aprendi que todas essas dificuldades que estavam acontecendo eram apenas para me fortalecer. Entrei como aluna, depois me tornei monitora e quis transformar a vidas das meninas assim como a minha foi transformada, hoje sou professora, uma das baixista da banda e co-fundadora do Instituto", diz.

Outra jovem que começou como aluna e agora é professora e co-fundadora é Ana Laura Reis. Ela conta que no começo elas faziam os atendimentos com as meninas aos sábados à tarde. Logo as atividades aumentaram. Cada uma das co-fundadoras já instruíam mais de 15 meninas.

"Assim que as meninas chegavam, a primeira coisa que fazíamos com elas era soltar os cabelos e maquiar, assim elas se sentiam bonitas e nas atividades tinham um grande desenvolvimento. A primeira pergunta que fazemos no instituto é perguntar qual é o seu sonho antes de perguntar o nome da menina, pois trabalhamos para realizar os sonhos delas", conta Ana.

Para o futuro, muitos projetos são idealizados. De acordo com Amanda, semanalmente elas se reúnem para discutir esses planos.

"Estamos planejando uma carreira de sucesso para as meninas da Banda As Valquírias, assim o Instituto se tornará sustentável. Elas são a essência, elas são a verdade, toda honra a essas seis meninas que estão fazendo a história do Instituto acontecer", finaliza ela.

Em março deste ano, o projeto ofereceu 875 vagas para 32 cursos de qualificação profissional, todos gratuitos.

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