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AGRO DIÁRIO

Borracha está no pico de produção

Depois de uma queda de 10% na safra do ano passado, produtores da região Noroeste do Estado, responsável pela maior concentração do produto, veem sinais de recuperação


    • São José do Rio Preto
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O mercado de seringueiras ou do quilo de coágulo pago pelas empresas de beneficiamento de borracha aos produtores já foi melhor. Mas, se na safra passada o setor registrou uma queda de produção de 10%, neste ano a expectativa é de que o aumento da produção também seja da ordem dos mesmos 10%. "Os preços pagos não são ainda muito bons, mas esperamos que o bimestre de junho e julho represente um aumento razoável para o setor", afirma o produtor de seringueiras David Zuim Júnior.

A região Noroeste do Estado de São Paulo é responsável por 56% da produção nacional de borracha, com 34 mil hectares de área plantada apenas na região de Rio Preto (24 municípios no entorno), sendo a principal região de cultivo no Brasil. Em todo o estado paulista, são 132 mil hectares de seringueiras cultivadas, segundo dados do Escritório de Desenvolvimento Rural (EDR) de São José do Rio Preto. "O percentual de 56% encontra-se estagnado em função dos baixos preços da commodity no mercado internacional", avaliou o engenheiro agrônomo do EDR, Fernando Miqueletti.

O engenheiro disse ainda que na safra 2017-2018 foram produzidas aproximadamente 222 mil toneladas de coágulo no Estado de São Paulo, de acordo com dados do Instituto de Economia Agrícola (IEA). "Estima-se para a safra deste ano um aumento de cerca de 10% na produção devido à entrada de novas áreas, implantadas no início da década".

É que as seringueiras, normalmente, produzem cerca de 10 meses do ano (de outubro a julho), mas o pico de produção ocorre de fevereiro a julho, quando se concentra cerca de 70% da produção anual, conforme explicou Miqueletti. Para o produtor rural Fábio Magrini, já foi possível notar, em duas propriedades que pertencem a ele, uma alta de produção nos meses de abril e de maio, o que ele atribui ao clima mais ameno.

Fábio possui 35 mil pés de seringueiras plantadas e que estão em produção, nos municípios de Monte Aprazível e de Sud Mennucci. "Os preços relacionados à borracha são de acordo com valores internacionais, dependemos das cotações do dólar e da Bolsa de Valores. Hoje, comercializo a minha produção em R$ 2,30 o quilo de borracha seca", disse Magrini.

Na safra passada, ele produziu nove quilos de borracha por árvore nos 80 hectares de área plantada de seringueiras. "A média de produção para este ano deve ser de sete quilos (por árvore), isso para seringueiras que já estão plantadas há uma década", explicou ao lembrar que a seringueira produz a partir do sétimo ano. Em contrapartida, segundo Magrini, se bem cuidada, as árvores podem durar até 50 anos.

Garantia de boa produção também, no pico da safra deste ano, é o que acontece na propriedade de Zuim, com cerca de 5.500 seringueiras plantadas em duas áreas localizadas em Cedral. "Nos meses de abril a julho, com boas temperaturas, chegamos a retirar cerca de um quilo de coágulo de árvore mensalmente". Há 14 anos lidando com as seringueiras, o produtor ressalta a importância de respeitar o ciclo da plantação.

Zuim diz que, no ano passado, as altas temperaturas levaram ao desfolhamento precoce das árvores, com queda da produtividade, iniciando a sangria mais cedo. 'Nós dependemos muito de uma eficiência do trabalho do sangrador, além de boa umidade da terra e um bom clima", disse o produtor.

 

  • A seringueira pertence ao gênero Hevea, família Euphorbiaceae, que possui a Hevea brasiliensis como a espécie mais importante do gênero, do ponto de vista comercial. É originária da região amazônica, sendo a principal fonte de borracha natural do mundo
  • Embora a seringueira seja nativa do Brasil, o país produz apenas 46% da demanda do mercado interno
  • Os países asiáticos como Tailândia, Indonésia, Malásia e Vietnã detêm três quartos da produção mundial de borracha natural
  • O Brasil é o maior produtor de borracha natural da América Latina, e a Tailândia é o maior produtor do mundo
  • A cultura da seringueira ocupa o 19º lugar no Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) do Estado de São Paulo, totalizando apenas 0,65% (R$ 483.518.439,48). O preço médio mensal recebido pelos produtores paulistas, entre janeiro e julho de 2018, foi de R$ 2,17/kg de coágulo, representando queda de 19,3% em relação ao ano anterior, refletindo na diminuição do VBP em -10,5%.

Fonte: Abrabor e IEA

O setor da borracha movimentou, no ano passado, mais de R$ 480 milhões no Estado de São Paulo, segundo informações do diretor executivo da Associação Paulista de Produtores e Beneficiadores de Borracha (Apabor) de Rio Preto, Diogo Esperante. "Parece que teremos, até o final do primeiro semestre de 2019, uma boa perspectiva da safra de borracha. Ainda não é o ideal, na questão de preços, mas já melhorou", disse.

O preço médio mensal recebido pelo produtor de seringueira nos meses de abril e maio está em alta, conforme registrou a Apabor. Diogo destacou ainda que "a referência GEB10 Mercado, calculada pela instituição, e que serve de base para as negociações comerciais na cadeia, acumulou alta de 7,8% na atualização para o bimestre de abril e maio, com as negociações no campo girando em uma faixa média entre R$ 2,20 e R$ 2,50 a depender do teor de borracha seca".

Para o diretor da Apabor, os dois fatores que influenciaram essa alta estão relacionados aos preços internacionais e ao dólar. "No caso dos preços internacionais, recente Relatório Publicado pela Associação dos Países Produtores de Borracha Natural (ANRPC) revelou uma queda de cerca de 1 milhão de toneladas na produção mundial em janeiro. No mesmo mês, a instituição aponta para uma alta de cerca de outro 1 milhão de toneladas no consumo", afirmou Esperante.

O panorama que se apresenta para o agronegócio da borracha, na opinião do diretor executivo, é a falta de borracha, agravado pelo fato de os principais países produtores estarem em entressafra. O representante da Apabor também relacionou a questão climática que poderá prejudicar mais ainda a produção deste ano.

"Estamos exigindo que o governo federal revise suas planilhas de preço mínimo. É uma vergonha o valor atual de R$ 2,16. Porém, percebemos que é um problema estrutural da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), pois todas as culturas reclamam que a metodologia de preço de custo utilizada por eles é irreal. Mesmo atualizando os dados, a metodologia joga os custos para baixo. Só nos faz crer que é um jogo de cartas marcadas, para que o governo preserve seus fundos e não tenha que acionar a política de subvenção", disse o diretor da Apabor.

Segundo a avaliação de Diogo, enquanto aguarda uma melhor política de preços do mercado brasileiro, o produtor rural aproveita o início do pico de safra com preços mais remuneradores e recupera o tempo perdido neste início de ano com a seca e outras intempéries do clima.

Os fatores climáticos interferem na quantidade de látex a ser colhido, conforme explicou o engenheiro agrônomo Miqueletti. "Na safra 2018-2019, com baixos índices pluviométricos e altas temperaturas na região Noroeste do Estado de São Paulo - responsável pela maior concentração do produto, acima de 35ºC, por vários dias seguidos - afetaram a fisiologia da planta, com o fechamento dos estômatos que diminuem a translocação de seiva (látex) e por consequência a produção".

Os seringais também podem ter o ataque de algumas pragas, segundo o técnico do EDR de Rio Preto. Entre elas o percevejo renda e o microácaro, o que provoca a diminuição de produção na ordem de até 40%. Atualmente, segundo Miqueletti, foi detectada uma doença denominada Crosta Negra, muito comum na região amazônica, que causa o desfolhamento precoce das plantas. "Os produtores devem monitorar o nível de infecção e, se necessário, procurar assistência técnica para melhor tomada de decisão", recomendou Fernando.

Para os produtores rurais, os preços praticados no mercado ainda não são os ideais e eles buscam manter a produção de seringueiras em meio à diversidade de outras culturas do agronegócio. "Hoje, os preços são controlados pela Bolsa de Valores. Deveria ter uma política básica para a produção de borracha", defende Zuim.

"Não sabemos ao certo o que vem ocorrendo, nos últimos anos, com a produção de borracha. Mas, quando há um excesso de oferta do produto por parte de países asiáticos - Malásia, Indonésia e Tailândia - os preços no Brasil ficam abaixo do esperado. Ainda temos, na região de Rio Preto, 80% das indústrias de processamento de borracha instaladas aqui", analisou Magrini.