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Emprego

Experiência e aprimoramento são trunfos para os cinquentões

Cinquentões que estão no mercado de trabalho ou precisam voltar enfrentam as transformações provocadas pela tecnologia, mas têm a seu favor a experiência de vida e de carreira


    • São José do Rio Preto
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Com as transformações que vêm ocorrendo, o mercado de trabalho coloca uma infinidade de desafios aos trabalhadores, especialmente àqueles na casa dos 50 anos, que estão a caminho da aposentadoria, mas que podem ter de estender a carreira em função da Reforma da Previdência que está em discussão e, uma hora ou outra, será implementada no Brasil. Para enfrentar as mudanças: experiência de vida, motivo para celebrar o Dia do Trabalhador.

Em Rio Preto, o mercado formal de trabalho é formado por 136.102 pessoas, segundo os dados da mais recente Relação Anual das Informações Sociais (Rais), de 2017. Desse grupo, 22.114 trabalhadores estão na faixa de 50 a 64 anos. É a terceira maior força de trabalho, atrás dos 41.519 trabalhadores com idade entre 30 e 39 - a maioria - e dos 28.476 com idade entre 40 e 49 anos.

E se Rio Preto se destaca no Estado por sua longevidade - dados da Fundação Seade mostram que a expectativa de vida é de 76,8 anos, as empresas precisam estar atentas e abertas a esse indivíduo que, em função de qualidade de vida, condições de saúde, e outros serviços, está vivendo mais e, portanto, trabalhando mais. Até porque as regras propostas pela Reforma da Previdência indicam que o tempo de trabalho vai aumentar.

A maior parte das vagas para trabalhadores nessa faixa etária está no setor de serviços, em bares ou restaurantes, postos de combustíveis, serviços de saúde e supermercados. É que esse grupo de pessoas têm como uma das principais características o comprometimento com o que faz. Especialmente quando se trata de trabalhar durante os fins de semana, como exige boa parte dessas atividades. "O perfil dessa geração, que está em transição, vem lá do fim da Segunda Guerra Mundial. É um público que viu muita mudança, sofreu muita resiliência, é mais flexível, comprometido e disposto a trabalhar", afirma Juliana Ferreira, consultora de recursos humanos.

Embora seja incomum a divulgação de vagas específicas para os trabalhadores dessa faixa etária, o mercado de trabalho insere os profissionais mais frequentemente em vagas operacionais. Até porque, de modo geral, o mercado disponibiliza menos vagas de gestão. "Quando a pessoa adquiriu expertise ao longo da vida, ela vai disponibilizar esse capital intelectual após os 50 anos, caso fique disponível. Também estará mais propensa a empreender em outro negócio, trabalho autônomo ou ir para a área de vendas", afirma Maria das Graças Mazarin de Araújo, psicóloga especializada na área organizacional e professora.

No restaurante Mangiato, no Plaza Avenida Shopping, a política é de valorização do profissional mais maduro, tanto que a empresa está implementando um processo seletivo para a contratação de profissionais com idade a partir dos 45 anos. Dos dez funcionários, dois têm mais de 50 anos. "Funcionários mais maduros têm mais experiência e história de vida. Agregam equilíbrio, responsabilidade e maturidade", afirma a gerente Ana Carolina Dadico.

Ela conta que na primeira vez em que houve a divulgação de vagas para cozinheiras, centenas de pessoas a procuraram. Agora, ainda há oportunidades para funções como atendimento ao público, caixa e auxiliar de cozinha. O que conta a favor desses trabalhadores, segundo Ana, são justamente as qualidades que atestam o tempo de vida maior, o que não é valorizado por todos os tipos de empresas. "Queremos dividir essa história de vida", disse.

A cozinheira Marilia Moreira da Silva, 57 anos, foi contratada no Mangiato há quatro meses. Ela conta que essa valorização do profissional mais maduro ainda não é vista com frequência no Brasil, diferentemente do que já observou em Portugal, onde viveu por muitos anos. "Essa valorização é maravilhosa. Pessoas com mais idade têm dedicação, conhecimento do trabalho, força de vontade. A idade não atrapalha a produção. Esse é um conceito que se tem no Brasil, mas não é verdade", diz.

Segundo Marilia, o mais interessante de um emprego em uma empresa que busque a diversidade de idade dos funcionários é a troca que existe entre a equipe. Se de um lado ela contribui com experiência e conhecimento, de outro aprende muito. "Ganho amor, carinho. Eles me ensinam muito. A gente nunca sabe tudo, eu nunca só ensino. Eu também aprendo".

 

Para Daniela Brandi, especialista na área de RH, as perspectivas de trabalho para esse grupo se abrem quando o profissional encara essa nova etapa da vida com humor, leveza e simpatia. "Se houver disposição em se desafiar, jovialidade na postura e no trato, as pessoas com mais experiência de vida e profissional são excelentes na entrega para com a empresa e com cliente".

E quando se fala em emprego, os especialistas reforçam a importância de se fazer algo que se ame. "Só trabalha com alegria quem gosta do que faz. É preciso haver um propósito. Se só pensa no salário ou em esperar a aposentadoria algo está errado e daqui a pouco vai se enfrentar o vazio", afirma Juliana.

A especialista destaca ainda que o trabalhador mais velho pode enfrentar o preconceito - que infelizmente ainda existe - provando que pode superar as limitações que são relacionadas à idade, como o fato de ter sua capacidade produtiva diminuída, que não vai aguentar a carga de trabalho ou mesmo a pressão da atividade. "O profissional precisa ter consciência de seu talento, de seus pontos fortes, sua experiência e bagagem. É tudo isso que precisa colocar a seu favor, superando o estereótipo da idade".

Capacitação

Um modo de enfrentar melhor as mudanças tecnológicas e das relações de trabalho é investir em capacitação, isso a qualquer tempo, mas principalmente para quem já tem mais anos de carreira. Para os especialistas, essa é a principal arma para quem deseja acompanhar a evolução do mercado de trabalho e não ficar para trás. E nessa hora, a internet é a ferramenta que pode ajudar, até por oferecer cursos gratuitos.

Mas, para isso é fundamental ter esse conhecimento específico, sobre como utilizar a própria internet. "O mais importante para o idoso, para entrar mesmo no mercado de trabalho, é que ele tenha uma qualificação tecnológica, principalmente, refazer uma requalificação digital", afirma Maria das Graças.

Daniela ressalta ainda que, entre as novas modalidades profissionais, a capacitação envolve mais conhecimento sobre o produto e ferramentas de trabalho, informações que são aprendidas no próprio ambiente de trabalho. "Ter disposição para aprender é a melhor forma de permanecer no mercado. Não tem mais espaço para o eu faço desse jeito.O que se espera é que a pessoa tenha curiosidade e interesse em aprender".

Trabalhador deve se adaptar às mudanças

Todas estas transformações no mundo do trabalho e as reformas da Previdência - reformas porque se o governo não conseguir a economia que cobiça, outras reformas virão - são irreversíveis e cabe ao trabalhador se adaptar a estas transformações.

O Estado, num futuro próximo, não mais poderá dar a proteção social que conseguiu dar até os dias atuais, mesmo sabendo que esta proteção apresentava falhas nítidas e evidentes.

Cabe ao trabalhador buscar capacitação constante, ler, pesquisar e estudar as mais variadas áreas e setores. Muitas vezes o trabalhador deixa de fazer um determinado curso por achá-lo desinteressante e é justamente neste curso que o profissional descobre coisas novas e relevantes para sua reestruturação profissional, que é algo necessário e inevitável.

As empresas estão se interessando mais pelos profissionais mais experientes, isto acontece porque as novas gerações que estão chegando no mercado apresentam limitações crescentes, desde o pouco comprometimento até a reduzida experiência.

Como o mercado quer o profissional pronto, capacitado e com experiência, o que dificilmente encontra, vai buscar os mais experientes para as funções. Como muitos deles estão aposentados ou se aposentando, um novo mercado abre para este profissional.

Ary Ramos da Silva Júnior, economista e doutor em sociologia

Quantidade

Faixa etária

  • 15 a 17 = 985
  • 18 a 24 = 19.933
  • 25 a 29 = 20.955
  • 30 a 39 = 41.519
  • 40 a 49 = 28.476
  • 50 a 64 = 22.114
  • 65 ou mais = 2.116

Total = 136.102

Remuneração (R$)

Faixa etária

  • 15 a 17 = 927,12
  • 18 a 24 = 1.679,02
  • 25 a 29 = 2.255,57
  • 30 a 39 = 2.790,24
  • 40 a 49 = 2.991,34
  • 50 a 64 = 3.307,28
  • 65 ou mais = 3.512,28

Total = 2.662,51

Fonte - Relação Anual das Informações Sociais (Rais) 2017