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SAÚDE

Estilo de vida saudável evitaria 1,1 mil mortes

Estudo da USP em parceria com a americana Harvard aponta que 30% das mortes por câncer poderiam ser evitadas com a adoção de hábitos saudáveis. Na região de Rio Preto, em cinco anos, 3,3 mil pessoas morreram por tumores


    • São José do Rio Preto
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Mil e cem vidas. É a quantidade estimada que poderia ser salva em cinco anos, apenas na região, se as pessoas não fumassem, não consumissem bebidas alcoólicas, fizessem atividades físicas, comessem alimentos saudáveis e cuidassem do peso. É o que aponta um estudo epidemiológico realizado com 20 tipos de câncer por pesquisadores do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e da Harvard University, nos Estados Unidos, com apoio da Fapesp. A perspectiva para a região leva em conta as 3.370 mortes que ocorreram por diferentes tipos de câncer nos últimos cinco anos, de acordo com o Departamento de Informática do SUS (Datasus).

"A gente utilizou uma série de informações disponíveis na literatura que indicavam a relação entre os fatores de risco e os diversos tipos de câncer a eles associados e dados publicados pelo IBGE, que tem duas pesquisas nacionais com mais de 60 mil brasileiros que mensuram a prevalência desses fatores de risco na população", diz Leandro Rezende, pesquisador da FM-USP e um dos autores do estudo. Esses fatores de risco - tabagismo, álcool, sobrepeso, má alimentação e sedentarismo - podem agravar o controle do câncer, que já está crescendo devido ao envelhecimento da população.

O tabagismo ainda é o grande vilão no aparecimento de tumores, embora a taxa de fumantes na população tenha diminuído de 30% para 10%. "Apesar da redução da proporção de fumantes no Brasil de maneira importante nos últimos 20, 30 anos, ainda é a principal causa", diz Leandro. Em segundo lugar, aparece o excesso de peso, que leva ao diagnóstico de aproximadamente 20 mil neoplasias no Brasil todos os anos. A estimativa é que em 2019 sejam diagnosticados 600 mil novos casos de câncer no Brasil. Trazendo este cálculo para Rio Preto, serão 1,2 mil novos pacientes.

A pesquisa mostra que seria possível evitar 27% do total de tumores com hábitos de vida saudáveis. A incidência poderia ser reduzida à metade - poupando 782 vidas na região em cinco anos - dos tumores de pulmão, laringe, orofaringe, esôfago, cólon e reto.

Fábio Leite Couto Fernandez, oncologista do Hospital de Base, pontua que as pesquisas são positivas ao trazerem dados que servem para pleitear políticas públicas, inclusive de saúde preventiva, algo em que o Brasil ainda é deficiente - o câncer de colo de útero, por exemplo, ainda é o terceiro mais comum entre as mulheres, embora seja evitável com a vacina contra HPV. O oncologista cita que a gordura produz hormônios ligados a doenças na mama e no endométrio. O fígado pode ficar doente também por maus hábitos alimentares e sedentarismo. "Ele fica gorduroso, depois passa por uma fase de hepatite e depois por uma fase de cirrose, que é um passo para que aconteça um câncer primário do fígado muito complicado em termos de diagnóstico", exemplifica.

Além de prevenir tumores, o estilo de vida faz a diferença se eles aparecerem. "Um estudo recente mostra que atividade física não só evita o câncer como ajuda no tratamento e, depois, para que o câncer não volte, diminui a chance de recorrência", diz Leite.

Em alguns casos, o câncer não é evitável, já que algumas pessoas possuem tendência genética para o problema. "Quando a pessoa tem hábitos saudáveis, mesmo que ela tenha predisposição, faz com que o sistema imunológico fique melhor aparelhado. Se ela tem uma vida saudável, o gatilho para que o câncer aconteça muitas vezes não ocorre."

De acordo com a Agência Fapesp, os pesquisadores utilizaram dois cenários de exposição aos fatores de risco para traçar estratégias: um com eliminação total de todos os riscos relacionados ao estilo de vida e outro com base em metas de políticas públicas e recomendações para a prevenção do câncer (atenuação da prevalência dos fatores de risco).

"Nesse cenário de restrição dos fatores de risco, o consumo de álcool teria uma redução relativa de 10%, para menos de 50 gramas por dia. Também fazem parte desse cenário uma redução no Índice de Massa Corporal (IMC) de um quilo por metro quadrado na média da população, uma dieta com 200 a 399 miligramas (mg) de cálcio por dia e a redução de 30% na prevalência do consumo de tabaco", explica a Agência Fapesp.

Internações por câncer em cinco anos (2014-2018) em hospitais do SUS da região

  • Pulmão, traqueia e brônquios - 1.836
  • Laringe - 776
  • Lábio, cavidade oral e faringe - 1.712
  • Esôfago - 915
  • Cólon - 2.601
  • Reto, ânus e canal anal - 1.900
  • Bexiga - 1.406
  • Fígado e vias biliares intra hepáticas - 893
  • Estômago - 1.574
  • Órgãos genitais femininos* - 780
  • Trato urinário* - 686
  • Mama - 4.237
  • Pâncreas - 914
  • Leucemia** - 1.781
  • Ovário - 81
  • Próstata - 2.139
  • Total de internações: 24.231

Mortes por câncer em cinco anos (2014-2018) em hospitais do SUS da região

  • Pulmão, traqueia e brônquios - 568
  • Laringe - 98
  • Lábio, cavidade oral e faringe - 204
  • Esôfago - 171
  • Cólon - 338
  • Reto, ânus e canal anal - 185
  • Bexiga - 109
  • Fígado e vias biliares intra hepáticas - 278
  • Estômago - 204
  • Órgãos genitais femininos* - 91
  • Trato urinário* - 66
  • Mama - 317
  • Pâncreas - 224
  • Leucemia** - 166
  • Ovário - 0
  • Próstata - 240
  • Total de mortes: 3.259

* O Datasus não traz informações para câncer de endométrio nem para tumor no rim, então foram selecionadas as opções "neoplasia de órgãos genitais femininos" e "neoplasia do trato urinário"

** O Datasus não permite especificar o tipo de leucemia, mas o estudo considera a mieloide

  • No banco de dados não existem dados sobre câncer na vesícula biliar, de tireoide e mieloma múltiplo

Fonte: Departamento de Informática do SUS

HÁBITOS DE VIDA SAUDÁVEIS

  • Ter uma vida saudável não apenas previne o câncer, mas, caso ele apareça, uma vida equilibrada facilita o tratamento e evita o retorno do tumor
  • A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda 150 minutos de atividade física leve ou moderada por semana (cerca de 20 minutos por dia) ou pelo menos 75 minutos de exercício intenso por semana (cerca de 10 minutos por dia)
  • Controle o estresse fazendo atividades físicas e coisas de que gosta, como ler, assistir a filmes e estar cercado de pessoas queridas
  • Uma alimentação saudável tem como base alimentos naturais ou minimamente processados
  • Consuma bastante verduras, frutas e legumes - de preferência, sem agrotóxicos
  • Use óleos, gorduras, sal e açúcar em pequenas quantidades ao temperar e cozinhar alimentos
  • Evite os caldos industrializados
  • Evite o consumo de bebidas alcoólicas
  • Beba pelo menos dois litros de água por dia
  • Pare de fumar: após apenas duas horas sem cigarro, seu sangue deixa de ter nicotina circulando. Após dez anos sem tabaco, o risco de sofrer um infarto será igual ao das pessoas que nunca fumaram
  • Visite seu médico com a frequência determinada por ele e faça os exames requisitados. Vale a regra: quanto antes uma doença for diagnosticada, maior a chance de cura e menos complexo será o tratamento
  • Se tiver algum problema de saúde, faça o tratamento de acordo com o recomendado, não descuidando dos medicamentos e outras terapias

Fonte: Ministério da Saúde

Aparecida Maria Cazonato, dona de casa de 61 anos, está curada há 12 anos de um câncer no intestino. Ela fez uma cirurgia para retirar parte do órgão e passou por quimioterapias. A idosa atribui ao estilo de vida que leva a cura do tumor e o fato de ele não ter deixado metástase, ou seja, nunca ter retornado. "Sempre me alimentei bem, nem refrigerante estou tomando mais. Não bebo e cigarro faz muitos anos que eu larguei, antes de ter o câncer. Faço caminhada todos os dias, de meia hora a 40 minutos."

Rosimeire Aparecida de Assis Marra, dona de casa de 50 anos, teve um câncer na mama esquerda diagnosticado em 2014. Ela precisou retirar o seio esquerdo e passar por sessões de quimioterapia e radioterapia. "Eu fumava, hoje não fumo mais. Comia qualquer coisa, minha alimentação mudou. Como muita fruta, gordura na minha casa é mínimo. Levo uma vida mais saudável, deveria ter começado antes."

Apesar das vitórias contra o câncer, as duas destacam que a doença deixa sequelas. Ou seja: o melhor é prevenir. Rosimeire, por exemplo, deixou o trabalho como faxineira e no mercadinho. "No tratamento a gente pensa que vai morrer, o corpo não tem força para nada. Estou curada, mas o tratamento deixa sequela. Doem os ossos do corpo, a gente vive à base de remédio, tem dia que não aguenta fazer o serviço de casa."

Aparecida teve o apoio do marido, Abílio, já falecido, para suportar o tratamento, e destaca a fé em Deus, que dá ânimo. "As últimas quimioterapias não foram fáceis. O organismo não fica mais o mesmo." (MG)