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GIGANTESCO E SOMBRIO

Especialistas rio-pretenses dizem ao Diário o que é o buraco negro

Fotografado pela primeira vez na história, buraco negro a 50 milhões de anos-luz da Terra é um "monstro cósmico" que suga tudo o que se aproxima. E é exatamente como descreveu Einstein, há cem anos


    • São José do Rio Preto
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Algo que desafia as leis da física - e até agora só havia sido provado por cálculos matemáticos feitos por Albert Einstein há 100 anos - ganhou uma imagem nesta quarta-feira, 10. Pela primeira vez, foi possível "ver" um buraco negro. Os cientistas do projeto internacional Event Horizon Telescope (EHT) alcançaram este feito baseados em um algoritmo desenvolvido pela jovem Katherine (Katie) Bouman, de 29 anos.

O "monstro cósmico" foi detectado no centro da galáxia M87, a cerca de 50 milhões de anos-luz da Terra, de acordo com os responsáveis pelo projeto. A colaboração internacional EHT reúne quase uma dúzia de telescópios no mundo todo, da Europa ao Polo Sul, passando pelo Chile e Havaí. A foto confirma simulações de buracos negros feitas anteriormente.

A imagem mostra um ponto negro circundado por gás resplandecente, aquecido a milhões de graus. É justamente esse gás que permitiu a imagem de acontecer, já que sem ele tudo não passaria de um grande escuro.

De acordo com Fabio Cafardo, doutorando do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, o buraco suga tudo à sua volta porque contém a força gravitacional de milhões de massas que estão dentro dele. Não se sabe exatamente como ele se forma, mas uma das possibilidades é pela morte de uma estrela que colapsa, gerando uma explosão e se transformando no buraco negro.

Cafardo explica que esse gás luminoso é o material que está caindo no buraco negro. "Está muito quente porque está caindo na velocidade da luz", afirma.

Parte dessa matéria está escapando porque está fora de uma linha que os cientistas chamam de horizonte de eventos. Depois que adentrou no horizonte de eventos (uma espécie de círculo em volta do buraco negro), nada mais escapa, nem mesmo a luz, e nunca mais poderá ser visto. Uma nave espacial, por exemplo, provavelmente seria puxada para o buraco negro muito antes desse ponto, já que não tem a velocidade da luz, de 299,7 milhões de metros por segundo.

Clique na imagem para ampliar  (Foto: Reprodução)

A fronteira do buraco negro fotografado, incluindo seu horizonte de eventos, é 2,5 menor que a sombra por ele projetada e mede 40 bilhões de quilômetros de um lado a outro. Ele tem 6,5 bilhões de vezes a massa do Sol, que, em toneladas, é de 1.989 seguidos de 24 zeros.

O astrônomo Nelson Falsarella, de Rio Preto, pondera que o buraco negro desafia as leis da Física. "As estrelas são gigantescas, têm 300 milhões de quilômetros de diâmetro. Quando entram em colapso, concentram toda a massa em um espaço muito pequeno". Ele compara os astros com cebolas. "Tem um núcleo e as camadas em volta. Imagine que as camadas externas colapsam em direção ao núcleo e apertam esse núcleo de forma absurda. São muito grandes as proporções dos fenômenos físicos que ocorrem."

Para ele, a única explicação é que a massa que está se comprimindo deve fluir para outro lugar. "Não nesse universo que vivemos, às vezes em outro, alguma outra dimensão. O buraco formado no espaço/tempo, segundo algumas conjecturas, pode enviar a matéria para outro lugar do Universo, muito distante, e sair assim do outro lado do Universo. Você entraria para dentro de um buraco negro e sairia num lugar muito distante daquele em que você estava antes de entrar."

Falsarella explica que esse buraco negro é tão grande porque já devorou milhões de estrelas. "Está no centro da galáxia e aderiu muita matéria da sua vizinhança. Tem estrelas que colapsaram em buraco negro e não devem ter devorado nenhuma estrela, portanto são bem pequenas."

Albert Einstein já previa que as grandes forças gravitacionais atraem luz. "A luz quando passa ao lado de uma força grande muda de direção", diz o especialista de Rio Preto. Assim, uma vez dentro do buraco negro, a luz não consegue mais escapar.

Professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, Rodrigo Nemmen explica o porquê de a ciência ter levado tanto tempo para chegar ao feito. "Fotografar um buraco negro é como colocar uma caneca na superfície da Lua e fotografar esse objeto daqui da Terra. De forma geral, é um feito extremamente complicado."

Jato da galáxia

Da galáxia M87 sai uma espécie de "jato". O doutorando Fabio Cafardo explica que o buraco negro também tem órbita. Ao girar, arrasta com ele o próprio espaço. Enquanto isso, matéria com cargas positivas e negativas continua sendo atraída para seu interior. "À medida que o campo magnético vai torcendo junto com o espaço, fica mais concentrado o campo magnético perto dos polos do buraco negro; a matéria que está caindo é atraída para esses pontos antes de cruzar o horizonte de eventos e ela é acelerada", afirma. "Partículas aceleradas têm radiação, luz. É o jato."

(Com Agência Estado)

 

O buraco negro fotografado pelos cientistas fica a 50 milhões de anos-luz da Terra, na galáxia M87, muito longe da Via Láctea, onde existe também um buraco negro já rastreado, mas muito menor que o mostrado nesta semana.

De acordo com Fabio Cafardo, não existe possibilidade de a Terra ser atraída para um buraco negro, pois não existe nenhum conhecido nas proximidades com essa capacidade de atração - a força gravitacional depende da massa de cada um, do tanto de matéria que já atraiu para si. "Não existe nenhum conhecido próximo da Terra a ponto de, nos próximos milhões de anos, correr algum risco de que isso aconteça."

Ele também garante que não há risco de que o Sol vire um buraco negro. "Quando o Sol morrer, daqui a bilhões de anos, a gente nem imagina o que vai ter acontecido com o planeta Terra. É uma das últimas preocupações que a gente poderia ter. A gente tem muitas coisas para se preocupar", diz ele, referindo-se à necessidade de cuidar da Terra no que se refere à preservação do meio ambiente. (MG)