Diário da Região

04/02/2019 - 23h14min

Brumadinho

Além da dor, as fake news

Familiares e amigos das vítimas da tragédia de Brumadinho-MG, em que já há 134 mortos confirmados, convivem com 'avalanche' de notícias falsas sobre o desastre

Fotos: Cristiana Garcia Escatulin Voluntários retornam de resgate cheios de lama; no detalhe, máquina arremessada pela
Voluntários retornam de resgate cheios de lama; no detalhe, máquina arremessada pela "avalanche"

No décimo dia da tragédia de Brumadinho, causada pelo rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, pertencente à empresa Vale, quando o número confirmado de mortos subiu para 134, parentes e familiares ainda tiveram que conviver com um outro mal: as fake news.

Primeiro, ainda na madrugada, circularam informações de que sirenes teriam sido acionadas na região. Contudo, segundo o Corpo de Bombeiros, elas não procedem. Militares afirmaram que aparentemente houve um som, mas ele não foi proveniente da região afetada pelo rompimento da barragem ou de outra barragem da Vale, e sim de uma empresa próxima.

Pelo menos 30% das notícias mais divulgadas sobre a tragédia eram falsas ou incorretas, segundo aponta um estudo da Diretoria de Análises de Políticas Públicas (DAPP) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Diferentemente do que ocorre num contexto eleitoral - em que as fake news teriam por objetivo trazer vantagens para determinados grupos políticos -, no caso da tragédia, a meta é atrair cliques. Essas notícias falsas são divulgadas mesmo a custo da propagação de mentiras ou desinformação. "A notícia sensacionalista, de aspecto emocional, gera clique", resume o pesquisador Lucas Calil, da DAPP/FGV. "Quanto mais emocionais elas são, maior o engajamento".

Mesmo assim, segundo o pesquisador, sempre pode existir um interesse político subjacente. "Sempre pode interessar a um grupo político acelerar a investigação sobre as causas da tragédia, por exemplo", afirmou. "Nesse caso específico, há centenas de forças envolvidas, as mineradoras, o governo do Estado, o governo federal, os governos anteriores".

O levantamento foi feito a partir de todos os links sobre o rompimento da barragem compartilhados no Facebook das 12h de sexta, 25 de janeiro, até as 12h da sexta seguinte, 1 de fevereiro. Os pesquisadores destacaram, então, os 100 links com maior volume de interações (um total de 26,9 milhões de comentários, compartilhamentos e reações), foram analisados mais a fundo. Nada menos que 30 deles apresentaram recursos de desinformação.

Segundo o estudo, a maioria dos links de maior alcance de desinformação é de aspecto emocional. Ou seja, os links mostram imagens de resgate de pessoas e, principalmente, de animais que não tem veracidade comprovada. Um dos vídeos mais divulgados, atribuído a um salvamento dos militares israelenses, ocorreu, na verdade, na guerra da Síria.

Outro levantamento da FGV nos primeiros dias após a tragédia, revelou uma grande mobilização no Twitter. Entre às 12h de sexta-feira, 25 de janeiro, dia do rompimento, até as 12h de segunda-feira, dia 28, foram 3,95 milhões de menções na rede social. Nesse caso, a maior parte das postagens (110 mil) era em solidariedade às vítimas e pedidos de ajuda.

Busca incessante

As buscas por vítimas do rompimento da barragem da Vale começaram mais tarde nesta segunda, 4, por causa da chuva que caiu na região do acidente. Geralmente começam às 5h, mas nesta segunda foram retomadas mais tarde.

Segundo o tenente Pedro Aihara, porta-voz dos Bombeiros, é possível que alguns corpos não sejam recuperados, devido ao tempo decorrido desde a tragédia. Mesmo assim, conforme Aihara, as busca por corpos devem continuar até que não seja mais possível resgatá-los. O trabalho ganhou o reforço, no domingo, de 64 militares da Força nacional, que se juntaram aos 450 oficiais já em campo.

A cidade está triste, diz voluntária

"Quando cheguei lá, me bateu uma tristeza muito grande. O clima é tão pesado, que você arrepia". Essa foi a sensação da secretária Cristiana Garcia Escatulin, 55 anos, ao chegar próximo do local onde houve o rompimento da barragem de Brumadinho. A rio-pretense integrou um grupo de voluntários da ONG 1%, de Jaú, que atuou por três dias na cidade mineira. Cristiana foi uma das pessoas autorizadas a entrarem na Comunidade Córrego do Feijão, onde o acesso ao local é controlado. Para ajudar as equipes, os voluntários levaram kits contendo protetor solar, medicação, colírio e repelente contra insetos. Eles também auxiliaram na lavagem dos profissionais, que voltam do trabalho de resgate cobertos de lama. "Nós víamos os bombeiros chegarem todos rasgados e machucados, sujos e ainda correndo risco de pegarem doença", relata.

Os voluntários também tiveram papel humanitário. Eles relatam que muitas pessoas passam o dia próximo ao Centro de Operações onde os helicópteros chegam com os corpos resgatados. Todos, na esperança de porem fim à angústia. "Muitas vezes, a gente nem fala nada, só se aproxima e abraça as pessoas", diz. Ela percorreu o caminho da lama e encontrou o ponto onde uma retroescavadeira, engolida pela "avalanche" de rejeitos de minério, foi soterrada e o operador, salvo por colegas.

Cristiana já tinha experiência em trabalho voluntário, ajudando moradores de rua em Rio Preto. "Voltei de Minas uma pessoa muito melhor. Voltei sentindo mais compaixão", finaliza.

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