Diário da Região

09/02/2019 - 00h30min

VACINA CONTRA IGNORÂNCIA

Infectologista alerta para as consequências de não tomar vacinas

Médico, professor e pesquisador Maurício Lacerda Nogueira acompanha importantes estudos em torno de doenças como dengue e zika

Johnny Torres Dr. Mauricio Lacerda Nogueira
Dr. Mauricio Lacerda Nogueira

À frente do Laboratório de Pesquisas em Virologia, ligado ao Departamento de Doenças Dermatológicas, Infecciosas e Parasitárias da Famerp (Faculdade de Medicina de Rio Preto), o médico, professor e pesquisador Maurício Lacerda Nogueira acompanha importantes estudos em torno de doenças como dengue e zika.

A comprovação da eficácia da vacina contra dengue é uma das metas desse profissional, que se identificou com a área de virologia ainda na faculdade de Medicina, quando participou de pesquisas sobre herpes em pacientes com HIV na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ele também fez pós-doutorado no National Institute of Allergy and Infectious Diseases, nos Estados Unidos, de onde veio para assumir as pesquisas em virologia da Famerp há cerca de 15 anos.

Nesta entrevista, ele fala da importância de uma vacina para combater a ignorância que assola a sociedade. E ela se chama educação. "Nós estamos aqui anos e anos trabalhando numa vacina, gastando milhões de dólares, aí eu abro a internet e vejo alguém dizer que vacina faz mal para a saúde. Para isso, tolerância zero. Nós estamos tolerando a ignorância, e nós não podemos tolerar a ignorância", critica.

Segundo Nogueira, o movimento contra vacinas, que ganhou voz nas redes sociais, está fazendo com que países desenvolvidos registrem epidemias de doenças praticamente superadas como sarampo.

V&A - Conte-nos um poucos sobre sua trajetória até vir a Rio Preto, para atuar na Famerp?

Maurício Lacerda Nogueira - Eu nasci aqui perto, em Jaboticabal. Meu pai é médico, e eu fui fazer Medicina em Belo Horizonte, me formando em 1995. Eu ainda fiz meu mestrado e doutorado em Belo Horizonte e fui para os Estados Unidos, fazer pós-doutorado no Instituto Nacional de Saúde. Foi quando surgiu a oportunidade de vir para cá, que foi até uma história meio engraçada. Na época, no começo dos anos 2000, havia um programa da Fapesp de diversidade genética de vírus. Era um programa grande, no qual Rio Preto foi selecionada para ser um dos centros, mas, na época, não tinha pessoal qualificado na área de virologia aqui. Havia necessidade de procurar alguém com qualificação em virologia, e eles queriam um médico. Na época, o diretor era o doutor José Victor Maniglia, que também, por coincidência, era chefe do meu irmão. Meu irmão era médico residente aqui, na área de otorrinolaringologia. Um dia, o doutor José Victor comentou e meu irmão escutou: "Meu Deus, onde é que eu vou achar um médico virologista?". Ai meu irmão falou de mim. Eu estava morando nos Estados Unidos e não tinha intenção de voltar. Havia uma pressão do grupo que coordenava a rede de virologia para se contratasse um virologista o mais rápido possível para poder tocar o projeto. Eles me contactaram e pediram meu currículo. Houve, então, o convite para eu vir pra cá, isso em 2003. Naquela época, minha esposa estava grávida da minha primeira filha, e eu tinha um monte de coisas para terminar nos EUA. Nós concordamos em vir para cá em julho de 2004. Foi quando eu cheguei aqui, assumindo o laboratório, que era da rede da diversidade genética de vírus.

V&A - Como deu-se seu interesse pela área de virologia?

Nogueira - Na faculdade, eu sempre tive interesse em seguir uma carreira acadêmica, e uma das áreas que mais me interessavam era a de doenças infecciosas. A UFMG, na época, era muito forte, e é até hoje, em parasitologia. E eu não me interessava, especialmente na faculdade de Medicina, por parasitas. Durante o meu internato, já no final do curso, no auge da aids, comecei a acompanhar algumas doenças causadas por herpes em pacientes com HIV, e entrei em contato, na época, com o pessoal da virologia da UFMG, para discutir alguns casos, fazer alguns diagnósticos. Daí surgiu o convite deles para que, quando eu me formasse, me juntasse ao grupo da virologia. E foi o que aconteceu.

V&A - Na Famerp, o senhor conduz importantes pesquisas em torno de doenças como dengue e zika. Por que não continuou pesquisando doenças relacionadas ao HIV?

Nogueira - Toda a minha formação em Belo Horizonte e nos Estados Unidos foi trabalhando com vírus causador de herpes. Quando eu resolvi vir pra cá, um grande amigo, professora da USP de Ribeirão Preto, o doutor Luiz Tadeu Figueiredo, virou pra mim e falou: 'Maurício, não. Você tem que trabalhar com dengue lá. Porque dengue é um problema muito sério de saúde pública nessa região, e é isso que a gente tem que trabalhar.' Então, quando eu vim pra cá, nós começamos a trabalhar com dengue. Nós começamos uma série de estudos, primeiro para entender quais eram os vírus que circulavam no município - os tipos de vírus, as características desses vírus e os aspectos epidemiológicos deles. Com o tempo, veio aparecendo o zika, o chikungunya, e isso gerou uma série de outros trabalhos nesses 15 anos em que estou aqui. Acho que o ponto culminante desse trabalho foi o que aconteceu nos últimos dois, três anos, que é um estudo da vacina de dengue e outro da população da Vila Toninho - como a dengue afetou essa população e como o zika está afetando essa população. Conhecimentos gerados aqui, em São José do Rio Preto, especialmente na Vila Toninho, hoje são referências mundiais sobre o impacto da zika.

V&A - E sobre a vacina da dengue, qual a próxima etapa desse estudo?

Nogueira - Sobre a vacina da dengue, o que nós precisamos agora é ter realmente uma avaliação da eficácia dela. A gente sabe que teoricamente ela é boa, foi testada em pequena escala e funcionou bem. Ela já se mostrou segura em larga escala. Já são mais de 15 mil pessoas vacinadas no Brasil. Mas o ponto chave é a eficácia. E, para você ter uma eficácia, saber a eficácia de uma vacina, você tem que ter tido casos de dengue na população, o que nós não tivemos nos últimos dois anos, não só em Rio Preto, mas no Brasil inteiro. Então, agora, com os aumentos dos casos de dengue não só aqui em Rio Preto, mas em outras regiões do País, talvez para o final do ano a gente tenha uma boa ideia da eficácia dessa vacina.

V&A - No cenário mundial, o senhor acha que o Brasil tem relevância em pesquisas científicas?

Nogueira - O Brasil é uma liderança mundial na área de doenças infecciosas, mas essa liderança oscila. Ela oscila conforme o financiamento. Eu gosto muito de comparar a situação da febre amarela, que nós tivemos dois anos atrás, com a zika. Quando a gente teve a epidemia de zika, rapidamente os cientistas brasileiros deram resposta. Por quê? Na época, nós tínhamos dinheiro e pessoal. Logo depois da zika, a crise financeira foi absurda: os laboratórios ficaram sem dinheiro e a maioria dos laboratórios, sem pessoal. Quando veio a febre amarela, agora, dois anos atrás, nós não tínhamos dinheiro nem pessoal. Você pode ver que as respostas sobre a febre amarela não foram dadas ainda. Então, potencial, pessoal qualificado e uma área interessante para estudo nós temos. Agora, não se estuda sem dinheiro. Em São Paulo, você ainda tem uma situação um pouco mais tranquila com a Fapesp, que tem um financiamento bastante regular, um bom valor que pouco se altera ano a ano. Mas o financiamento do governo federal foi basicamente irrisório nos últimos anos.

V&A - O senhor deve ter um dia a dia bastante corrido. O que gosta de fazer nos momentos de lazer?

Nogueira - É uma correria. Eu estou na Famerp praticamente o tempo todo. Também viajo muito. Até dezembro eu era presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, e continuo trabalhando como consultor da Organização Mundial de Saúde e com a Associação Pan-americana de Saúde. Tenho trabalhos em colaboração em Manaus e Belo Horizonte. Ou seja, são cidades que estou viajando frequentemente. Isso tem, sim, um impacto muito grande na família. Gera uma pressão muito grande na minha esposa e nas minhas filhas. Minha esposa também é professora, e ter que fazer tudo isso gera um calendário difícil para a gente se adequar. Mas a gente tem um pouco de folga. Eu acho que o meu lazer é jogar basquete com meus amigos no Monte Líbano, sentar em um bar com meus amigos ou na Sociedade de Medicina, ou no Monte Líbano também, para poder tentar esquecer um pouco dessa rotina louca.

V&A - Tem algum sonho que gostaria de ver realizado?

Nogueira - Sonhos são difíceis. Eu gosto das coisas um pouco mais a curto prazo. Eu coloco metas. Talvez o maior sonho é ter conseguido ter uma família, duas filhas lindas, uma esposa maravilhosa. Eu acho que tem que ter metas, a curto e a médio prazo. São metas do Hospital de Base, de profissionalizar cada vez mais o laboratório de sorologia. Metas aqui, na Famerp, de ajudar a profissionalizar de forma mais eficiente a excelência em ciência. A Famerp é uma faculdade excelente no ensino e excelente na assistência, mas ainda deixa um pouco a desejar em pesquisa. Nós temos que investir um pouco nisso, é uma meta ajudar a diretoria nesse caminho. E uma outra meta é ser mais tranquilo (risos), mas isso está mais difícil.

V&A - Impossível não observar o quadro com a frase "Pergunta idiota, tolerância zero" em sua sala. Isso já funciona como um aviso?

Nogueira - Nós vivemos uma época muito esquisita. Eu acho que alguém já escreveu isso (Umberto Eco) - o problema dessas citações da internet é que você nunca realmente sabe quem escreveu -, que o Facebook deu voz aos idiotas. A mídia social deu voz aos idiotas. É aquela situação: nós estamos aqui anos e anos trabalhando numa vacina, gastando milhões de dólares, aí eu abro a internet e vejo alguém dizer que vacina faz mal para a saúde. Para isso, tolerância zero. Nós estamos tolerando a ignorância, e nós não podemos tolerar a ignorância. Como professor universitário, médico, cientista e educador, a ignorância não pode ser tolerada. Essa nova geração que se alimenta das redes sociais é uma geração que, até pelos próprios algoritmos ligados ao funcionamento dessas redes, têm uma retroalimentação positiva: ela só escuta o que ela quer e ela não sabe discutir, não sabe tolerar, não concorda com a discordância - não concorda que exista uma discordância. Então, está muito difícil. Eu estou ficando velho e não estou tolerando mais esse tipo de coisa. Isso tem repercussões sociais, repercussões de saúde e até mesmo políticas. Nós tivemos uma eleição que foi decidida no ódio acalentado pela rede social. Agora, voltando à minha área, nós estamos vendo epidemias de sarampo em países desenvolvidos. Recebi uma mensagem via Facebook e quase joguei o telefone na parede de raiva. Uma mãe, num grupo antivacina, dizendo o seguinte: "Olha, está tendo uma epidemia de sarampo aqui na minha região, minha filha tem 3 anos e não é vacinada. O que eu posso fazer para protegê-la que seja barato?" O que ela pode fazer? Vacinar. Entendeu?!

V&A - O Rotary, que levanta a bandeira da vacina da pólio, chamou a atenção para esse aspecto recentemente.

Nogueira - O Rotary tem uma história linda com a vacina de pólio. Nós estivemos muito perto para acabar com a pólio no mundo. Muito mesmo. Recentemente, eu conversei com uma das pessoas responsáveis por isso na Organização Mundial de Saúde. Teve um evento em Genebra discutindo uma série de doenças, e a pólio foi uma delas. Eu perguntei isso para ele. Quase chorou. Porque nós andamos 15 anos para trás, ou talvez até mais, 20 anos. E por quê? Ignorância das pessoas. O conhecimento científico está ali. Nós estamos trabalhando com vacina desde (Edward) Jenner... são 300 anos. Vacina é barato, vacina salva vida. Aí você abre a internet e o "Doutor Google" começa a dizer um monte de bobagens. E todo esse conhecimento adquirido por anos na ciência tem que ser discutido com alguém que "ouviu falar", porque "disseram a ele", porque "viu 400 vezes na internet" - não sabendo que aquilo é uma retroalimentação que os algoritmos das redes sociais te trazem. É uma loucura.

V&A - E a vacina para a ignorância é a educação.

Nogueira - Isso. A vacina para a ignorância é a educação. Educação básica, educação média e ensino superior. Agora, para isso, precisamos de um País que remunere o professor. Remuneração do professor da educação básica ao ensino superior, que é muito ruim neste País. V&A

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