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Entrevista

Criados para a perfeição

Somos como o mármore bruto que está sendo lapidado, diz Divaldo Pereira Franco


    • São José do Rio Preto
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A partir da obra "Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho" publicada por Chico Xavier pela Federação Espírita Brasileira, saiu a notícia de que o País, sem nenhum detrimento para outras nacionalidades, havia sido eleito para trazer de volta o evangelho de Jesus, o espírito e verdade, conforme ele anunciou. Isso se deu por ser o Brasil um País novo, muito diferente dos europeus, não ter um carma coletivo e de ser uma nação miscigenada em que predomina o sentimento em detrimento dos fatores destrutivos muito comuns às grandes e poderosas nações. Temos uma tarefa muito grande de levar o evangelho não apenas ao velho mundo, mas também aos continentes asiático e africano porque se trata da palavra de Cristo, conforme está no evangelho, e deve ser vivida diariamente por cada um de nós. As palavras são do médium e orador espírita Divaldo Pereira Franco, que esteve recentemente em Rio Preto.

Divaldo já psicografou 280 livros, sendo 100 deles traduzidos para 18 idiomas, inclusive no método Braile. Todo o dinheiro com a venda das obras - já são mais de 20 milhões de exemplares- é revertido para a caridade. Ele é fundador da Mansão do Caminho, obra assistencial na periferia de Salvador, na Bahia, que atende 6 mil pessoas todos os dias. Ele falou com exclusividade à revista Bem-Estar.

Bem-Estar- O Brasil tem uma missão espiritual no Universo?

Divaldo- Sem dúvida. Não se trata de uma nova Canaã (terra que Deus prometeu aos israelitas como sua herança) em que o Brasil seria um destaque, mas em determinismo de natureza espiritual. Segundo informações do próprio espírito de Humberto de Campos, o autor desta obra monumental, o nosso País atravessou períodos muito difíceis como todas as nações novas e não houve guerras lamentáveis. Houve movimentos de insurreição e de nacionalismo como o período em que se notabilizou o grande Tiradentes, outras pequenas guerras locais como a dos Farrapos, no Rio Grande do Sul, e dos Alfaiates, na Bahia. Mas, entre as grandes nações, sempre houve guerras fronteiriças e o Brasil teria como calamidade a guerra do Paraguai, na tríplice Aliança, em que três nações se uniam na corrente do rio da Prata ou do próprio rio Paraná/Paraguai para combater uma nação que não teria outro recurso senão ter que defender-se.

E este recurso incluiu um carma naturalmente. A vitória foi da nacionalidade brasileira, mas nós sabemos o preço que o Paraguai pagou e que, até hoje, como consequência, não ter ficado praticamente o sexo masculino. Houve também a batalha em que crianças mandadas pelo Paraguai teriam sido trucidadas nas terras difíceis do Mato Grosso do Sul, a retirada dolorosa da Laguna, e isto constituiu um carma coletivo. O segundo carma teria sido no período especial que o Brasil viveu desde 1964 na noite de 31 de março, denominada 'a ditadura militar', o período de exceção. Mas, para o primeiro grande crime, o País procurou ressarcir a pátria paraguaia na construção de Itaipu, favorecendo com energia que hoje nós compramos dos nossos irmãos paraguaios. O outro carma seria uma herança de Portugal, a escravidão negra. Muitas leis brasileiras - a lei dos recém-nascidos, a dos sexagenários, e, por fim, a Lei Áurea da princesa Isabel - pagaram o carma iniciado com Portugal.

Então, dentro dessa visão sociológica, o Brasil se candidatou a receber da França o espiritismo, uma doutrina muito complexa e salvadora. Não é salvacionista porque é uma doutrina que ilumina o indivíduo para que ele próprio se salve. Então, à essa tradição histórica proposta por Humberto de Campos - mas que não desmerece as outras nações- também exige de cada um de nós brasileiros uma vivência pacífica, pacificadora, construtora do bem e que possa servir de modelo às nações mais poderosas do mundo.

Bem-Estar- Qual foi a lição de casa que nós ainda não fizemos para atingir esse estágio?

Divaldo- Ainda não compreendemos o nosso destino histórico. A criatura humana é um ser tríplice em que o espírito -que é de natureza imortal- se reveste de uma matéria muito tênue, que Allan Kardec chamava 'semimaterial' em razão de a física ser newtoniana, não possuímos essa rede fantástica que a física quântica coloca entre a matéria e energia. E, por fim, o corpo, esse campo que os mentalistas chamam de corpo astral, assimila os conteúdos para a próxima reencarnação. Ocorre que ainda não tivemos a oportunidade de apresentar a justiça e a solidariedade, mas, por outro lado, nós brasileiros temos levado a mensagem espírita a inúmeros países europeus onde ela somente teve guarida antes da segunda guerra mundial.

Por exemplo, na Alemanha, o movimento espírita hoje é significativo, mas ele foi implantado por brasileiros ali residentes e outros visitantes. Na Suíça, o país da paz, da pacificação, também não houve um movimento espírita, no entanto onde ele se celebriza com realizações muito expressivas. Na Áustria, não se tem recordação de um movimento espírita antes das guerras, todavia, os brasileiros ali levaram a chama da doutrina espírita e existe hoje um órgão internacional abrangendo 41 países do mundo dentro do enfoque do espiritismo, conforme Allan Kardec nos ensinou.

Bem-Estar- Nós no Brasil ainda estamos passando por crises econômica, ética e moral também. Isso é resultado da nossa própria ação ou omissão?

Divaldo- Sim. Nós compreendemos que somos semeadores, a realidade do hoje começou ontem quando nós permitimos ações que não correspondem à ética do evangelho, nem à ética socrática da moralização da criatura humana e vimos colhendo essas crises que, aliás, são internacionais. Me recordo da grande crise que padeceu a Grécia no ano retrasado, a Espanha, a própria França; a Itália que tem vivido muitas crises principalmente sociopolítica e econômica; os países da América Latina com os movimentos revolucionários desde os tupamaros, no Uruguai, até a revolução intérmina que experimenta a Colômbia. Firmam-se tratados de paz, mas a paz não é cumprida. O Brasil também tem tido momentos difíceis, mas graças a Deus não temos escravizado outras nações.

O nosso comércio é livre e não faz com que outras se submetam; respeitamos a soberania das outras nações, mesmo aquelas que têm graves problemas políticos e sociais como agora se vive na Venezuela. Então, face a esta naturalidade da alma brasileira que está aqui numa lapidação porque, em realidade, nós somos espíritos brasileiros que viemos de outras nações e, há uma tradição que não se pode confirmar, que uma grande parte dos brasileiros no século 19 e, naturalmente nesta idade, é procedente da França, como sendo um legado que a revolução de 1789 ofereceu ao mundo e aqueles espíritos deixaram de pelejar o solo da França para virem à alma brasileira aqui nos dias de independência, da República, dos ideais democráticos que todos nós hoje abraçamos.

Bem-Estar- Estamos passando por uma fase de purificação do nosso espírito?

Divaldo- Sem dúvida, porque todos nós temos uma retaguarda de ignorância, porque no processo antropossociopsicológico nós éramos nada mais do que um fascículo de luz e esse fascículo, com as bênçãos do amor da divindade, desenvolve-se e, através das reencarnações, isso manifestou-se primeiro pelo instinto tendo por predominância o instinto de conservação da vida. Então a violência defluente do medo levou-nos a matar para não sermos assassinados. E, em consequência, o ego tomou uma postura de autodefesa muito distante do selfie, daquela realidade que somos. Através da história vimos nos comportando mais egoticamente do que no sentido solidário. Hoje somos ainda um povo muito apegado ao passado, às tradições.

Houve uma grande ruptura desses fenômenos nos anos 1960 na revolução hippieísta, na busca dos direitos da mulher, dos direitos da infância e da juventude, mas como tudo aquilo que demora aprisionado, quando chega à liberdade, a falta de experiência de ser livre torna o indivíduo libertino. Nós temos derrapado nos desvarios do sexo, das ambições, nas posições econômicas principalmente de um capitalismo sem Deus, um capitalismo traidor em que uma pequena massa possui aquilo que atenderia a todos. Então isso produz fenômenos cármicos, isto é, consequências que nós carpimos de outras vidas, daí a nossa postura de ser conforme ainda acentua a doutrina espírita, um planeta, um País de provas e expiações caminhando para um mundo de regeneração e de paz.

Bem-Estar- Temos passado por momentos turbulentos, com muita ansiedade, casos crescentes de depressão, síndrome do pânico e medo. Por que tantas questões internas mal resolvidas estão aflorando neste momento?

Divaldo- Porque nós somos ainda muito impressionáveis, somos imaturos psicologicamente. Acreditamos nas mentiras e temos no nosso inconsciente a necessidade da culpa. Quanto à nossa invigilância, nos deixamos dominar por uma imprensa malsã e, agora, através das comunicações virtuais admiráveis, surgem notícias falseadas para atender a interesses pessoais e interesses escusos. Naturalmente houve há pouco tempo, antes das eleições, uma verdeira farra de acusações recíprocas entre indivíduos, entre partícipes de instituições políticas, mas principalmente no entusiasmo e no fanatismo pelo interesse de algumas classes. E, naturalmente, veio esta onda de temor que hoje está refletida nesta expectativa negativa. O evangelho de Jesus já nos diz que não devemos nos preocupar tanto com o dia do amanhã, devendo dar a nossa preocupação ao dia de hoje.

Se procedemos bem, confiarmos em Deus e não nos deixarmos engolfar por qualquer notícia -na certeza de que somente nos acontece o que é de melhor para nós- tudo isso desaparece como castelo de cartas que tomba. Eu pessoalmente confesso que acredito que o nosso País oportunamente sairá deste estado de confusão, quando todos nos abraçaremos como sempre nos abraçamos. Os ódios políticos, as reações entre partidos sempre aconteceram no mundo inteiro. A revolução francesa é um desses exemplos, a conquista e libertação dos Estados Unidos, é outro. Então, este momento há de ser diluído num sentimento de fraternidade que vai viver em nossos corações.

Esse medo é um fenômeno estudado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) que decreta ser este o período da depressão -que não é uma enfermidade, mas um transtorno- hoje é de natureza pandêmica. Existem na Terra 360 milhões de pessoas diagnosticadas como depressivas numa verdadeira multidão. Então, a OMS pede-nos realizar uma terapia preventiva, mudar os hábitos, mudar a estrutura do nosso comportamento, olvidarmos o ódio, o desejo de vingança que produzem miasmas cerebrais que nos isolam da comunidade e nos levam a frustrações dolorosas que são as causas matrizes do transtorno depressivo.

Bem-Estar- Que conselho o senhor daria para as pessoas que estão atravessando esse período difícil, sem perder o equilíbrio e a sanidade mental?

Divaldo- Compreendamos que Deus é amor. Todos os seres foram criados para a perfeição. Somos como o mármore bruto que está sendo lapidado para que apareça a estátua grandiosa na intimidade do mineral. Quando Michelangelo terminou de compor uma das belas páginas da estrutura mundial, perguntaram como era possível que ele pegasse o mármore e fizesse, por exemplo, Davi, fizesse a Virgem com Jesus no colo que se encontra na entrada do Vaticano, na igreja de São Pedro. Ele disse com naturalidade: 'todos veem o bloco de mármore, eu não; eu vejo o que está dentro. Então meu trabalho não é grande, eu tiro as excrescências para poder deixar a figura que eu vejo'. É uma simplicidade muito grande para nós que vemos aí uma complexidade muito voluptuosa. Então é necessário que nós creiamos na vida, a vida vale ser vivida com todo sentimento de amor. Vale vivermos intensamente o hoje e cada momento, sem os tormentos pelo amanhã.

Se por acaso a pessoa está com medo, não deixe de fazer uma terapia. Os psicoterapeutas, os psiquiatras e os psicanalistas são nossos amigos, não é uma desgraça buscarmos o auxílio de um especialista na área nervosa, na área psicológica, na área psíquica. Mas façamos a nossa parte, leiamos coisas positivas, realizemos ginástica, façamos grupos de cânticos, realizemos jornadas a pé. Os terapeutas hoje afirmam que uma caminhada de oito quilômetros vale mais do que uma drágea de barbitúrico, porque nós suamos e nos libertamos desses miasmas. Ame. Se você amar e focar o seu pensamento no amor, isso muda. Ajude a alguém. Se você está atormentado, a um passo do desequilíbrio, faça por alguém o que você gostaria que alguém fizesse por você.