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Rio Preto

Unesp testa pimenta indiana contra o câncer

Estudo de grupo do Ibilce descobre que substância extraída da pimenta-de-java pode diminuir proliferação de células do câncer de cabeça, pescoço e colo do útero e chance delas se espalharem pelo corpo

Millena Grigoleti
Publicado em 14/11/2018 às 20:09Atualizado em 07/07/2021 às 22:43
 (Picasa)

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Uma pesquisa desenvolvida por um grupo do Programa de Pós-Graduação em Biociências do Ibilce, campus da Unesp de Rio Preto, aponta um componente da pimenta-de-java como possível tratamento contra os cânceres de cabeça e pescoço e também os de colo de útero. Além de impedir que as células cancerosas migrem para outros órgãos, o elemento ainda diminui sua taxa de multiplicação e modifica sua genética.

Por ser natural, a expectativa é que a lignana da pimenta seja menos tóxica que outros tratamentos atualmente utilizados para tratar a doença, como quimio e radioterapia. A lignana é encontrada em quase todas as plantas, e age como antioxidante.

A pimenta utilizada é também conhecida como piper cubeba, que já vinha sendo utilizada como tratamento natural contra gonorreia, sífilis, dores abdominais, diarreia, enterite, asma e tumores em geral. A pesquisadora e professora Rosângela da Silva de Laurentiz, do Departamento de Física e Química da Faculdade de Engenharia da Unesp de Ilha Solteira, é a responsável por extrair as lignanas das sementes da planta.

A pesquisa do Ibilce foi financiada pela Fapesp e orientada pela professora Flávia Cristina Rodrigues Lisoni, que atua no Programa de Pós-Graduação em Biociências do instituto e na Faculdade de Engenharia de Ilha Solteira. Há anos trabalha estudando os tumores de cabeça e pescoço e colo de útero, mas é a primeira vez que lida com fitoterápicos, medicamentos oriundos de derivados vegetais. A genética das células tumorigênicas de cabeça e pescoço e de colo de útero é diferente - a única semelhança é que as partes são escamosas.

Participaram do estudo as cientistas Julliene Setphanie Guaraldi Monteiro da Silva, Thais Bravo Picão, Barbara Maria Frigieri, Laila Toniol Cardin e Sonia Maria Oliani.

A análise foi apresentada durante congresso científico no Chile e faz parte de um projeto que começou em março de 2017 e termina no início de 2019. Foram utilizados cinco tipos de lignana, todos extraídos das sementes da planta, em três diferentes concentrações.

As pesquisadoras apontam que os tratamentos para os tumores analisados atualmente são invasivos e causam lesões estéticas irrecuperáveis, por isso a pimenta-de-java cubeba está sendo estudada na medicina alternativa. O grupo utilizou o estudo in vitro com células cancerosas que foram adquiridas de um laboratório dos Estados Unidos. A próxima etapa, ainda sem data para começar, é o teste em animais vivos, como ratos.

"A gente avalia o crescimento dessas células e a resposta é que diminui. A migração também é diminuída com esses fitoterápicos. Além disso, a gente avalia a geno-toxicidade, ou seja, se afeta o núcleo também", afirma a professora Flávia.

Embora a morfologia das células cancerosas não tenha se alterado, a proliferação e a migração diminuíram - as lignanas da pimenta-de-java coíbem a migração do tumor, ou seja, a metástase, fase mais avançada no câncer. A substância ainda é geneticamente tóxica para a célula de tumor.

Segundo Flávia, existe interesse em continuar na linha de pesquisa. Ela considera importante avançar no tratamento do câncer. "Pensando nos efeitos colaterais, por ser fitoterápico, você assume que trará menos".

A professora explica que não é possível saber ainda se existe a possibilidade de que a piper cubeba possa ser aliada para combater tumores em outros locais como mama, próstata e ossos, pois os tumores são muito específicos a cada tecido.

A pimenta-de-java é originária da Índia, mas seria simples cultivá-la por aqui se as pesquisas, que levam anos até culminarem em um tratamento autorizado, apontarem que ela pode servir de tratamento contra o câncer.

A pesquisadora Flávia Cristina junto a painel sobre a pesquisa, apresentada no Chiler (Arquivo Pessoal)

 
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