Diário da Região

07/10/2018 - 00h30min

ENTREVISTA PING-PONG

Professor Carlos Andriani, o pai do Movimento Abraçar

Missão do projeto que será implementado em escola piloto em Rio Preto em 2019 é contribuir para que as prefeituras tenham educação infantil universal e voltada para o caráter das crianças

Divulgação Professor Andriani e sua família criaram o Movimento Abraçar baseados em valores ensinados pelo pai, Douglas
Professor Andriani e sua família criaram o Movimento Abraçar baseados em valores ensinados pelo pai, Douglas

No início de 2019, começa a funcionar em Rio Preto, em uma escola piloto, o Movimento Abraçar, desenvolvido pelo professor Carlos Andriani, que defende que o ser humano deve ser formado até os sete anos de idade - o projeto existe em Campinas há 14 anos, onde atende a 600 crianças na creche Monte Cristo, situada em um bairro violento e socialmente vulnerável. Baseado nos cinco valores da essência humana (amor, paz, verdade, ação correta e não violência), tem o objetivo de educar seres humanos melhores e com capacidade para desenvolver todas suas qualidades positivas, tornando melhor a vida em sociedade.

O Diário está apoiando a implantação do Abraçar em Rio Preto, com o objetivo de somar forças e contribuir para que todas as crianças tenham acesso à educação voltada para a formação do caráter. Segundo matéria publicada em junho na Agência Brasil, 91,5% das crianças brasileiras com idade entre quatro e cinco anos estavam matriculadas em 2016, faltando incluir ainda 450 mil. Entre as com até três anos, a porcentagem de matriculadas era de 31,9% em 2016, faltando colocar mais 1,9 milhão de crianças nas creches. Confira entrevista com Carlos Andriani, idealizador do projeto que está se espalhando pelo País e já atende 3,7 mil crianças de dois a seis anos. 

Diário da Região - Como surgiu a Associação Douglas Andreani? Conte um pouco a história do seu pai.

Carlos Sebastião Andriani - A Associação Douglas Andreani (ADA) foi criada em homenagem aos valores que recebemos de nosso pai, Douglas Andreani, que foi levado para um orfanato após a morte do nosso avô, quando tinha por volta de 6 anos de idade. Lá ele aprendeu a mecânica de automóveis, sendo esta a sua profissão por toda a sua vida. Ele e nossa mãe, Dina Lima Andreani, professora primária, tiveram nove filhos e viveram uma vida difícil, em uma época que a comida era muito cara e não era fácil alimentar toda esta prole. Mesmo assim, nosso pai ajudava as pessoas mais necessitadas.

Quando eu era pequeno, achava esta atitude errada, mas com a evolução da nossa maturidade, verificamos que nosso pai era um sábio e que viveu de acordo com a sua consciência, fazendo aquilo que ele considerava certo. Esta atitude, a nosso ver, contou com a influência no nosso avô que também era pessoa desprendida quanto à questão material. Tivemos a influência de nossos professores no Japão, especialmente com prof. Kaoru Ishikawa, quanto à importância de devolver para a sociedade parte do que conquistamos. Para poder contribuir de forma mais efetiva com a educação, fizemos o Mestrado em Educação e Valores Humanos e PhD na área humana da gestão.

Diário - Em que são baseados os princípios do Movimento Abraçar?

Andriani - Através do Juiz da Vara da Infância e Juventude, Richard Pae Kim, tivemos acesso ao livro "Justiça pela qualidade na educação", escrito com a contribuição de renomados juristas e educadores. Neste livro temos alguns destaques que influenciaram o Movimento Abraçar. O Movimento definiu como seu "slogan": "Empresas do bem, pessoas do bem, fazendo o bem". Ele busca a união da sociedade para a transformação social a partir da criança e definiu como missão "contribuir para que os prefeitos garantam uma educação infantil universal e voltada para a formação do caráter das crianças com base nos valores humanos, o que se fará mediante lei municipal que preveja a preparação dos professores e um plano de atendimento de 100% da demanda em creches e pré-escolas".

Diário - Por que a educação em valores deve ser feita até os sete anos de idade?

Andriani - Porque estamos nesta fase diante de uma janela de oportunidade única para a formação do caráter que irá dirigir as habilidades e conhecimentos do adulto. A formação dos valores antecede a fase de alfabetização da criança. O bebê nasce sem mente e com a capacidade de aprendizagem, de seleção de temas para colocar atenção. A rede neuronal vai se desenvolvendo a partir de uma base de 86 bilhões de neurônios e tem um pico de sinapses na fase dos três anos de idade. Esta rede neuronal estará bem desenvolvida até a fase dos sete anos de idade, quando a criança já compara as situações vividas com relação às experiências boas ou ruins do passado. Desta forma, na fase infantil, a criança guarda seus referenciais de vida com tinta de fogo, ou seja, com muita emoção e com pouca referência da racionalidade.

Diário - Qual é o diferencial do Movimento Abraçar em relação a uma escola de educação infantil comum?

Andriani - A maioria das escolas atende muito bem as diretrizes das secretarias municipais de educação. Em uma avaliação em 16 cidades do Estado de São Paulo, foi percebido que os projetos pedagógicos em geral deixavam a desejar quanto aos temas vinculados a valores. O que o Movimento Abraçar adotou foi uma forte atenção à legislação do Ministério da Educação com referência aos seguintes tópicos: desenvolvimento do ser humano integral, o que envolve o desenvolvimento da essência humana e dos valores humanos; ser humano solidário, cujo tema está vinculado aos valores humanos; vivências éticas, o que gera uma atenção especial quanto a aprender a agir pela consciência e conhecimento de si, que nos leva a focar também o olhar para dentro e não somente para fora do ser humano.

Diário - Como está sua expectativa em relação à implantação do projeto em Rio Preto?

Andriani - A nossa expectativa é muito alta e sabemos que este projeto irá contribuir com grande número de crianças e servirá de preparo para as futuras gerações. A ADA já está preparada para treinar os multiplicadores da Secretaria Municipal de Educação. Já recebemos visita em Campinas da equipe da Secretaria de Educação de Rio Preto, ocasião em que foi possível demonstrar os resultados práticos do projeto. A implantação em Rio Preto servirá de referência para toda a região.

Diário - Qual sua opinião sobre as crianças que ainda estão fora da escola?

Andriani - Este é um tema triste. Para uma criança que não está na creche ou pré-escola, o problema é sério, uma vez que deixamos de oferecer igualdade de oportunidade para estas crianças, futuros adultos que estarão engajados de alguma forma na sociedade. Há alguns juristas que estudam o assunto e chegam a defender a ideia de que se trata de um problema jurídico grave. Creio que nós não podemos dormir tranquilos enquanto existir uma única criança sem escola infantil. Não podemos aceitar a injustiça social sob pena de sermos considerados pessoas sem consciência e não podemos esquecer que até os animais cuidam de suas crias.

Diário - Acha que os cinco valores básicos podem ajudar a formar cidadãos melhores, mais engajados e menos corruptos?

Andriani - Claro. Os valores humanos não são ainda muito bem compreendidos pela nossa sociedade. Todo homem possui uma essência que o caracteriza como ser humano. Esta é a sua substância e nela temos os valores humanos universais que somente o homem possui. O homem vive um conflito dos seus opostos. De um lado o estado egoico com foco em si mesmo, no poder, no status social como prioridade da conduta. Este estado define o homem vivendo aquilo que ele não é como natureza.

Neste estado surgem a corrupção e a violência; a competição e guerra entre as pessoas. Do outro lado, temos a consciência humana, que vai sendo despertada pela educação com base nos valores, na natureza humana universal e que necessita de espaço para sua plena expressão. Quando este estado predomina na conduta do homem, vamos ter o ser humano colaborativo e preocupado com a sociedade e mais engajado com os problemas sociais. Por isso a importância da educação com base nos valores humanos, que traz os benefícios diretos para o indivíduo e para a sociedade.

artigo

Movimento Abraçar

Vivemos hoje um momento ímpar na educação de Rio Preto. Um momento de transformação, de crescimento e de enriquecimento nos procedimentos pedagógicos para atender ainda melhor nossas crianças. E esse é o objetivo que perseguimos desde o primeiro dia do nosso governo e dele não abrimos mão. A educação é - e sempre foi a base de construção de uma sociedade mais justa, desenvolvida com igualdade e oportunidade para todos.

Os números são significativos no sistema de ensino público municipal de Rio Preto. Em um ano e meio de governo, saltamos de 33 mil alunos matriculados para mais de 40 mil. São mais de 135 mil refeições servidas por dia na merenda escolar e um investimento financeiro de mais de R$ 300 milhões por ano.

Para movimentar esta gigantesca estrutura e para oferecer educação de qualidade, investimos muito na formação de professores, diretores, coordenadores e funcionários. Os processos pedagógicos avançam no sentido de construir uma base de ensinamento sólida para nossas crianças. É evidente que novos métodos e novos conceitos se apresentam cotidianamente para aperfeiçoar ainda mais nosso sistema.

O Movimento Abraçar é um deles e me foi apresentado pelo amigo Mauricio Belodi. Tem o foco na formação do caráter das crianças com base em valores humanos universais. O objetivo é ir além de ensinar a escrever e somar; é contribuir para criar seres humanos melhores, incentivando valores positivos inerentes às crianças, para que esses valores permaneçam na vida adulta. Trata-se de um método desenvolvido pelo professor Andriani e que está se espalhando pelo Brasil rapidamente.

Entendendo a importância do movimento e seus conceitos, assinei um termo de adesão ao sistema e hoje estamos prontos para iniciar um projeto piloto que poderá nos encaminhar para futuras ampliações. Vamos iniciar a aplicação do método para quase 400 crianças da Escola Municipal Daisy Rollemberg Trefiglio. Estamos dando o primeiro passo, na certeza de que a semente plantada haverá de produzir frutos.

O programa é amplo e atende 100% a demanda pedagógica comum e segue as diretrizes legais do Ministério da Educação, inclusive a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e da Base Nacional Comum Curricular. Uma das bases principais é o acolhimento das crianças na escola. Elas são recepcionadas de forma diferenciada e passam por práticas como meditação, abraço coletivo, cantoria e contação de histórias. Em cada uma das atividades, naturalmente é destacado pelo menos um valor humano, como amizade, solidariedade ou amor. Acreditamos que, com essas práticas, podemos acreditar num futuro ainda melhor para nossas crianças.

As atividades e os ambientes são variados e o tempo máximo em cada um deles é de 50 minutos. Ao longo do dia, são desenvolvidas brincadeiras como passa anel, bola, brinquedos de montar e motoca. A contação e encenação de histórias também é recorrente e sempre há uma lição a ser ensinada e aprendida.

Fundado há 14 anos em Campinas, o Movimento Abraçar está presente também no Ceará e Pernambuco e atinge 25 mil crianças. Em Campinas, mantém uma creche de tempo integral para 600 crianças de 2 a 5 anos, em parceria com a Prefeitura.

Acredito que os resultados do projeto piloto que estamos implantando a partir de 2019 serão altamente positivos e nos permitirão a expansão para outras unidades escolares, principalmente nos bairros onde a presença do governo se faz mais necessária.

Edinho Araújo, Prefeito de Rio Preto

Projeto pode atingir 18,7 mil crianças

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Ampliação pode significar aplicação em 97 escolas da rede pública

MOVIMENTO ABRAÇAR - Prerrogativa é trabalhar valores humanos

O Movimento Abraçar começará a funcionar em Rio Preto em fevereiro de 2019, quando começa o ano letivo das escolas municipais. Nesse primeiro momento, será implementado em uma unidade piloto. Se ampliado para toda a rede de ensino infantil, o projeto poderá atingir 18.771 pequenos de zero a cinco anos em 78 escolas da rede e 19 conveniadas - um total de 97 unidades. Para isso, terão de ser capacitados 1.557 professores.

Em nota, a Secretaria Municipal de Educação informou que o foco agora é implantar o projeto em uma unidade e torná-lo realidade na rede, para só depois planejar as ampliações.

O Associação Carlos Andreani (ADA), de Campinas, mantenedora do Movimento Abraçar, capacita gratuitamente os educadores que vão trabalhar no projeto.

"As oficinas e práticas são simples de serem implementadas. A questão central é se o professor é amoroso ou não com a criança e este aspecto irá depender basicamente da postura do professor", disse Carlos Sebastião Andriani, criador do Movimento Abraçar.

Em entrevista ao Diário no fim de agosto, quando o anúncio sobre a parceria foi feito, a secretária de educação de Rio Preto, Sueli Petronília Amancio Costa, disse que a equipe da pasta analisou o trabalho desenvolvido pelo Abraçar e concluiu que segue as diretrizes legais do Ministério da Educação, inclusive a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e da Base Nacional Comum Curricular.

"É possível implementar. Vai acontecer um processo de formação e capacitação dos professores e aí começa o desenvolvimento das ações metodológicas propostas por eles (do projeto)", afirmou.

A proposta não intervém no currículo que já é desenvolvido no município e será implementada buscando unir o melhor do Movimento Abraçar ao melhor da educação municipal. "Eu avalio como um processo de enriquecimento do desenvolvimento integral da criança", analisou Sueli.

Atualmente não há ensino sistemático dos valores humanos nas escolas de Rio Preto. Em nota, a Secretaria informou que a proposta pedagógica segue as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil.

"Os valores são ensinados de maneira transversal, ou seja, durante as atividades cotidianas. Dividir um brinquedo pode ensinar a criança a compartilhar. Ajudar um colega ensina sobre solidariedade. A vivência com outras crianças traz situações que ensinam sobre afeto, socialização e respeito, entre outros exemplos".

Andriani acredita que não basta ensinar à criança por meio de palavras, é preciso demonstrar em ações e fazer com que ela perceba as situações para aprender de fato.

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