Diário da Região

01/09/2018 - 00h30min

Entrevista

Os desafios de envelhecer com qualidade de vida

Geriatra João Castilho Cação fala sobre medidas para reduzir o risco de perda da capacidade funcional, além de aumentar a sobrevida e a saúde da população idosa

Guilherme Baffi Dr. Cação
Dr. Cação

Pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que, em 2050, o Brasil vai contar com 66,5 milhões de idosos. Com esta população triplicando, a geriatria é, hoje, considerada a profissão do futuro. O médico João Castilho Cação já enxergava esta tendência há cerca de 30 anos. Paulistano, ele se formou na Unesp de Botucatu, em 1986, pensou primeiramente em se dedicar a clínica médica, mas acabou escolhendo a geriatria, em um momento em que pouco se falava sobre envelhecimento populacional.

O médico atuou como docente na faculdade de Botucatu, fez três anos de residência em clínica médica e terapia intensiva, e depois se especializou em geriatria, em 1991. Ele entendeu que poderia cuidar do paciente de forma ampla. Além da parte técnica, poderia tratar da questão humana, de uma forma mais aprofundada. O médico desembarcou em Rio Preto, em 1996, para acompanhar a esposa, a médica nuclear Sonia Marta Moriguchi. Aqui, ele passou a atuar como professor na Famerp e montou seu consultório, hoje, localizado no bairro São Manoel. Com 56 anos, sendo 32 dedicados a medicina, ele diz que perdeu as contas de quantos pacientes já atendeu. No entanto, afirma que, além da atividade assistencial em consultório e ambulatório, ele dedicou boa parte da carreira a atividade acadêmica e a produção científica. Trabalhando três vezes na semana no consultório, ele atende entre seis e oito pacientes por dia. Já na rede básica de saúde, ele acompanha seus alunos e residentes. Maratonista nas horas vagas, ele tem um filho médico, especialista em radiologia, uma nora, dermatologista, e um neto, de oito anos, que já gosta de corrida de rua.

Uma reportagem divulgada no jornal Diário da Região, em 22 de julho, na série Geração 6.0 , revelou que a região de Rio Preto tem mais idosos do que crianças. Segundo a publicação, um estudo assinado pela Fundação Seade apontou que para cada grupo de cem crianças de zero a 14 anos há 106,9 idosos na região de Rio Preto, bem mais que os 75,2 da média estadual. Assim, a região de Rio Preto tem mais idosos do que crianças. A Seade também estima que em 2050 os maiores de 60 anos serão um quarto da população da região.

Diante deste cenário, o médico afirma que é preciso que o poder público, a sociedade e as famílias invistam em saúde, alimentação, educação, cultura, esporte, lazer e cidadania para dar mais qualidade de vida aos idosos. Principalmente porque não adianta viver muito, sem viver bem. É preciso desmistificar, por exemplo, a ideia de que o envelhecimento é problema apenas do idoso.

V&A - Baseado em sua experiência, temos mais idosos do que crianças na região de Rio Preto? O senhor concorda com a pesquisa?

João Castilho Cação - Antigamente nós falávamos em pirâmide populacional, hoje em dia está mudando esta conformação. Já não é mais pirâmide. Porque o topo da pirâmide, que seria os idosos, está se alargando. A gente tem uma formação mais ou menos em barril. Desde a década de 1970 diminuiu muito a taxa de natalidade, nascem menos e as pessoas vivem mais ou morrem mais tarde, a população vem envelhecendo e as pessoas que chegam as idades mais longevas já estão superando a proporção de crianças. Isto, por um lado, é bom porque as pessoas estão vivendo mais. Mas por outro lado traz uma responsabilidade muito grande. Uma mãe, por exemplo, cuida de três crianças. Mas, para cuidar de um idoso é preciso mais do que três pessoas. É um problema em quase todos os aspectos da vida. Mas na área da saúde é uma coisa que tem reflexo imediato.

V&A - Segundo dados da Conjuntura Econômica de 2017, existem 16 médicos especialistas em geriatria. Já os especializados em pediatria chegam a 142. É isso mesmo?

Cação - Tem pouco geriatra. Mas mais do que pouco geriatra têm poucos profissionais de saúde, que não precisam ser especialistas em geriatria, mas que na sua formação básica tem instrumentos técnicos para atender um idoso. Porque nem todo idoso vai precisar sempre de um geriatra. Também não precisa ter um geriatra em todo posto de saúde. Mas tem que ter um clínico que tenha na sua formação, durante a faculdade, uma bagagem de conhecimento em geriatria mínima. A gente percebe que nos currículos médicos, as pessoas têm uma bagagem boa em pediatria, em ginecologia e em grandes áreas de saúde pública. E hoje, a geriatria é uma grande área. Porque se a gente for calcular o tempo, a gente vive mais tempo como idoso do que como criança. Então, deveria ser uma grande preocupação na formação não só dos médicos, mas dos enfermeiros, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais.

V&A - Neste cenário, no que é preciso investir para atender melhor esta população idosa?

Cação - Há pouco tempo, algumas décadas, se percebeu que o envelhecimento populacional, que a gente chama de transição demográfica, é uma situação inevitável e muito grave. Talvez seja a maior revolução que nós já tivemos no mundo, que é esta transformação etária da população no mundo e na história da humanidade. As pessoas hoje vivem muito e nem sempre conseguem ter uma vida saudável, mas consegue viver durante muito tempo. Infelizmente, os órgãos formadores de recursos humanos, que deviam estar na frente, primeiro não enxergaram, e os governos e o Estado, que deveriam estar preocupados, porque isso tem um reflexo e repercussão econômica muito grande, também só agora estão percebendo e estão mudando os modelos de saúde, que antes era materno e infantil e, agora, está passando para linhas de cuidados. Mas está mudando ainda muito timidamente. Ainda estão correndo atrás de apagar incêndio. A falta de valor do idoso permeia a nossa sociedade. A gente se prepara para atender a criança, para receber o bebê em casa quando nasce, mas para o idoso é o contrário. Cuidar de uma criança é um privilégio, mas de um idoso parece que é um grande favor ou só um sacrifício. Tem a questão que é trabalhoso mesmo. Mas estamos cuidando de quem já abriu caminho para nós. Existe também uma prevenção chamada de quaternária, que consiste em evitar pedir exames desnecessários para idosos, tentando rastrear fator de risco, porque não vai tratar com medicamentos, não vai virar doença nesta faixa etária. Ela evita também remédios fúteis e que não melhoram ou agregam em nada na qualidade de vida, e também escolhas sensatas, que vai depender se ele é frágil ou se não vai só aliviar a consciência de quem está tratando.

V&A - Hoje, pessoas com mais de 60 anos não se acham velhas, têm uma rotina intensa, trabalham um período, praticam exercícios e usam tecnologia. Como o senhor avalia?

Cação - Existem pessoas que envelhecem muito bem e não têm doenças. Mas isto é raridade. Envelhecer bem significa controlar bem as suas doenças. As doenças de caráter não transmissíveis, as crônicas, elas vão aparecer com a idade, mas não precisam gerar incapacidade. É preciso ter hábitos de vida saudável desde sempre para conseguir evitar sobrepeso, sedentarismo. Estabelecer as medidas de prevenção primária, que é dieta, atividade física, uso de vacinas, imunoprofilaxia, criação de vínculos sociais e familiares para evitar estresse e aumentar o engajamento social da pessoa. O idoso, por exemplo, precisa ter um suporte para se sentir acolhido e sentir que faz parte de algo maior, de um grupo de igreja, de corrida ou de música, e que ele não está sozinho no mundo. Rio Preto, por exemplo, tem mais de 20 grupos da Terceira Idade. Estas medidas fazem com que a pessoa consiga adquirir uma reserva de saúde para a medida que ela vai envelhecendo, ela consiga, mesmo com algumas doenças, se manter saudável, produtiva e ter uma vida muito próxima do que quando se era um adulto jovem.

V&A - Prevenção também é uma forma de envelhecer com saúde? Junto com os 60 anos vem a necessidade começar a fazer visitas regulares a um geriatra. Fazer check-up é importante?

Cação - Estamos começando a construir uma linha de cuidados um pouco diferente daquilo que se usa para a população adulta. Tem que levar em consideração sempre esta faixa etária, mas mais do que isso, a questão da capacidade funcional, se o idoso é robusto, frágil ou incapacitado. Porque dependendo desta capacidade funcional é que nós vamos ver o que vale a pena nesse pedido de exames, quais as intervenções que são realmente positivas, se elas vão gerar um maior desfecho ou agregar na qualidade de vida, ou se esses exames são só exames fúteis que vão gerar medidas, que aparentemente estão protegendo, mas geram mais doenças. Então, este modelo baseado mais nos fatores de risco comuns na meia idade, como colesterol e triglicérides altos e glicemia elevada, não que isso seja considerado normal, mas que os valores de referências no idoso são muito diferentes. Temos que ser muito criteriosos em qual exame pedir e pensar se ele vai me dar alguma resposta de algo que eu possa atuar e essa intervenção vai melhorar ou piorar a vida desta pessoa, ou vai diminuir a chance de eventos desfavoráveis no futuro. O que precisamos fazer é instituir um plano de cuidados personalizados, baseado nas doenças e suporte social que a pessoa tem. E aí vamos descobrir o que vale investimento e o que realmente vai trazer benefícios. Na maioria das vezes, nós vemos idosos de 85 e 90 anos com milhões de remédios, vários médicos e tratamentos fragmentados, que estão fazendo mais mal do que bem. A gente tem que querer parar de dar resposta para tudo.

V&A - Para uma velhice segura e livre de doenças, os cuidados têm de começar cedo, muito antes da chamada terceira idade. Assim, quais dicas o senhor pode dar para que o idoso tenha qualidade de vida?

Cação - É preciso pensar em três coisas. Uma é a prática de atividade física, que nós chamamos de multimodal e que tem que ter exercício resistido, aeróbico e de equilíbrio e flexibilidade. É importante fazer exercícios com periodicidade, em que exista um objetivo e que tenha uma disciplina para que ele seja cumprido e a pessoa vai ter um ganho de performance. A segunda é ter uma dieta fracionada e rica em proteínas. Já a terceira é a criação de vínculos sociais e treinamento cognitivo.

V&A - Além das mudanças no corpo e sintomas como cansaço, perda de equilíbrio e redução no peso, alguns idosos ficam desanimados e tristes. É preciso cuidar do lado emocional?

Cação - Por isso insisto na criação de vínculos e no papel da família na vida do idoso. Os bichinhos de estimação são muito importantes também. Quando o idoso tem alguém que depende dele, que é mais vulnerável, ele passa a se vitimizar menos. Quando a gente envelhece, nós temos mais doenças, limitações físicas, tem limitações econômicas, porque se ganha menos com a aposentadoria, e tem desagregação da família, em que cada filho tem sua família. Então, tem um panorama, um cenário, para que a pessoa desenvolva um estado depressivo. O que muda isso é quando a pessoa consegue ter vínculos, consegue aceitar as limitações. Na hora que nós percebemos que não temos que pensar somente no que queremos, mas fazer o que nós podemos, nós ficamos bem. A grande virtude desta fase é conseguir aceitar as mudanças e ser generoso. Só de a gente estar vivo já é um prêmio. Por isso temos que valorizar isso. O idoso também precisa ter lazer, que é tudo o que nós fazemos que dá prazer e não tem sentido de obrigação. É uma atividade que nos protege do estresse. V&A

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