Diário da Região

12/08/2018 - 00h30min

ESPECIAL

Aquele cara que alcança os brinquedos mais altos na prateleira

Eles encaram tudo pelos filhos, desde a parte boa, de brincadeiras e risadas, até a das broncas e noites em claro, quando os filhos estão doentes. Já se foi o tempo em que pais apenas participavam da criação dos filhos, hoje fazem as mesmas tarefas das mães

Mara Sousa 10/8/2018 Rafael Lacerda e a filha, Cecília, brincam de massinha; desde o início ele divide as tarefas com a mulher
Rafael Lacerda e a filha, Cecília, brincam de massinha; desde o início ele divide as tarefas com a mulher

Quem teve o pai presente durante a infância lembra daquela sensação de ter alguém que protege. Aquele cara que alcança os brinquedos mais altos na prateleira, que segura na descida do escorregador, que toma o remédio para provar que não é amargo (mais tarde se descobre que na verdade ele não engoliu), que assopra o machucado para acabar com a dor, que não tem medo do trovão e olha debaixo da cama para espantar o bicho esquisito que mora lá. Tudo isso se torna ainda mais mágico se não é algo esporádico que o homem faz apenas para dar meia hora para a mãe respirar. A boa notícia é que, sim, os pais estão se envolvendo mais na criação dos filhos, desde as brincadeiras até as broncas e febres de madrugada.

Para Cecília Lacerda, de dois anos e dois meses, o pai Rafael Lacerda, estoquista e músico de 36 anos, é esse cara. Quando a filha ficou insegura diante de uma imensa piscina de bolinhas - embora fosse visível em seus olhos castanhos a enorme vontade de entrar nela -, Rafael não teve dúvidas: comprou o ingresso do brinquedo, que ficava em um shopping de Rio Preto, e entrou junto com a pequena. Um "gigante" de 1,82 metro no meio de um pessoal que ainda não chegou aos cem centímetros.

Pai de primeira viagem, Rafael conta que desde o início divide as tarefas com a mulher, Stella, assistente social de 32 anos. "A Cecília mudou completamente a vida da gente, tudo que tem que fazer pensa nela. No começo foi um desafio muito grande, mas já cheguei trocando fralda, ajudando no banho e higiene. É tudo muito maravilhoso, um aprendizado muito bom". Ele se considera um pai presente, pois fica fora só quando está trabalhando. O resto do tempo passa com a família.

"Levo para brincar, levo pro parquinho, a gente passeia bastante. Pretendo continuar sendo um paizão presente e participar de todos os planos dela, de todas as decisões que tiver. Apoiando, brecando, instruindo, educando, participando da formação. Pretendo melhorar cada dia mais", garante.

No último aniversário da menina, ele cantou a música "Saber quem sou", do desenho Moana, da Disney, o favorito dela. Destaca a importância de ter tido um pai presente, que ajudou a formar a pessoa que é hoje. Rafael gosta de praticar esportes e a filha parece enveredar pelo mesmo caminho. "O que mais se parece comigo, além da fisionomia e do cabelo, é que é bem animada para atividades físicas. Gosta de correr, brincar, jogar bola. Admiro muito isso nela". Outra característica que o pai aprecia é a delicadeza da criança - embora, segundo ele mesmo, seja "suspeito" para falar. "É muito amorosa, bem princesinha, sensível mesmo".

Na terra e na água

O empresário Lucas Almeida Softov, de 33 anos, acompanha os dois filhos, Pedro Lucas e Davi Lucca Martines Farias Softov, em tudo, inclusive na natação. Eles têm cinco anos e um ano e sete meses - com o menor, o pai entra até na água durante a aula. "Procuro participar de forma ativa de toda rotina deles. Banho, levar na escola, trocar fraldas do caçula, tarefas escolares. No primeiro filho dei todos os banhos até o sexto mês de vida; minha esposa, Vanessa, tinha um pouco de medo", conta.

Ele também prepara as mamadeiras que o pequeno toma de madrugada. Como tem uma empresa de festas infantis e trabalha principalmente aos finais de semana, nos outros dias pode se dedicar mais aos meninos. "Eu e a Vanessa sempre procuramos ir juntos a todas as consultas médicas, sempre que estão doentes acordamos juntos".

Lucas procura envolver os dois meninos nas atividades, proporcionando interação entre os irmãos. Tudo é novidade: passos, palavras, atividades e brincadeiras. "Poder participar de tudo isso fortalece ainda mais nossa relação. Até as coisas mais simples ficam mais prazerosas com eles. São meus amigos, meus presentes, minha base. Tudo que faço é por eles". O empresário garante que antes de tudo é pai, depois amigo, e pensa que a chave para educar sem perder a relação de amizade é o diálogo. 

Por conta da separação dos pais, Lucas não teve uma figura paterna presente durante a infância. "Tenho certeza que esse motivo fez eu querer sempre estar mais próximo dos meus filhos, pois sei quanta falta me fez". Ele revela que os dois filhotes têm personalidades diferentes: Pedro é falante, ativo, curioso. Já Davi é esperto, quer fazer o que o irmão faz e é arteiro. 

Companheiros de todas as horas

Diferentemente do que ocorre com a maioria dos casais que não criam os filhos juntos, Ana Laura Perez Lopes, de dois anos e quatro meses, mora com o pai, e não com a mãe. Bruno Nascimento Lopes, servidor público de 32 anos, conta que quando a mãe da pequena descobriu a gestação os dois já estavam separados. "Porém temos uma relação de bastante amizade e parceria", diz.

Desde que Ana Laura começou a frequentar a escola, aos nove meses, é ele quem a leva e busca. Há um ano, a menina foi morar com o pai - a mãe trabalha e estuda e tem horários menos flexíveis, por isso fica com a criança aos finais de semana. Bruno também comparece às reuniões escolares e consultas médicas. "Sempre tento programar alguns passeios com ela, estamos sempre brincando, vendo os desenhos de que ela gosta, fazendo atividades de pintar, que ela ama".

O pai tenta ser presente não apenas nas obrigações do dia a dia como alimentar e trocar fraldas, "mas também ensinando, corrigindo, dando bons exemplos, pois foi o que eu tive quando criança também. Meu pai esteve sempre presente e tenho ele como modelo de criação para a Ana Laura. Sem dúvida ela se tornou a coisa mais importante da minha vida. Não tomo decisão nenhuma sem pensar no impacto que pode ter nela", derrete-se.

Parceria

Eduardo Henrique Ferri Salinas, advogado de 32 anos, é pai de Eduardo Henrique Ferri Salinas Filho, o Dudu, de dez anos. Separado da mãe do menino, desenvolveu uma rotina com o filho em que a qualidade do tempo é maior do que a quantidade de horas juntos. Ele não vê como um dever ser paizão e educar e ensinar o filho sobre as coisas. "É muito prazeroso ver ele evoluir a cada dia. Depois que meu filho nasceu, amadureci muito. Tenho a sensação de que ele acaba me ensinando muito mais do que eu ensino a ele".

Todos os dias, Eduardo leva Dudu à escola, ajuda na lição de casa e passeia, além de acompanhá-lo em consultas ao médico e dentista. O cabelo de ambos é cortado no mesmo salão. Tudo o que os dois fazem juntos é prazeroso para o pai, mas a atividade favorita e frequente é o cinema. "Assistimos praticamente a todos os filmes que vão lançando, já perdi a conta. Compramos uma pipoca bem grande, dois refrigerantes e pronto: tudo certo para nos divertirmos".

O advogado não se conforma com pais que não se importam com o filho, pagam a pensão, porém não dão afeto. "Esses caras não sabem o que estão perdendo, estar sempre próximo aos filhos é uma das melhores coisas da vida".

Eduardo perdeu o pai ainda criança, aos oito anos, e sente a falta dele até hoje. "Acredito que isso me fez querer ser o melhor pai do mundo, dar a ele o prazer de um paizão presente, algo que não tive oportunidade de ter". Ele acredita que o vínculo que tem com Dudu é construído sobre a confiança. "Tudo que prometo eu cumpro". Isso ocorre em relação às coisas boas, como um passeio, mas também em relação às mais sérias, como castigos e conversas. "Assim ele entende que sou o melhor amigo, mas que precisa fazer as coisas corretas, pois amigo de verdade tem que brincar e chamar atenção quando precisa", conclui. (MG)

Trabalho paterno também é afetivo

Niminon Suzel Pinheiro, professora da área de Sociologia da Unirp, considera que a participação dos pais na criação dos filhos tem aumentado devido a fatores como criação de políticas públicas, por exemplo o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). "Nas escolas, há alguns anos, se via quase só mães ou avós. Hoje os pais também vão". Em sua avaliação, a mãe e a sociedade de forma geral devem cobrar dos homens esse compromisso.

"O pai também é uma parte afetiva. É importante que os pais estejam unidos, mesmo se não tiverem mais um relacionamento. Falar a mesma linguagem, chamar a atenção juntos, não delegar para um chamar atenção e o outro dar carinho. Ambos têm que fazer as duas coisas".

A especialista reforça que para que a criança se torne uma boa pessoa são necessários pai e mãe. Dividir as obrigações entre mãe carinhosa e pai que pune pode gerar revolta ou causar uma associação entre masculino e violência. "A gente já tem uma tendência a achar que masculino tem que ser violento, forte, corajoso; que não pode chorar nem ser afetuoso".

Niminon concorda com Eduardo Henrique Ferri Salinas, de 32 anos, pai do Dudu, que afirma que os pais que não convivem com os filhos estão perdendo. "É uma perda que terão não só do momento de carinho com a criança e de criar um laço. Ao longo da vida do seu filho, quando ele for adolescente ou adulto, se você criou uma relação de confiança, ele vai poder se abrir com você sobre os problemas que tem". Se a relação é autoritária, no estilo "eu mando, você obedece", a confiança pode nunca mais ser recuperada.

O diálogo é outro fator importante para evitar brigas. "Às vezes as pessoas não conseguem transformar emoções em palavras. Acham que comprando um presente ou dando algo material vão resolver. O diálogo seria uma ação mais diplomática". (MG)

'Todos os homens deveriam ter filhos'

Marcos Vinicius Junta Gonçalves, diretor de expansão de 36 anos, é categórico: todos os homens deveriam ter um filho. Pai de Marcos Miguel, de nove anos, lembra que quando descobriu que a mulher, Márcia, estava grávida, não sabia o que falar ou como agir. Era um sonho realizado. "Venho de uma família muito calorosa, em que sobra amor. Achava que ser pai era simplesmente dar educação, sustentar, mas vi que é maior que tudo isso. O pai dá a vida pelo filho, deixa de fazer muita coisa pelo filho. É muito mais do que imaginava". Somente depois de conhecer o menino, ele pôde ver o que é amor verdadeiro.

Vinicius ressalta a importância de acompanhar cada fase - e as preocupações que vêm com elas. Também procura ser participativo em todos os momentos. "O Miguel tem que ver pai e mãe como amigos para ter a liberdade de conversar sobre qualquer tipo de assunto, para ele saber que tem um porto seguro, principalmente nessa fase que está passando de criança para a pré-adolescência. Saber que tem um respaldo da família", acredita.

Ele e Márcia não dividem as atividades - não é apenas um que orienta com mais firmeza e que dá amor, por exemplo, ou que leva ao médico e participa das reuniões escolares. "Sempre que conseguimos, estão o pai e a mãe juntos, participando de todas essas partes". O que o pai mais admira no menino é a curiosidade, a personalidade e a inteligência. "Quero passar a ele honestidade e humildade".

Júlio César Santos Souza, conhecido como Júlio Molejo, vendedor e músico de 30 anos, descobriu na última sexta-feira, 3, que a namorada Carla Regina - com quem pretende se casar em 2019 - está grávida de dois meses do primeiro filho do casal. A criança era esperada, mas só para depois da construção da casa onde o casal vai viver. "Agora veio junto. É uma sensação muito boa, um sentimento que não tem explicação", relata. Ele diz que sempre teve desejo de ser pai e está disposto a acompanhar o filho ou filha em todos os momentos. "A gente sabe que o mundo está meio complicado, mas espero fazer o melhor". (MG)

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