Diário da Região

    • -
    • máx min
11/07/2018 - 00h30min

Painel de Ideias

Derrota

As práticas racistas são consideradas crime no Brasil e, mesmo assim, nós não superamos o preconceito racial. Ele persiste em nosso cotidiano, em nossas "piadinhas" e em nossos silêncios, porque o racismo é um crime perfeito

Divulgação Anna Claudia Magalhães | annamagalhaesc@gmail.com
Anna Claudia Magalhães | annamagalhaesc@gmail.com

Desde criança, toda santa vez que eu ia à casa de uma amiga, a mãe dela achava uma boa ideia fazer piadas sobre a minha cor. "Na minha casa eu não recebo preto", "Preto aqui não entra" e caía na risada para depois dizer: "É brincadeira". Até poucos anos atrás, eu permanecia em silêncio, porque quando você é negro, apesar de sempre se sentir desconfortável com ideias que te desqualificam de alguma forma, você aprende que deve relevar e não ser inconveniente. As opressões nos condicionam a acreditar que nós é que somos o inconveniente e que não devemos reagir mesmo que lá no fundo aquilo nos machuque. Nós nos adaptamos ao racismo.

Apesar de as pessoas sempre fazerem questão de deixar claro qual era minha cor, demorou para que eu me reconhecesse. Achei que era por me sentir confusa com tantos tons de pele por aí, até perceber que me olhar no espelho e saber que sou preta e não há problemas nisso, não tinha chegado antes porque eu tinha medo. Tinha receio de ser um sujeito que nunca é relacionado a algo bom. "Cabelo ruim", "serviço de preto", "preto bandido", "preto sujo", essas "brincadeiras" afetavam meu entendimento sobre mim.

As práticas racistas são consideradas crime no Brasil e, mesmo assim, nós não superamos o preconceito racial. Ele persiste em nosso cotidiano, em nossas "piadinhas" e em nossos silêncios, porque o racismo é um crime perfeito. Não há provas, já que nunca ninguém se entende como um criminoso, e, mais do que isso, a maioria se nega a falar sobre o assunto, e fica difícil compreender como as nossas próprias atitudes podem reforçar a imagem negativa de um grupo de pessoas, afetar sua autoaceitação, ferir sua autoestima e estigmatizá-las como inferiores.

E é difícil tocar no assunto, porque as opressões também transformam a vítima em culpado. É como um jogo de poder em que quem domina não pode deixar que o dominado ganhe consciência e consequentemente força, por isso o acusa de vitimização quando ele reage. Apesar dessas estratégias tão fortes, as opressões já não estão mais sendo toleradas. Na semana passada, por exemplo, grandes marcas deixaram de apoiar e patrocinar Julio Cocielo, influenciador digital infanto/juvenil que insistia em falar coisas parecidas com a mãe daquela minha amiga. Dezenas de declarações do youtuber vieram à tona e foram repudiadas. O racismo é como um vulcão, que está sempre ali, e na menor efervescência, explode em brasas para não termos dúvidas da sua força. Assim como aconteceu com Fernandinho, jogador da seleção que sofreu dezenas de ataques racistas, cheios de ódio, após sua atuação na derrota brasileira.

Eu não vou mais onde racistas me recebem, eu não sou influenciada por racistas, racistas não medem mais o meu valor. As pessoas acharam que iam seguir para o resto da vida falando o que bem entendessem onde bem entendessem, sem pensar no outro, mas agora não sou eu mais quem precisa se adaptar e nem me silenciar. O Brasil ainda merece muitas vitórias, uma delas é vencer o racismo que nos derrota todos os dias.

Aviso: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Diário da Região. É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O Diário da Região poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.

Di´rio Im&ocute;veis

Di´rio Motors

Esqueci minha senha
Informe o e-mail utilizado por você para recuperar sua senha no Diário da Região.

Já sou assinante

Para continuar lendo esta matéria,
faça seu login de acesso:

É assinante mas ainda não possui senha?
Não lembro a minha senha!

Assine o Diário da Região Digital

Para continuar lendo, faça uma assinatura do Diário da Região e tenha acesso completo ao conteúdo.

Assine agora

Pacote Digital por apenas R$ 16,90 por mês.
OUTROS PACOTES


ou ligue para os telefones: (17) 2139 2010 / 2139 2020

Cadastro Grátis
Diário da Região
Clique no botão ao lado e agilize seu cadastro importando seus dados básicos do facebook
Sexo
Defina seus dados de acesso