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10/07/2018 - 00h30min

Painel de Ideias

O racismo e as redes antissociais

Anônimos e famosinhos se revezam no ataque das injúrias raciais. Xingar o atleta de "macaco sujo encardido" revela-se tão criminoso quanto alisar o cabelo de uma garotinha para domar seus cachos e sua identidade racial

Arquivo Washington Paracatu | washingtonparacatu@gmail.com
Washington Paracatu | washingtonparacatu@gmail.com

Escuro, sombrio, nefando, aflito, infeliz, tétrico. Esses constituem alguns termos associados à palavra "negro" no dicionário da língua portuguesa. No contexto atual, o ego frustrado da população acrescenta novas definições: macaco, sujo, encardido, fedido, filho da puta. Nas redes antissociais, esse é o retrato do racismo ainda persistente, criminoso e cruel que assola nosso país. Como entender a perpetuação de um crime tão abjeto e ignóbil?

Indubitavelmente, o racismo se revela arraigado às tradições culturais pátrias. Outrora, em 1833, o cientista britânico Charles Darwin eternizou os crimes da escravidão racista no Brasil. Entre tantos episódios, destacou o açoitamento de uma criança por servir água turva a homens brancos e o suicídio de uma idosa negra que preferiu se jogar ao mar a ser levada ao cativeiro de onde fugira. Darwin escreveu: Esses homens afirmam amar ao próximo, dizem que acreditam em Deus e rezam para que Sua vontade seja feita na terra. Desde então, as palavras de Darwin continuam atuais. O brasileiro diz ser cristão, prega amor ao próximo, mas xinga o compatriota negro, faz piada racista, enaltece candidatos e famosinhos da internet conhecidos por seu racismo odioso.

Indubitavelmente, o racismo se revela global. Em 1958, a Bélgica fechou a última exposição europeia do que seria uma "Vila de Negros", eufemismo usado para descrever uma família de negros exposta em uma jaula de zoológico. No caso, a família era de negros congoleses, a mesma origem étnica de Romelu Lukaku, o atacante negro e belga, de origem africana, que tem uma relação paradoxal com parte de seus concidadãos: quanto o time ganha e ele joga bem, é o atacante belga. Se o time perde, é o negro filho de imigrantes. A Copa ensina.

E o Brasil foi eliminado, fez gol contra. Uma derrota dupla, nos gramados e nas ondas da internet, onde a liberdade equivocada dá voz a idiotas raivosos e desumanos que usam a segurança do teclado para vomitar ofensas racistas contra negros. Anônimos e famosinhos se revezam no ataque das injúrias raciais. Xingar o atleta de "macaco sujo encardido" revela-se tão criminoso quanto alisar o cabelo de uma garotinha para domar seus cachos e sua identidade racial. E ainda há quem afirme a existência de racismo reverso. Quanta ignorância, quanta falta de caráter, de estudo, de coerência cristã.

Percebemos, portanto, que o racismo nacional se inicia com a escravidão e perpassa nossa história. Tivemos senzala por alguns séculos, uma libertação sem a real inclusão racial. Vargas cria a lei Afonso Arinos contra a injúria racial em 1951: racismo é crime. A educação cria o sistema de cotas há pouco tempo como tentativa de reparar a segregação, e isso não impede uma enxurrada de críticas dos brancos incomodados com o suposto racismo reverso. O país reza desde 1500 e entoa uma ladainha de amor ao próximo, de bondade cristã. Isso tudo não impede anônimos e famosinhos que insistem em perpetuar o racismo nas redes antissociais. Que horror, meu Deus. Quanta maldade e quanta hipocrisia cabem numa postagem de um cidadão de bem?

 

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