Diário da Região

    • -
    • máx min
08/07/2018 - 00h30min

Painel de Ideias

Palavras ao vento

O que hoje virou bordão em programas televisivos provocava reações indignadas e normalmente eram sucedidas por segundos de silêncio e por mudanças rápidas de assunto para desanuviar o ambiente

Divulgação José Luís Rey | jlrey@paginaimpar.com.br
José Luís Rey | jlrey@paginaimpar.com.br

- Quer saber? A senhora é uma lambisgoia...

- Lambisgoia, uma pinoia! Você que é um embrulhão... Xarope!

- Sirigaita!

- Vê se vai te catar, zé ruela...

- Vai você, rolha de poço. Você é uma mula velha, isso sim...

- E você, que é um toco de amarrar jegue...

A troca de elogios entre dona Araci e seu Nelson, provocada pelo desentendimento que se seguiu ao acidente causado pela bola de futebol do neto dele, que espatifou o estimado vaso de antúrios no alpendre da casa dela, prova que o exercício do xingamento é uma coisa que também está sujeita à ditadura dos modismos. Ou seja: xingar também tem moda.

- Vê se não enche, sua pintora de rodapé...

- Quatro olho...

- Songa monga, mocoronga...

- Não tenho tempo a perder, centopeia manca...

Acho que ninguém mais xinga nesses termos, embora as pessoas ainda xinguem, se bem que, hoje em dia, recorrendo a palavras com maior teor explosivo, palavrões mesmo, daqueles impublicáveis. Dona Araci e seu Nelson, é bom que fique claro, são personagens fictícias, mas é improvável que o leitor cuja soma de janeiros já tenha superado as quatro dezenas não se lembre de algum diálogo desse tipo.

Nessa época, palavras como "bunda" e "merda" ainda eram abomináveis e as simplificações chulas que desaguaram em fórmulas do tipo "fiodaputa" e "taqueopariu" soavam absolutamente impudicas. Pronunciadas ainda que sob o efeito dolorido de uma martelada no dedo, por exemplo, equivalia a uma grande heresia, quase um "pecado mortal", ensinariam as tias mais velhas.

Nos meios de comunicação, então, nem se fala! O que hoje virou bordão em programas televisivos da tarde provocava reações indignadas e normalmente eram sucedidas por segundos de silêncio e por mudanças rápidas de assunto para desanuviar o ambiente.

Mas, às vezes, as coisas fugiam ao controle. Eu mesmo, na memorável rádio Independência, apresentava, junto com o colega Nelson Brandão, um noticiário sobre futebol amador,chamado "Na Várzea Quem Canta é o Galo". As notícias eram enviadas pelos próprios donos dos times, normalmente em folhas de caderno manuscritas, lidas ao vivo, sem que tivéssemos tempo ou paciência para examiná-las antes.

Vai daí que, num dos programas, eu li uma nota enviada pelo Antenor Martins de Oliveira - o "Baiano", um "empresário" de times amadores, que ganhava uns trocados ajustando jogos entre equipes de diferentes bairros e cidades. Na nota, Baiano reclamava de um time que tinha deixado de comparecer ao compromisso marcado, atitude que classificou como "sacanagem".

Falei a coisa no ar, para desespero do Brandão, mais experiente, que colocou as mãos na cabeça, traduzindo toda a sua desaprovação. "Sacanagem", na época, era palavrão, fazia parte do índex das expressões chulas da língua portuguesa, completamente intolerável para uma emissora de rádio.

Fiquei preocupado, mas o deslize, é claro, não deu em nada. Pensando, depois, me autoconvenci de que não tinha cometido nenhuma infração grave. Afinal, qual era o problema de falar "sacanagem" em um veículo que, anos antes, já havia tornado famoso o desastrado improviso de um repórter de campo de futebol que resumiu, numa frase enrubescedora o bate-rebate entre zagueiros e atacantes durante um quase-gol, dizem, no velho campo do América:

- ... foi um verdadeiro cu-de-pinto na área...

E outra, mais ou menos da mesma época, atribuída ao narrador de futebol que descreveu um chute na trave;

- Senhoras e senhores: a bola bateu no pau do goleiro e saiu...

Não sei não, mas desconfio que os ouvintes devem ter xingado o locutor de estropício, miolo-mole, cabeça oca...

 

Aviso: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Diário da Região. É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O Diário da Região poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.

Di´rio Im&ocute;veis

Di´rio Motors

Esqueci minha senha
Informe o e-mail utilizado por você para recuperar sua senha no Diário da Região.

Já sou assinante

Para continuar lendo esta matéria,
faça seu login de acesso:

É assinante mas ainda não possui senha?
Não lembro a minha senha!

Assine o Diário da Região Digital

Para continuar lendo, faça uma assinatura do Diário da Região e tenha acesso completo ao conteúdo.

Assine agora

Pacote Digital por apenas R$ 16,90 por mês.
OUTROS PACOTES


ou ligue para os telefones: (17) 2139 2010 / 2139 2020

Cadastro Grátis
Diário da Região
Clique no botão ao lado e agilize seu cadastro importando seus dados básicos do facebook
Sexo
Defina seus dados de acesso