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05/07/2018 - 00h30min

Painel de Ideias

Uma estética do equilíbrio

Depois de Armstrong, não é mais aceitável que um músico de jazz apele à vitalidade e à originalidade para compensar deficiências técnicas. Depois de Armstrong, o jazz se tornou uma música tão rigorosa quanto qualquer outra

Divulgação Fernando Aparecido Poiana | fernando_poiana@hotmail.com
Fernando Aparecido Poiana | fernando_poiana@hotmail.com

O nome Louis Armstrong soa familiar até para ouvintes não iniciados no universo do jazz. Isso devido, sobretudo, à sua célebre gravação de "What a wonderful world", canção tocada à exaustão em rádios mundo afora, e muito utilizada como trilha sonora em filmes e comerciais de TV. Contudo, essa música está longe de ser a única ou maior contribuição dele para esse gênero musical.

Segundo Berendt e Huesmann em O Livro do Jazz, "Louis Armstrong trouxe "rigor" ao jazz. Ele propiciou o encontro entre o fluxo das emoções e a técnica musical". A premissa fundamental desse comentário é que as composições e gravações de Armstrong desmentem o senso comum em torno do estilo. Isso porque suas músicas mostram que há muito mais ordenação e disciplina harmônica, rítmica e melódica no jazz do que a ênfase do gênero na execução espontânea e sua forte predileção pelo improviso costumam insinuar.

Como explicam Berendt e Huesmann, "depois de Armstrong, não é mais aceitável que um músico de jazz apele à vitalidade e à originalidade para compensar deficiências técnicas. Depois de Armstrong, o jazz se tornou uma música tão rigorosa quanto qualquer outra". De fato, podemos complementar esse raciocínio e dizer que Armstrong foi um desses jazzistas zelosos para quem desenvoltura e organicidade sonoras sempre estiveram intimamente ligadas à busca contínua e obstinada por conhecimento.

Além de cantor, Armstrong foi um trompetista da mais alta estirpe. Seu solo na introdução de "West End Blues" e sua interpretação precisa e delicada do tema principal de "Someday" são dois exemplos disso. Para Berendt e Huesmann, "muito do que Louis Armstrong fazia em termos de fraseado - sua flexibilidade com o tempo e o ritmo - prefigurava aspectos do fraseado moderno do jazz". Alguns outros exemplos da fina assinatura musical do trompetista são as suas gravações de "Potato Head Blues", "When You're Smiling", "Lazy River", "Melancholy Blues" e "After You've Gone".

Ao comentar a inventividade do estilo de Armstrong como instrumentista, Berendt e Huesmann explicam que os "seus solos abrangentes romperam com as variações limitadas e estreitas do jazz de Nova Orleans [porque ele] não improvisava sobre um tema inicial, mas partia de um tema para desenvolver sua própria linha melódica". Os solos de Armstrong em "Only You" e "Go Down Moses", por exemplo, ilustram esse argumento.

A leitura que Berendt e Huesmann fazem do jazz de Armstrong sugere, em última análise, que o trompetista abordava a composição e o improviso de modo a libertar-se de visões reacionárias (e equivocadas) sobre música, e a também fundamentar seu impulso criativo em um raciocínio lógico-musical seguro, apurado e sistematizado. A partir das canções citadas, podemos expandir a tese central desses dois críticos e dizer que o jazz de Armstrong é permeado por uma distribuição harmoniosa entre vivacidade, perspicácia e ponderação.

 

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