SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | SEXTA-FEIRA, 24 DE SETEMBRO DE 2021
Rio Preto e região

Usar o cheque especial é fácil, difícil é pagar

Linha de crédito pré-aprovada, atrelada à conta-corrente, acaba se tornando uma extensão do salário, o que traz riscos às finanças; Febraban mudou as regras da modalidade na tentativa de diminuir a inadimplência e beneficiar o correntista

Felipe NunesPublicado em 04/08/2018 às 21:46Atualizado há 08/07/2021 às 04:16

Final do mês e o carro quebrou. Precisou ir ao dentista. Teve de fazer aquela viagem não programada. Em casos emergenciais em que a grana está curta e o cartão de crédito não é uma opção, uma das alternativas é recorrer ao cheque especial, uma linha de crédito pré-aprovada que oferece ao correntista a possibilidade de pegar dinheiro emprestado do banco sem ter de enfrentar fila ou convencer o gerente da agência. É uma modalidade de crédito rotativo, vinculada diretamente à conta-corrente do usuário, sem necessidade de apresentar garantia.

Essa facilidade na contratação do serviço, no entanto, é o que a faz ter uma das taxas de juro mais caras do País. De acordo com o Banco Central (BC), no mês de maio, o juro do cheque especial chegou a 311,9% ao ano, em junho o número caiu para 304,9% ao ano, mas a média continua sendo considerada abusiva por especialistas.

Em abril, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), entidade que representa os grandes bancos do País, anunciou alterações em relação ao serviço cheque especial, que passaram a valer no início do mês. São três principais mudanças criadas com o objetivo de beneficiar o correntista e diminuir os casos de inadimplência.

Agora, as instituições financeiras devem notificar os correntistas assim que o crédito for utilizado. Anteriormente, o usuário poderia ter seu saldo negativado e começar a usar o limite sem perceber que se tratava de um empréstimo. Além disso, os bancos devem deixar claro o que é o saldo do usuário disponível em conta-corrente e o que é o limite automático, para que o correntista não tenha o perigo de confundi-los. 

Outra mudança importante é que agora os bancos deverão comunicar os correntistas quando eles tiverem ultrapassado o prazo de 30 dias no limite do cheque especial, ou tiver utilizado valor superior a 15% do limite oferecido. Nessa ocasião, os usuários irão receber uma oferta de parcelamento, com taxa de juro menor do que a do cheque especial, a ser definida pela instituição financeira.

Os maiores bancos do País anunciam que já implementaram as mudanças e, por meio de mensagem de texto SMS ou aviso nos terminais de autoatendimento, oferecem a alternativa de migrar o cheque especial para linhas de crédito com taxa a partir de 1,4% ao mês.

A medida foi incentivada pelo governo para tentar reduzir as taxas de juros de cartões de crédito, empréstimos e taxas de financiamento em geral, bem superiores à Selic, atualmente em 6,5% e que serve de referência para as demais taxas praticadas no mercado.

"A mudança teve de ser adotada depois que taxa Selic caiu de maneira significativa, mas os juros do cheque especial, do cartão de crédito e de outros serviços não acompanharam essa queda", explica o economista Hipólito Martins Filho.

Cuidado

Os correntistas que utilizam o serviço precisam ter cuidado. Fabiane (nome fictício), 35 anos, trabalha há cinco anos em uma empresa com carteira assinada e no início do ano teve de recorrer ao cheque especial depois que foi obrigada a levar o carro para a oficina. "Tive que fazer manutenção de emergência e acabei usando um dinheiro que não tinha". A solução foi recorrer ao limite do cheque especial. Como já trabalha há algum tempo na empresa, o banco oferece atualmente a possibilidade de utilizar até R$ 5,8 mil de limite. Mas o desequilíbrio nas contas fez com que ela incorporasse parte do limite ao salário. "Estou usando o limite há três meses. Todo mês minha conta fica, em média, R$ 1 mil negativa, mas pretendo resolver até este mês".

Para quem é concursado como servidor público, as facilidades oferecidas pelos bancos podem ser ainda maiores por conta da garantia de que o salário será depositado todo mês na conta. "Isso acaba te seduzindo a elevar seu padrão de vida, mesmo com um dinheiro que não é seu", afirma P.A.O., 53 anos.

Ele conta que, por impulso, começou a comprar e consumir coisas que não tinha necessidade, acreditando que conseguiria pagar o débito no próximo mês. Dessa forma, passou a utilizar o cheque especial frequentemente.

"Comecei a pegar de pouco em pouco e quando percebi já estava usando cem por cento do limite". A divida acabou se transformando em uma bola de neve. O salário era usado apenas para tapar o buraco causado pelos juros do cheque especial utilizado no mês anterior. Sem dinheiro, ele era obrigado a recorrer novamente ao limite extra para pagar as outras contas do mês.

O jeito foi recorrer ao empréstimo consignado, a linha de crédito pessoal mais barata do País. Apesar de ter taxas mais baixas do que outras modalidades, o empréstimo consignado também requer atenção de quem está interessado. Quem consegue um empréstimo consignado tem de estar ciente de que o salário diminuirá.

A solução que parecia resolver os problemas acabou trazendo outras complicações. "Todo mês o empréstimo consumia quase 30% do meu salário, e, para manter o padrão de vida, mais uma vez tive de recorrer ao cheque especial", conta.

Optar pelas alternativas oferecidas pelos bancos para quitar a dívida do cheque especial requer atenção, explica a advogada da Associação Brasileira de Defesa do Consumidor (Proteste), Lívia Coelho. Não ter planejamento pode fazer com que os correntistas fiquem ainda mais endividados. "A nova linha de crédito disponibilizada pelo banco pode dificultar ainda mais o controle das finanças. O consumidor deve ter em mente que essa alternativa oferecida pelos bancos será mais em conta em relação ao juro cobrado pelo crédito, mas não necessariamente será barata", afirma.

Simulação

O impacto nas dívidas para quem utiliza o limite do cheque especial é significativo. Simulação da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) mostra que quem entra no limite da conta-corrente em R$ 200 e só consegue pagar o banco após seis meses terá um débito total de R$ 394,76 (já com efeito do juro composto). Caso aceite parcelar esta dívida com o crédito consignado, com taxa de 1,4% ao mês, o montante pago ao final de seis meses será de R$ 209,94.

P.A.O. precisou recorrer a um empréstimo consignado para sair do cheque especial (Mara Sousa 1/6/2018)
 
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