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01/07/2018 - 00h30min

Painel de Ideias

Croniquinha com espírito da Copa

O encanto da vida não está na conquista, mas no percurso honesto de conquistá-la; não está nos obstáculos, mas nos enfrentamentos. 'A Copa' concorreu ao Oscar de melhor filme. Não ganhou. E, precisava?

Divulgação Romildo SantAnna | rsromildosantanna@gmail.com
Romildo SantAnna | rsromildosantanna@gmail.com

A Copa do Mundo se reflete em poucos filmes de ficção. Porém, há dois muito bons: 'O Milagre em Berna', do alemão Sönke Wortmann, e 'A Copa', do monge butanês Khyentse Norbu. Neles, realidade e fantasia se misturam e o futebol, como drama a céu aberto, é cenário para os dramas íntimos. Atrevo-me, prezado leitor, a lhe sugerir: utilize 90 minutos da noite qualquer e os veja em DVDs ou por streaming. Você se recompensará esteticamente, sem perder o "espírito da Copa".

'Milagre em Berna' (2003) narra acontecimentos imaginários relacionados ao triunfo da Alemanha na Copa de 54, na Suíça. No jogo final, vencer a poderosa Hungria era quase impossível. A proeza se deveu ao atacante Helmut Rahn (1929-2003), celebrizado pelos alemães como "herói da Copa". Jovem interiorano, o jogador era amigo dum menino que sempre o acompanhava nos jogos locais. Para o atleta, o garoto era um talismã e lhe dava sorte; para o garoto, Rahn era-lhe o segundo pai: o pai-mesmo, angustiado, foi prisioneiro de guerra.

Ante a aflição do filho, distante do jogador na Suíça, o pai o leva de trem a Berna para a decisão contra os húngaros. Percalços da viagem os fizeram chegar ao estádio na metade do segundo tempo. A Seleção Alemã perdia por 2 a 1; o desempenho de Rahn era fraco, talvez pela ausência do menino. Contudo, ao avistá-lo à margem do campo, redobram-se-lhe as energias e marca dois gols de virada, na prorrogação. O filme é um preito à brandura dos afetos, ao futebol como fascínio, alegoria da fé a vencer dificuldades numa Europa aos escombros da Segunda Guerra.

Em 'A Copa" (1999), realizado num mosteiro budista do Butão, os atores fazem papéis de si mesmos. Seu diretor, também escritor, auxiliou Bernardo Bertolucci no roteiro de 'O Último Imperador' (1987). Conta as aventuras dum noviço fã de Ronaldo, o Camisa 10 da Seleção Brasileira. Se a cabeça dele era raspada, imagina o menino, seria também um monge. Desejava assistir à final da Copa de 98 entre Brasil e França. Determinado, conseguiu uma antena parabólica, levada num trator, para que ele e os religiosos vissem o jogo.

A obra nos faz delicadas perguntas: como ações corpóreas como o chute e o drible combinariam com o ideário budista, meditativo, austero e sem vencedores e vencidos? Como o esporte gritante das multidões se harmonizaria no espaço silencioso e recluso dum grupo de monges? Trazer o equipamento de televisão ao interior do mosteiro foi uma façanha, ruptura, uma espécie de heresia a rescrever normas e tradições.

Nessa fábula incomum, o mundo exterior e profano penetra a solidão e o recolhimento. E nos mostra que, às vezes, o encanto da vida não está na conquista, mas no percurso honesto de conquistá-la; não está nos obstáculos, mas nos enfrentamentos. 'A Copa' concorreu ao Oscar de melhor filme. Não ganhou. E, precisava?

 

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