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10/06/2018 - 00h30min

Painel de Ideias

Pau-brasil

Ibirapitanga, ibirapuitá, orabutã é como os indígenas a chamavam. Havia dela em toda parte, estupenda, avistada em copas de florinhas amarelas sacudidas pelo vento. Do caule vertia a tintura dum vermelho claro ao rubro quase-preto

Divulgação Romildo Sant'Anna
Romildo Sant'Anna

Liberdade é azul, igualdade é multicor e brasil, vermelho. No Velho Mundo, medieval e soturno, o afã dum mundo novo se amparava em remotas profecias. Antigas notações aludiam a um horto fertilíssimo: O'Brazil. Braçir, paradísica ilha das quatro hastes da cruz. Braçile dos castelos levitantes, das torres de cristais incrustadas de avencas e habitada por seres ungidos da pura pureza. Contentes, folgariam sem lascívia num recanto adocicado, banhando-se em cachoeiras. Lugar em que, em se plantando, tudo dá: flores de suaves perfumes e cores nunca vistas, frutos sedutores aos olhos e bons de comer. Hobrasill, sementeiro de delícias, de arbustos do conhecimento e juventude, e onde - quem sabe? - o oleiro do universo moldaria outra vez a argila à sua imagem e semelhança.

Escrevera Vaz de Caminha que a terra achada era tamanha que haveria nela vinte ou vinte e cinco léguas de litoral e infindos arvoredos. Seu povo, duma inocência tal que a de Adão não seria maior. Andavam entre os homens umas donzelas felizes e gentis, com cabelos bem pretos e compridos pelas costas. E suas vergonhas, tão naturais e sem pelos que os lusitanos, de as olharem, não se avexavam. Alguns tinham às cabeças cocares de plumas lindíssimas. Outros, igualmente nus, mostravam o corpo todo rubro, duma tintura tão viva que a água não a comia, nem a desfazia. Ao contrário, mais vermelha se tornava. Muitos daquela gente vinham a estar com os carpinteiros dos navios. E o faziam mais por admirarem as ferramentas de ferro, já que cortavam lenhas com pedras feitas como cunhas, metidas em paus entre talas bem atadas.

Brilharam olhos gananciosos, maravilhados ante a paisagem; fizeram-se carregamentos. Entre tantas madeiras havia uma da cor de brasa e lhe deram o nome de brasil. Ibirapitanga, ibirapuitá, orabutã é como os indígenas a chamavam. Havia dela em toda parte, estupenda, avistada em copas de florinhas amarelas sacudidas pelo vento. Do caule vertia a tintura dum vermelho claro ao rubro quase-preto. Tornou-se o ambicionado pigmento trocado por facões, espelhos e miçangas. Árvore que sementou um povo cujo apelido indicava o seu ofício: brasileiro, o que derruba o pau-brasil.

Nas conjeturas dos séculos e num lugar pressagiado em velhas cartografias se acenderia entre as cobiças o rubor duma madeira. À custa de estrondosos machados ecoando nas florestas, devastaram-se os brasis. O pano púrpura ungia a majestade; daquela seiva tingiram-se togas da nobreza e se vestiram os cardeais. Contudo, a inspirar alento e calor, vermelha é cor vivaz do renascer, da fé e da paixão. E foi desse tronco que nos tornamos brasílicos, rijos, num recanto espoliado, mas esplêndido. Braçir, terra de sol e riquezas nunca vistas. Apesar de uns tantos patifes que, inda hoje e dentro dela, insistem em roubá-la impunemente.

 

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