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26/06/2018 - 10h04min

LANÇAMENTO

Em Supernormal, Pedro Henrique Neschling combate a intolerância

Em seu segundo livro, escritor apresenta a história de um rapaz que reencontra amigo de adolescência como uma mulher trans

Divulgação Com Supernormal, Pedro Henrique Neschling se consolida na literatura
Com Supernormal, Pedro Henrique Neschling se consolida na literatura

Pedro Henrique Neschling continua mais lembrado como ator, diretor, roteirista e dramaturgo, mas sua carreira como escritor ganha contornos cada vez mais nítidos. Depois de estrear em 2015 com Gigantes, no qual, ao acompanhar os anos de amadurecimento de cinco amigos, mostrou o caminho da transformação do homem, ele retoma seu interesse pelos relacionamentos humanos (que norteia sua literatura) em Supernormal, que traz um tema ao mesmo tempo delicado e urgente, especialmente em tempos de intolerância.

Beto é um rapaz cuja vida segue uma linha sem grandes novidades: jovem advogado, trabalha no escritório da mãe e, quando não está almoçando com colegas do trabalho, mata o tempo ouvindo suas bandas preferidas. Até o momento em que conhece Helena - na verdade, trata-se de André, seu melhor amigo na adolescência e que agora é uma mulher trans. Depois do choque, Beto sai da zona de conforto e não apenas tenta entender a transição enfrentada pelo amigo como também passa a levantar dúvidas sobre sua própria realidade.

"No livro, trato justamente das rupturas da norma", comenta Neschling. "Em nossa sociedade patriarcal e machista, uma mulher se desconstruindo como protagonista não serviria a isso. Quem entra nessa espiral de autoquestionamento precisava ser o 'padrão do padrão', o detentor maior de privilégios, ou seja, um sujeito como o Beto. E esse processo é justamente consequência do reencontro com essa pessoa tão importante em seu passado, que é uma mulher trans e que ele jamais imaginou ser assim quando conviviam. Descobrir a transição sexual pela qual Helena passou gera um outro tipo de transição no Beto. E é disso que o livro trata."

Cuidadoso, o escritor fez uma intensa pesquisa antes de começar a escrever, a fim de evitar mal-entendidos. "Em termos de protagonismo, a história fala do Beto, um homem branco hétero cisgênero, bastante privilegiado, e sua dificuldade de lidar com o desconhecido, com o diferente. No entanto, tive bastante cuidado em pesquisar, entrevistar e me aprofundar na realidade das transexuais para evitar construir a Helena - personagem fundamental na história - como qualquer tipo de estereótipo clichê de uma trans na visão cisgênera e, mais que isso, escorregar nas muitas cascas de banana que a ignorância sobre a realidade dessas pessoas me colocava", conta ele que, além de ler e de assistir a inúmeros documentários, conversou com mulheres trans generosas e disponíveis que compartilharam suas histórias e experiências.

Papel fundamental teve Amara Moira, travesti, doutora pela Unicamp. "Costumo dizer que é uma pessoa que veio do futuro", observa Neschling. "Esse encontro foi fundamental para o livro ser como é. A leitura e os apontamentos editoriais da Amara - não só por sua vivência trans, mas por ser uma escritora e crítica literária fantástica - foram fundamentais para dissolver os nós que ainda estavam ali e eu não sabia mais identificar."

Desconstruir

Se, em Gigantes, Neschling revela seu cuidado ao tratar de transições que configuram a vida de uma pessoa quando adulta, em Supernormal, ele avança em um terreno movediço, mas volta de lá com troféus preciosos. Engana-se, por exemplo, quem acreditar que o livro se concentra em torno de Helena - depois da surpresa provocada pela sua entrada na trama, Neschling equilibra o interesse do leitor entre a trajetória de Helena e a desconstrução sofrida por Beto.

"Trato da desconstrução do Beto através da Helena, falo sobre o momento em que nos questionamos se o que somos é o que queremos ser ou se somos meros reféns do caminho que percorremos", conta o escritor, decidido a levar a história ao cinema. "E a amizade e o carinho que Beto e Helena têm um pelo outro é a mola que o impulsiona nessa jornada de autorredescobrimento, e, claro, como qualquer mudança interior, nunca é imediata. Busquei deixar essas dificuldades claras, assim como as inevitáveis recaídas em busca do antigo mundo comum."

Como vivemos em um momento de transição ("Estamos entre o que deixou de ser e o que ainda não é", já afirmou Zygmunt Bauman), isso se torna ainda mais desafiador. "Torço para que os conflitos do protagonista desse livro toquem e questionem as pessoas hoje, mas, daqui a algum tempo, que pareçam risíveis de tão antiquadas para novas gerações."

SUPERNORMAL. Autor: Pedro Henrique Neschling. Editora: Companhia das Letras (200 págs., R$ 34,90)

 

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

 

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