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10/06/2018 - 12h58min

ENTREVISTA

Paul Auster fala sobre 4 3 2 1, seu mais ambicioso romance

Apesar dos inúmeros pontos em comum com sua vida, escritor norte-americano insiste que o livro não é biográfico

Reprodução Paul Aster: 'É meu livro mais ambicioso, mais realista, no qual abri mão de truques literários'
Paul Aster: 'É meu livro mais ambicioso, mais realista, no qual abri mão de truques literários'

Fazia sete anos que o escritor norte-americano Paul Auster não publicava um romance e, para surpresa do público e da crítica, ele voltou com um tijolo embaixo do braço - 4 3 2 1 soma, na versão física que a Companhia das Letras lança nesta semana, 816 páginas, ou pouco mais de um quilo.

"É meu livro mais ambicioso, mais realista, no qual abri mão de truques literários. A novidade está na estrutura", contou ele, em entrevista realizada por telefone, desde Nova York.

De fato, 4 3 2 1 (o título é explicado durante a trama e revelar aqui seria um spoiler imperdoável) acompanha a trajetória de Archie Ferguson, desde seu nascimento em 1947 até 1970, quando o romance tem um final que se pode considerar abrupto. Engana-se, porém, quem espera por uma narrativa cronológica - a grande sacada de Auster é de apresentar quatro variantes possíveis da história do protagonista. Na verdade, são quatro caminhos que indicam a riqueza estilística do autor que, aqui, surpreende com frases longas e envolventes.

Apesar dos inúmeros pontos em comum com sua vida, Auster insiste que o livro não é biográfico. Mesmo assim, o ponto de partida foi um fato dramático, que ele vivenciou aos 14 anos. Auster e amigos estavam em um acampamento de verão quando uma tempestade os obrigou a buscar abrigo. Enquanto o garoto à sua frente passava por uma cerca de arame farpado, caiu um raio e o eletrocutou. A proximidade da morte, que podia chegar a qualquer momento, marcou profundamente o futuro escritor.

Outros fatos verídicos ganham destaque na narrativa, como a arte do beisebol ou as recordações em branco e preto dos humoristas dos anos 1950, que acompanhava pela televisão. Finalmente, a descoberta do corpo a partir da amizade permissiva com a menina Andy, que o faz descobrir prazeres sexuais, ou a lembrança de um pai ausente mas empreendedor.

O resultado é uma monumental reflexão sobre a condição do ser humano e o poder do acaso. Com as mortes recentes de Tom Wolfe e Philip Roth, Paul Auster figura no seleto grupo dos grandes romancistas americanos. Na seguinte conversa, ele fala sobre seus pares desaparecidos e sobre seu maravilhamento com o poeta e escritor Stephen Crane (1871-1900), tema de seu próximo livro.

Críticos internacionais apontam 4 3 2 1 como o melhor entre seus 17 romances, graças à ambição da escrita e à estrutura original. O que você planejava para o livro quando começou a escrevê-lo?

Paul Auster - Sim, li e ouvi muitos comentários. O que posso dizer é que, de fato, é meu livro de maior fôlego - e saiba que me contive; caso contrário, ultrapassaria as 3 mil páginas. Também é o mais ambicioso, com várias propostas, vários caminhos apontados. Mas não costumo reler minhas publicações, pois gosto de me impor novos desafios a cada novo trabalho.

Mas, nessa história, você retoma - talvez da forma mais alongada - sua obsessão com o poder do inesperado na construção da identidade, certo?

Paul Auster - Com certeza. Tudo gira ao redor do "what if..." ("e se..."), do especulativo. Algo que poderia ter acontecido, mas não aconteceu. O inesperado tem de fazer parte da prosa de qualquer romancista. Em meu livro, descrevo quatro caminhos paralelos que o protagonista poderia ter tomado se tivesse optado por certas decisões. Não é fascinante?

Certamente. Aliás, você reforçou muitas vezes de que não se trata de uma autobiografia disfarçada. Mas há muito de Paul Auster nesta história, não?

Paul Auster - Sim, os fatos vieram da minha vida, mas não são a minha vida. É um detalhe importante. Não é segredo que todo romancista se inspira em suas experiências, suas memórias e as transforma em arte. E aqui, mesmo que a trajetória de Ferguson corra em paralelo à minha, o que pretendi foi compartilhar minha cronologia e minha geografia. Apenas isso. Até porque esses Fergusons são mais precoces, pois são capazes, quando jovens, de fazer certas coisas que eu não fui capaz quando tinha a mesma idade.

A terrível experiência de presenciar o amigo ser eletrocutado por um raio foi o fator inspirador para a escrita deste livro?

Paul Auster - Sim, essa experiência derrubou todas as minhas certezas sobre o mundo. E o fato inspirou duas das quatro versões que compõem o livro. Na primeira, Ferguson morre na tempestade da forma que assisti à tragédia do meu amigo. Na outra, Ferguson é testemunha da morte de uma pessoa. Na verdade, não pensei em relatar exatamente o acidente, mas como aquilo me tocou e me inspirou a olhar de forma diferente para o mundo.

Você falou sobre compartilhar sua geografia. Como isso funciona literariamente?

Paul Auster - Minha vida foi marcada pelos lugares onde amadureci. Nasci em Newark, mas, depois do divórcio dos meus pais, não mais voltei para lá. Posso dizer que, entre os 5 e os 12 anos, vivi no Paraíso. Foi quando descobri que estava preso naquele lugar - tinha de escapar. Ao escrever o livro e reviver o passado, percebi que as coisas nos Estados Unidos não mudaram muito nos últimos 50 anos. Muito do que nos angustiava há meio século continua nos incomodando. O que não percebemos - especialmente na década de 1960 - foi a ascensão da direita. Pensávamos que a esquerda ganhava destaque. E, agora, uma vez mais, a direita vem tomando conta do país de uma forma que, há quase dez anos, quando Obama assumiu o poder, não acreditávamos que pudesse acontecer.

Você me obriga, então, a te perguntar sobre o governo Trump...

Paul Auster - É verdade (rindo). Quando escrevi o livro, ele ainda não havia sido eleito e nada indicava que isso iria acontecer. Agora, estamos acompanhando um presidente desmontando a América, governando à base de contradições.

Há algumas semanas, a literatura (especialmente a americana) perdeu dois grandes nomes, Tom Wolfe e Philip Roth. Como dimensionar essas lacunas?

Paul Auster - De fato, grandes perdas. Eu conhecia Philip mais de perto, posso dizer que fomos amigos, embora não o conhecesse bem. Às vezes, jantávamos juntos, mas trocávamos amenidades. Foi, de fato, um grande escritor e, nos últimos anos, não lutou contra a morte. Não posso dizer que me inspirou quando eu era jovem, não foi um modelo para mim. Mas foi um dos grandes.

E qual seu próximo projeto?

Paul Auster - Tenho muitas histórias na cabeça, acho que escreverei um romance. O que me encanta, no momento, são as pesquisas da vida e obra de Stephen Crane. Morreu jovem, mas foi uma pessoa inesquecível, escrevendo jornalismo, ficção, obra infantil. Sua escrita mudou nosso jeito de ver o mundo e a literatura. Penso que será meu assunto no próximo livro de não ficção.

 

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

 

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