Diário da Região

15/05/2018 - 09h47min

ULYSSES CRUZ

Leão de Inverno estreia com diálogos afiados e ainda atuais

A montagem inicia temporada na mesma época em que a sucessão real continua em alta, com o casamento do príncipe Harry com Meghan Markle

JF Diório/Estadão Eleanor (Regina Duarte) e os filhos João (Filipe Bragança), Geoffrey (Michel Waisman) e Ricardo (Caio Paduan)
Eleanor (Regina Duarte) e os filhos João (Filipe Bragança), Geoffrey (Michel Waisman) e Ricardo (Caio Paduan)

O ano é 1183 - o rei Henrique II, da Inglaterra, convoca os três filhos e a rainha Eleanor para comemorar o Natal. O convidado especial é outro monarca, o jovem Felipe II, da França. Mais que os festejos religiosos, todos estão juntos, na verdade, em torno de um único interesse: quem será escolhido como sucessor de Henrique?

"Segue-se uma disputa sem limites, em que ninguém respeita o outro ao preparar artimanhas para sair vencedor", comenta o encenador Ulysses Cruz, diretor da montagem de O Leão no Inverno, peça que estreia no Teatro Porto Seguro, nesta sexta-feira, 18, e retrata sem piedade esse peculiar momento da monarquia inglesa.

A montagem inicia temporada na mesma época em que a sucessão real continua em alta, com o casamento do príncipe Harry com a plebeia Meghan Markle, no sábado. "Reis e rainhas ainda fascinam as pessoas e o que torna O Leão no Inverno ainda mais espetacular é esse retrato de como agem os poderosos nos bastidores", completa o diretor.

Escrita em 1966 pelo americano James Goldman, a peça chegou ao cinema dois anos depois (veja abaixo). Apesar de baseada em fatos históricos, a trama é fictícia - não houve, por exemplo, o encontro da família real para festejar o Natal em 1183. Mesmo assim, a disputa pelo poder é retratada por diálogos arrepiantes.

"Em muitos momentos, essa família fracionada me fez lembrar os personagens de Nelson Rodrigues, que sabia como poucos mostrar uma intimidade conturbada", observa Caio Paduan, que vive Ricardo, o filho mais velho, futuro "Coração de Leão".

Ele é o preferido da mãe, a rainha Eleanor (Regina Duarte), para ser o novo rei. Henrique (Leopoldo Pacheco), no entanto, prefere o caçula, João "Sem Terra" (Filipe Bragança), para sucedê-lo. Nessa disputa, o filho do meio, Geoffrey (Michel Waisman), sem apoio algum, oscila entre os irmãos, interessado apenas em obter as maiores vantagens, qualquer que seja o escolhido para ocupar o trono.

Nesse território minado, aparecem ainda a princesa Alais (Camila dos Anjos), amante de Henrique, e rei da França, Felipe II (Sidney Santiago), com quem Ricardo manteve um suposto relacionamento na juventude.

"Especificamente na relação entre Henrique e Eleanor, marcada por amor e ódio, percebo algo de Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, peça de Edward Albee", comenta Regina Duarte. De fato, a relação marital oscila consideravelmente. Irritado com as tentativas de a mulher tentar tirar-lhe do poder, Henrique enclausurou Eleanor em uma torre, onde ficou durante 15 anos e de onde só saía em datas festivas.

O texto é recheado de frases cortantes, que exemplificam essa relação intempestiva. Um exemplo: questionado sobre como está a mulher, Henrique, que a trata como a nova Medusa, dispara: "Se deteriorando, espero". A rainha não fica atrás: quando perguntam a ela sobre a turbulência familiar, ela responde: "Temos o dom para odiar". Nem mesmo os irmãos se respeitam - é o que se observa quando o abobalhado João tropeça e cai, inspirando o comentário de Geoffrey: "Se você é príncipe, então há esperança para todos os macacos da África".

"Na verdade, Henrique tem um imenso prazer em fomentar a anarquia em sua família", acredita Leopoldo Pacheco. "Apesar de apaixonado por Eleanor, ele a deixa presa e também faz tudo para que nenhum dos filhos se case com Alais, que é sua amante."

Tantas tramas empolgaram Ulysses Cruz quando assistiu a uma recente montagem, em Londres. O diálogos o convenceram a trazer o texto para o Brasil, mas não o conceito. "Era um espetáculo muito palaciano, bom para os ingleses. Eu queria algo mais próximo dos brasileiros."

Assim, ele teve a feliz ideia de transformar a trama no ensaio de uma peça sobre a realeza. Com isso, os atores não apenas vestem figurinos casuais, evitando os trajes típicos do século 12, como até carregam o roteiro, lendo algumas frases em determinadas cenas. Já a iluminação de Caetano Vilela reforça o tom operístico da disputa familiar, jogando com o claro e o escuro.

"Também o deslocamento dos atores combina a altivez real com os gestos mais prosaicos", observa Leonardo Bertholini, responsável pela direção de movimento. Tudo para expor as fraturas da família real. "Não a perfeição retratada pelas pinturas, mas a dura realidade do dia a dia", diz Cruz.

O LEÃO NO INVERNO. Teatro Porto Seguro. Alameda Barão de Piracicaba, 740. Tel.: 3226-7300. 6ª e sáb., 21h. Dom., 19h. R$ 50 / R$ 80. Até 29/7

 

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

 

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