Diário da Região

20/05/2018 - 00h30min

LITERATURA

Romance de Loreni Gutierrez é premiado em concurso em Genebra

Loreni Gutierrez acaba de chegar da Suíça por conta de uma premiação recebida pelo seu último livro, 'Charlote Maria Filha de Lobos'

Divulgação Loreni Gutierrez na cerimônia do concurso Prêmios Helvéticos Brasileiros, em 
Genebra (Suíça)
Loreni Gutierrez na cerimônia do concurso Prêmios Helvéticos Brasileiros, em Genebra (Suíça)

Loreni Gutierrez, natural de General Salgado, é formada em Letras pela UNESP de Rio Preto e aposentou-se como Fiscal de Rendas pela Secretaria do Estado.

Com quatro livros publicados, acaba de chegar da Suíça por conta de uma premiação recebida pelo seu último livro, "Charlote Maria, filha de lobos". Em entrevista ao Blog Entre Livros e Palavras, ficamos sabendo um pouco mais sobre o trabalho da escritora.

Quando surgiu a vontade de escrever?

Loreni Gutierrez - Eu sempre tive vontade de escrever, com dezoito anos escrevi minha primeira crônica, intitulada "Maria", mas eu não tinha muito tempo porque precisava estudar, arrumar emprego, batalhar e ajudar a minha família. Então, depois que eu me aposentei pude me dedicar mais à escrita.

O livro "Charlote Maria, filha de lobos" foi recentemente premiado em Genebra, na Suíça. Como foi essa experiência?

Loreni - Foi uma experiência muito gratificante, que eu vejo como uma catarse, uma compensação, porque o meu livro foi desqualificado no concurso da Biblioteca Nacional e isso me deixou muito chateada. Então fiquei sabendo do concurso "Prêmios Helvéticos Brasileiros" por uma amiga e o meu livro foi selecionado. O prêmio foi em Genebra por causa de uma parceria entre a editora e o 32º. Salão do Livro.

Charlote Maria pode ser considerado um livro espírita?

Loreni - Eu escrevi o livro baseada na teoria de Carl Jung de inconsciente coletivo, que é esta fonte de energia que nos circunda e onde estão as memórias do universo, porque eu acredito que nós todos somos energia. Mas sou uma católica espiritualizada e há muitos mistérios entre o céu e a terra... quem somos nós para dizer o que está certo ou errado. O livro já está sendo encontrado em alguns centros espíritas e eu fico muito feliz com o resultado.

Você teve alguma motivação especial para a escolha do nome da protagonista, Charlote Maria? Por que os personagens do livro têm nomes compostos?

Loreni - Eu sempre gostei de nomes compostos, na minha família os nomes são compostos. Mas isso não ocorre em outros livros meus. Charlote Maria significa, para mim, a catarse humana universal, é o nosso desejo de justiça, porque o preconceito é o que destrói o mundo e cabe a nós extirpar esse mal.

Na narrativa, os personagens vivem uma realidade de luxo e de conforto material, demonstrando nobreza moral e intelectual. Esse é o seu conceito de mundo ideal?

Loreni - Eu já assisti a certos filmes brasileiros e fiquei muito triste porque eles mostram apenas o lado pobre e escabroso do Brasil. No meu livro eu mostro a riqueza porque eu acho que todas as pessoas deveriam viver bem, considerando que o nosso país é muito rico. É uma pena que vimos a corrupção se alastrando, consumindo o dinheiro que deveria ser aplicado em prol da comunidade através dos impostos que pagamos. Se isso não ocorresse, todas as pessoas poderiam ter uma moradia, carro, plano de saúde, etc. E os meus personagens apresentam, sim, muitas qualidades pois acredito que isso pode contribuir para a retomada de valores éticos, sociais e morais. Eu gostaria de morar num país assim.

Você assume que gosta de ser lida. Qual é a sua principal motivação para escrever?

Loreni - Eu acho que seria muito triste deixar morrer essa inspiração que trago dentro de mim, porque quando eu escrevo permito que outras pessoas possam conhecer a minha visão de mundo, tudo aquilo que está ao meu redor. Esse é o meu sonho maior, deixar nessa terra abençoada o meu legado, os meus ideais, as minhas histórias.

Seu poema "Instrospecção" foi selecionado para compor o livro 166 Escritores Convidados e Outros, organizado por Lelé Arantes. O que lhe agrada mais nesse poema?

Loreni - Esse poema nasceu em um dia que eu pensei muito sobre o mundo e vi o que estão fazendo com ele. É o mundo atual, é o meu desabafo com relação a toda essa corrupção, à falta de segurança em nosso país, ao descaso com a natureza. Acho que muitas pessoas que leram esse poema devem ter sentido o mesmo. Eu acho que a gente precisa resgatar os bons valores, eu sonho com isso.

Nos tempos atuais, em que a cada dia mais nos etiquetamos

E vemos com naturalidade se instalar a corrupção e a indiferença.

Num tempo onde os lobos se tornaram mais célebres que os cordeiros

E que a cada dia ouvimos menos a palavra honra.

Tenho medo de que esqueçamos quem somos, perdendo-nos pelos caminhos

[sinuosos

desse novo esquema pegajoso e corrosivo da desonra.

(Trecho do poema "Introspecção")

Você tem planos de continuar escrevendo?

Loreni - Já tenho um livro a caminho, chamado "Euriteia, a tecelã dos fios de chuva" e ela também vai ter um pouco de sangue cigano.

 

Charlote Maria, filha de lobos

Reprodução Capa do livro Charlote Maria Filha de Lobos, de Loreni Gutierrez
Capa do livro Charlote Maria Filha de Lobos, de Loreni Gutierrez

Charlote Maria é uma protagonista sensível, determinada e atenta aos sinais do universo. Na busca por autoconhecimento, dedica-se à interpretação de suas constantes experiências oníricas com o apoio da fiel e estimada psicoterapeuta Sarah Gutemberg. Mas a vida tranquila dessa linda jovem, que desfruta de todos os prazeres que o dinheiro pode proporcionar, altera-se com a chegada de Rulian e a estranha conexão que sente por ele. De acordo com o psicanalista Lazslo Ávila, "Trata-se de uma história de amor que merece ser contada, pois somente em histórias assim o insólito acontece (...) e a jornada das almas se materializa nas ações das pessoas e da comunidade". Além disso, como ressalta o pesquisador Araré de Carvalho Júnior, uma das marcas dos romances da autora é a capacidade de levar o leitor para dentro do cenário: "Aromas, paisagens, luz, tudo é detalhado com riqueza, levando o leitor para dentro da história". Para facilitar a compreensão do espaço geográfico da obra, o leitor também conta com um mapa nas páginas finais.

Fantasia e realidade misturam-se com enigmas sobrenaturais que nos remetem a uma espécie de romance espiritualista. A morte - descrita como um nascimento e o início de um novo tempo para o espírito é uma referência constante nos sonhos de Charlote e alimenta o interesse por investigar os mistérios acerca de sua ancestralidade:

Mas a morte deve sim ser encarada como algo factual. Falamos muito sobre a vida e quase nunca sobre a morte, como se este vocábulo fizesse parte de um livro proibido. E às vezes, quando falamos, somos mal interpretados e vistos até como aves de mau agouro. Queiramos ou não, é para ela que caminhamos desde o momento em que nascemos e, em meio a um universo inexorável de acertos, dúvidas e erros, é ela a única certeza que temos. (p. 34)

Apesar da constatação da inexorável fragilidade humana, também encontramos relatos sobre a importância da fé e da esperança no processo de ressignificação de nossos erros e acertos:

- A fé é tão necessária quanto a esperança e muitas vezes se confundem. As pessoas buscam um sentido para suas vidas, ainda que sem a certeza de encontra-lo. Mas esta é a questão. Buscam o sentido da vida porque a essência de nossa existência está neste buscar. Eu e você nunca vimos as faces de Deus. Quem dera pudéssemos! Somente em sonhos isto é possível. Mas o sentimos aqui, dentro de nós. (p. 53)

Esbanjando nobreza moral e intelectual, Charlote inspira sentimentos de amor e de admiração por onde passa. Em consonância, a gentileza e a linguagem polida dos personagens nos fazem imaginar como seria viver em uma sociedade ideal, desenvolvida e "civilizada". Essa representação pueril da realidade é reforçada por elementos de contos de fadas presentes no texto, como príncipes, castelos e cavalos brancos.

O ritmo tranquilo da narrativa é cortado por uma digressão ao ano de 1786, no qual acompanhamos a triste saga das ciganas Marias, vítimas do ódio e do desejo de vingança do implacável príncipe Hector Julian. Após o assassinato de Adelmo, noivo da cigana Maria Aureliana, desencadeia-se uma série de tragédias - como manda a lei do Karma - cujo desfecho dependerá do amor entre Charlote Maria e Rulian. Como observa Cleuza Idalgo, "enxergamos nas lembranças de Charlote a presença, não apenas do DNA de suas ascendentes Marias, mas também os sinais do Cosmo oriundos do inconsciente coletivo do analista suíço Carl Jung, fonte de energia que está ao nosso redor e onde se encontram as memórias do Universo". Enfim, é um livro para leitores românticos e idealistas, que acreditam na ideia de amor como um encontro de almas.

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