Diário da Região

10/04/2018 - 21h59min

É A VIDA

Entre rotina e limites, pais mostram todo o amor aos filhos autistas

Autistas precisam de cuidado, uma rotina fixa e limites como se não tivessem nenhum problema. O mais importante para o desenvolvimento, no entanto, é o amor, como mostram as famílias

Fotos: Mara Sousa 2/4/2018 Maria Aparecida Donizeti Faustino com o filho Lucas (à esquerda), e Cristina Germano de Oliveira com o filho Matheus no Centro de Educação Municipal do Autista; abaixo, os rapazes se divertindo
Maria Aparecida Donizeti Faustino com o filho Lucas (à esquerda), e Cristina Germano de Oliveira com o filho Matheus no Centro de Educação Municipal do Autista; abaixo, os rapazes se divertindo

Para toda criança, a rotina é importante e ter limites também. Acordar, tomar leite, vestir a roupa da escola, escovar os dentes. Na vida de Cristina Germano de Oliveira, 56 anos, mãe de Matheus Germano Melo de Oliveira, 28, a linearidade é ainda mais essencial e a imposição de limites ainda mais desafiadora. É que o garoto é autista - problema crônico que compromete a comunicação e a interação social, fazendo com que a pessoa tenha comportamentos repetitivos e áreas restritas de interesse.

Abril é considerado o mês de conscientização sobre o autismo. Segundo Cristina, o menino estranha alguma fuga à rotina, mas nada que impeça as mudanças. "Chega de domingo ele fica me pedindo para rezar. Eles sabem os dias, os compromissos deles."

Em Rio Preto, o Centro de Educação Municipal do Autista (CEMA) atende 35 adultos e dez crianças. Os pequenos frequentam o espaço no contraturno escolar, pois iniciaram a vida quando já havia a política de inclusão, segundo a qual todas as crianças e jovens devem frequentar a escola regular. Segundo os profissionais, é pela rotina que o autista entende normas e regras e o vínculo afetivo com ele é a porta de entrada para qualquer relacionamento.

Quem também se dedica ao dia a dia do filho é Maria Aparecida Donizeti Faustino, de 61 anos. Lucas Helder Faustino tem 27 e desde pequeno a mãe sabia que ele era diferente dos irmãos mais velhos. Moradora de Bebedouro, procurou ajuda por lá. Após peregrinações, chegou a Rio Preto, onde mora até hoje. Foi uma mudança radical acompanhada de muitos desafios. "Ele começou a frequentar a escola e começou a mudar. Tanto eu como os profissionais fomos fazendo um trabalho em conjunto."

O diagnóstico de autismo do filho Kenion Chalel Domingos de Azevedo, 18 anos, não foi um choque para Valdeir Rocha de Azevedo, comerciante de 45 anos, pois o pediatra desde cedo alertava os pais que o desenvolvimento do pequeno não correspondia ao ideal. "A gente sabe que Deus só dá uma criança especial se os pais forem especiais também. Ele é uma criança muito amada, o mais querido da casa é ele. Tem dois mais velhos, de 19 e 23 anos, ele é o caçula."

Com a convivência, os pais aprenderam a respeitar o garoto, apaixonado pelo CEMA. "Quando é sábado ou domingo ou época de férias ele dá um pouco de trabalho. Quer se arrumar, pegar a bolsa, ir para a escola, quando passa carro ele acha que é o micro-ônibus. O dia a dia é mais focado na escola."

Regras iguais a de todas as crianças

Maria, conhecida como Nina, tinha medo que o menino fosse agressivo, pois desde então tirava porta dos armários e batia palmas compulsivamente, além de ter problemas para usar o banheiro. Com o trabalho dos profissionais e em casa tudo mudou. "Hoje se ele quebra um copo em casa, entra em pânico. Vai lá, pega a pá de lixo, junta os caquinhos. A gente tem que acalmar ele porque fica no desespero, antes ele quebrava as coisas por prazer", lembra Maria, que orienta que os pais de autistas devem educar e impor regras aos filhos como se eles não tivessem nenhum problema. Ela participa de grupos na internet onde vê mães desesperadas com a educação e é presidente da Associação dos Amigos dos Autistas. "Eu falo 'bate de frente com ele'. Tem que tratar como se fosse uma pessoa normal, ele tem que entender que você é mais forte que ele. Se você deixar o autista fazer o que quer, ele vai se tornar uma pessoa agressiva, não vai ser amado e você vai sofrer."

A persistência de Nina foi o que ajudou a família a manter uma rotina normal. No começo, quando iam a um restaurante, por exemplo, Lucas queria ficar no carro. Com outros filhos para alimentar, a mulher deixava um deles com Lucas e entrava com o restante do pessoal. Quando o primeiro acabava, ia ficar com o garoto, que ficava sem almoçar. "Na terceira vez que ele foi, entrou, sentou. Ele olhava o movimento, sentiu o cheiro da comida. Levantava e ia lá para a porta da cozinha."

Como grande parte das crianças, Lucas reluta em acordar para ir à escola. Só levanta quando a mãe aparece com um copo de água ameaçando jogar nele. Não que não goste, no entanto, de tomar banho, assim como Matheus. "Se deixar eles ficam o dia inteiro embaixo do chuveiro", ri Cristina. Depois da escola e do almoço, Lucas senta em frente de casa olhando o movimento - na infância, fugia bastante, mas depois de uma reforma na residência isso parou. Mais de uma vez, uma pessoa parou para pedir informação e ficou irritada pela falta de resposta.

Desafio do entendimento

Um dos desafios é fazer as pessoas que não convivem com autistas entenderem as situações. Lucas, por exemplo, não fica em ambientes fechados por mais que meia hora. Certa vez quando foi ao médico, teria que esperar. Ao ver a porta do consultório entreaberta, arrastou a mãe até lá para ser atendido. "Voltei e fui pedir desculpa para o pessoal", conta Nina aos risos.

Embora bastante comprometida, a interação social existe. "O Matheus tem os brinquedos dele. Na frente da minha casa é grade, ele joga o brinquedo na calçada, e quando um passa ele pede, aí a pessoa dá. Ele começa o linguajar dele para fazer amizade", fala Cristina. A mãe pede que o filho olhe nos olhos dela quando estiver falando. Ela diz o que precisa devagar e em tom de voz baixo. "Às vezes quando ele quer me falar alguma coisa, ele puxa o rosto querendo dizer 'olha pra mim'," conta.

Segundo Daniela Honório de Barros Dutra, diretora do CEMA, os alunos interagem entre si. "Outro dia a gente estava jogando basquete e um começou a tirar sarro do outro. Eles conversam entre eles, tem dois que de vez em quando pegam um na mão do outro e vão os dois passear na floresta cantando. Existe uma relação afetiva, eles se abraçam."

Paciência e amor caminham juntos

A diretora Daniela ressalta que não se pode desistir. "Você fala 'isso não tem jeito'. Tem. É um trabalho diário." É preciso respeitar o espaço de cada um, apesar da necessidade de impor limite. "Eu tive uma aluna que tinha medo de banana. Para que eu vou dar? Tem que respeitar algumas coisas que não vão mudar em nada." Isso acontece na escola: se o aluno está na oficina de música, mas naquele momento está mais interessado, por exemplo, na de artesanato, ele pode deixar o local onde está e se dirigir aonde prefere.

Para Valdeir, Chalel ensinou que a vida deve ser focada na paciência para conquistar os objetivos. "Ele é tudo, somos apaixonados por ele, é meu ídolo." Cristina diz que nem se lembra dos momentos difíceis que passou. "Ele (Matheus) me ensinou a ter paciência, amor, a olhar para os lados e ver que tem pessoas muito piores." Para Nina, Lucas representa a vida. "Tudo gira em torno dele."A família inteira se envolve nos cuidados. No começo, os outros filhos de Nina tinham ciúmes, mas entenderam a explicação da mãe que o menino precisa dela. "Para meus filhos o Lucas é em primeiro lugar. Eu falo para minha filha: se um dia eu fechar o olho vocês vão cuidar direitinho?"

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