Diário da Região

03/04/2018 - 22h45min

É A VIDA

Irmã Inez, a freira do RAP que só espalha amor

Com 25 anos de vida religiosa, ela conta que o RAP foi o meio que Jesus lhe colocou de evangelizar os jovens. As músicas falam sobre Deus, vida e cidadania. A madre também cuida de moradores de rua

Fotos: Mara Sousa 3/4/2018 Irma Inez em frente à Paróquia Nossa Senhora do Brasil, onde ela gravou um clipe nesta terça-feira
Irma Inez em frente à Paróquia Nossa Senhora do Brasil, onde ela gravou um clipe nesta terça-feira

Freiras que cantam e dançam não existem apenas no filme "Mudança de Hábito", estrelado por Whoopi Goldberg. O Brasil tem sua versão, que é tão ou mais inusitada. Madre Inez de Souza Carvalho não revela a idade e classifica a si mesma como uma freira "meio anormal". Há 25 anos na vida religiosa, transformou-se na "Freira do RAP", com sete CDs lançados. Mora em Paranaguá, litoral do Paraná, e esteve em Rio Preto nesta semana filmando os clipes das canções "O Brilho da Misericórdia", sobre testemunhos de cura, e "Te Coroamos", sobre Maria, mãe de Jesus. A irmã também participou de um evento na Rede Vida, em Barretos. 

Antes de entrar na vida religiosa, irmã Inez tinha vontade de ser cantora e dançarina, mas nunca havia enveredado por esses caminhos. De formação católica, conta que a mãe gostava muito de rezar e acredita que foi chamada por Deus em uma ocasião em que, para a madre, Ele entrou em contato com ela. Após a ordenação, começou a trabalhar com meninas de rua, jovens que sofreram abuso e faziam uso de entorpecentes. As garotas eram levadas para a casa das irmãs. A função de Inez era catequizá-las, mas estava difícil. "Um dia nas minhas orações eu falei para Deus 'não consigo, está impossível, não tem como'. Eu senti que Jesus colocou no meu coração que eu deveria dançar com aquelas meninas", conta Inez, que até aquele momento nunca havia feito isso.

"Jesus falou para mim: 'Você vai dançar com elas músicas não da igreja, músicas do mundo'. Para mim foi pior ainda, mas eu senti no coração." Assim que terminou a oração, Inez pegou um grande aparelho de som que as irmãs possuíam e colocou em um lugar grande da casa. "Liguei bem alto e comecei a dançar com elas. As meninas ficaram encantadas e foi a forma de cativá-las. Algumas fugiam de casa para contar para as meninas de rua que lá dentro tinha uma freira diferente. Assim conquistamos o espaço. Aí que eu fui conhecer o tal do rap", relata Inez.

Uma das primeiras músicas dançadas foi o hit "Cada um no seu quadrado". "Entrei no quadrado delas", brinca. A madre fala que foi então conhecer as ruas onde essas meninas moravam. Queria conhecer sua realidade.

Começou a surgir a inspiração para as canções: muitas músicas surgem durante orações, algumas durante viagem. Há vários momentos para as composições. "A gente colocava as meninas em festivais de música, elas ganhavam alguns festivais e foi onde surgiu a freira do RAP. Depois eu fui em tudo quanto é lugar divulgar e evangelizar nas ruas e me tornei realmente uma freira de rua, o meu trabalho é nas ruas." O nome "freira do RAP" surgiu de quem a conhecia de programas de televisão. "Hoje já faz mais de 20 anos e criou uma marca." 

Os clipes foram gravados em diferentes cenários, com apoio de jovens de grupos de dança. Os figurinos da religiosa são irreverentes: em vários deles, ela surge com um colete de couro por cima do hábito. Em outros, com aventais coloridos, e até com uma jaqueta verde e amarela para um vídeo com uma música sobre as Olimpíadas. Os temas envolvem, sim, religião, mas também conselhos para as pessoas e cidadania, como no rap "Brasil sem Mosquito", um apelo contra o mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, zika vírus e chikungunya. Na internet, é possível vê-la, acompanhada por outras irmãs, cantando "Que tiro foi esse", hit da cantora de funk Jojo Maronttinni.

Os planos e projetos iniciais de Inez foram frustados. Hoje sabe que esse trabalho era o que Deus queria para ela, mas não o que queria para si mesma no início. A ideia era entrar em um convento. "Ficar ali rezando, jejuando, e de repente Deus me colocou para morar com as pessoas, trabalhar nas ruas, viajar. Eu viajo muito pregando e cantando. Tenho certeza que é a vontade de Deus e sou muito feliz com isso", garante.

Além do RAP, ela canta outras canções com temáticas católicas. Inez é fundadora da Comunidade Milagre Eucarístico, também resultado de um chamado que, para ela, foi feito por Deus. A entidade atende moradores de rua, chamados por ela de "Jesus de Rua". Lá, as pessoas podem se alimentar e ser encaminhadas para centros de recuperação, além de outras formas de assistência. Outras irmãs ajudam Inez, bem como jovens leigos que não querem ser padres nem freiras, mas desejam um namoro santo. O objetivo é resgatar a dignidade humana. 

O tema rendeu um livro, um dos quatro escritos pela madre: "Moradores de Rua - Jesus fora de casa". Escrever, aliás, foi mais uma forma que encontrou de se aproximar das pessoas. No início, a comunidade não aceitava bem o atendimento a essa população. "Foi muito difícil poder ajudar os mais pobres, principalmente os das ruas. Eu coloco no livro que é Deus que está nessas pessoas. A gente não pode ficar olhando muito para o que eles fazem, mas sim olhar para o que são. São humanos", ensina. Outro livro é "O Segredo da Humildade". "Para servir a Deus temos que ser humildes."

Além dos moradores de rua, irmã Inez também trabalha com crianças, casais, grupos de apoio, familiares de pessoas com dependência química. Ela acredita que a irreverência e a proximidade com a música ajudam na missão de levar Deus. "Se eu fosse nas ruas evangelizar com uma Bíblia na mão e um terço não iria conseguir. Mas com esse estilo e com a música derrubaram as barreiras, é maravilhoso você poder se aproximar do jovem, daquelas pessoas que não vão estar na igreja." O chamado da madre é justamente para esses irmãos que não estariam dentro da igreja. "A música é essencial, fundamental. Se não fosse ela tenho quase certeza que não iria ter sucesso na minha evangelização da forma que evangelizo. Eu danço nos shows. É tudo perfeito."

Brasil sem mosquito

Letra de uma das músicas da Freira do Rap

É tão pequeno, inofensivo

Mas não se engane, é um perigo

Se não cuidar pode aumentar

Se ele picar transmite vários vírus

Vamos alertar e trabalhar para o Brasil livre ficar

Sem esse mosquito nem a dengue tem

Nem a chikungunya, zika vírus, nenhum mal contém

Melhor prevenir que remediar

Essa gíria você já ouviu falar

Mas o principal é conscientizar

Para impedir a humanidade que um dia deixe de sorrir

 

'É preciso acreditar', diz

Irmã Inez diz que percebe que no mundo as coisas estão difíceis e que muitas pessoas estão sem esperança, não acreditam mais nem investem na alegria. "Precisa acreditar. Quando você ajuda o próximo, recebe muito mais que aquilo que ajuda. Eu quero deixar para as pessoas que acreditem, que tenham esperança. Porque se você tem esperança tudo dá certo. É o carro, o que vai mover para o futuro. Tem que acreditar."

A madre pensa que é possível resgatar a juventude, hoje bastante envolvida em crimes. "O ser humano é amado. Nós esquecemos que somos amados não pelo ser humano simplesmente, mas por Deus. Enquanto tivermos um Deus que nos ama dá para contornar a situação de tudo. O amor está acima de tudo", ensina. 

Outro livro escrito pela religiosa é "Foi ouvida a tua oração". Ela fala que muitos pedem uma graça a Deus, mas não acreditam que vão recebê-la, pois o ser humano é imediatista e Deus é lento. "Para seguir Deus e pedir algo temos que ter paciência. Nossa oração sempre é ouvida, mas é atendida no momento certo, que nem sempre é o nosso, é o de Deus. As pessoas têm que acreditar", reforça. "Faça a oração e acredite." (MG)

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