Diário da Região

15/04/2018 - 00h30min

RIO PRETO

Famerp comemora 50 anos entre as melhores faculdades de medicina no Brasil

Desde sua fundação, a Faculdade de Medicina de Rio Preto contribuiu para que a cidade se tornasse referência em saúde; entidade também transformou a vida de seus alunos

Guilherme Baffi 13/04/2018 A Famerp foi idealizada por um grupo de estudantes que sonhava com uma faculdade de medicina em Rio Preto
A Famerp foi idealizada por um grupo de estudantes que sonhava com uma faculdade de medicina em Rio Preto

O sonho de um grupo de jovens no final da década de 1960 de fundar uma faculdade de medicina em Rio Preto não só foi concretizado como contribuiu para que a cidade ganhasse uma identidade, se transformando em referência na saúde. Neste domingo, 15, esse sonho, também conhecido como Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp), celebrou o jubileu de ouro. São 50 anos de história da faculdade que já formou 2.857 médicos e 1.205 enfermeiros.

Aluno da segunda turma, o radiologista Arthur Soares Souza Junior relembra que a Famerp foi criada como Fundação Regional de Ensino Superior da Araraquarense (Fresa). "Houve um envolvimento de, praticamente, todos os grupos médicos de Rio Preto. Havia pouquíssimas faculdades de medicina no Brasil", diz o médico que relembra seus anos de graduação: "Quando comecei estudar, o prédio do hospital escola não estava nem pronto ainda. A faculdade era bem pequena. Havia somente aquele prédio da frente, um auditório e as áreas de ciências biológicas", conta. "Na época estavam construindo a rodovia Washington Luís e tínhamos que desviar pela Alberto Andaló e atravessar um pedaço de terra. A faculdade ficava em meio a chácaras", disse Arthur, que é livre-docente pela Famerp.

O desejo e a organização dos médicos da época, nas palavras de Arthur, provocou uma "mudança muito grande na medicina em Rio Preto". "Tivemos a felicidade de ter professores do mais alto nível. Também foi feito um convênio com a Universidade da Flórida, vieram professores americanos dar aula. Já tinha uma ideia extremamente inovadora e uma vontade muito grande de fazer uma coisa diferente de tudo que já existia em qualquer outro lugar, com envolvimento dos alunos e profissionais."

Estadualização

O médico Cacau Lopes, especialista em saúde pública, que começou a estudar na Famerp, em 1975, quando ainda era uma instituição particular, foi um dos estudantes que participaram das ações que resultaram na estadualização da faculdade, que oficialmente ocorreu em 1994. "Dentro do movimento da faculdade tinha toda uma luta nossa para torná-la pública. Em 1979, acampamos por seis dias no Ministério da Educação exigindo intervenção para que a faculdade se desprivatizasse."

Troca de cadeiras

Muitos estudantes de medicina trocaram de lugar e ocuparam cadeiras de docentes e na diretoria da instituição. Aluno da primeira turma, o infectologista Irineu Luiz Maia foi contratado como auxiliar de ensino em 1975, dois anos após a formatura. "Foi uma experiencia importantíssima porque, com um ano de formado, eu já era professor da faculdade, me encheu muito de orgulho, mas me deu preocupação. Precisava estudar muito para mostrar que era capaz", disse Maia, que trilhou sua carreira docente na instituição.

Excelência

Em 50 anos, a Famerp escreveu sua história formando profissionais de excelência. A instituição é considerada uma das melhores de ensino superior do país e hoje recebe estudantes de 22 Estados brasileiros. Em 2016, foi anunciada pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) como a primeira colocada no Exame da entidade em todo o Estado de São Paulo. No ano passado, ficou entre as oito melhores instituições no mesmo exame e foi uma das três do Brasil a receber nota máxima para o curso de medicina no Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes).

Formação

O diretor geral da Famerp, Dulcimar Donizeti de Souza, ressalta a importância do complexo Famerp / Funfarme na formação dos alunos. "Temos um hospital que é o segundo maior em atendimento do estado de São Paulo e a faculdade que forma nas áreas da enfermagem, medicina e, agora, psicologia. Além de pós-graduação de referência e 67 campos de aprendizagem residência, com 500 residentes."

Além disso, a instituição vem ganhado cada vez mais destaque no Brasil e no mundo por suas pesquisas, como a de zika e gestantes e sobre a relação entre a zika e dengue. "Sem esquecer o viés do SUS, o atendimento e acolher bem, principalmente, os pacientes com mais necessidade de atendimento", complementa o diretor dizendo que para o futuro o foco são novos cursos e intensificar as pesquisas.

Referência

Acompanhando o crescimento de Rio Preto, a Famerp se desenvolveu e contribuiu para que a cidade se tornasse referência na área da saúde. "A cidade era preponderantemente comercial e tinha um forte peso no setor agrícola. A Famerp teve a capacidade, ao longo desses anos, de criar uma vertente de colocar a saúde como estratégia de desenvolvimento local", afirma o deputado estadual Orlando Bolçone.

Orgulho

A ginecologista-obstetra Regina Maria Volpato Bedone, que se formou em 1976 na Famerp, conta o orgulho de ter passado pela instituição é diário. "Eu adoro olhar meu diploma. Sinto orgulho não só da formação cientifica, mas também das amizades que fiz", disse a médica.

Famerp teve sua aula inaugural em abril de 1968

Fundada como Faculdade Regional de Medicina de Rio Preto (Farme), a instituição teve sua primeira aula ministrada em 15 de abril de 1968. Na sua implantação, foi criada a Fundação Regional de Ensino Superior da Araraquarense (Fresa), responsável por captar recursos e por viabilizar projetos de lei que autorizaram seu funcionamento.

Na década de 70, a escola foi atingida por uma crise financeira e greve de alunos, que exigiam melhores condições de ensino. Esses acontecimentos provocaram a extinção da Fresa e a criação da Fundação Faculdade Regional de Medicina (Funfarme), que passou a ser responsável por manter os cursos de medicina e enfermagem - criada em 1991 - e pelo pagamento das mensalidades.

Em 1994, A Famerp foi estadualizada, que gerou a mudança do perfil da faculdade, tanto do ponto de vista econômico, como estrutural. A conquista mais recente da Famerp foi a abertura do curso de psicologia. A primeira turma teve início no ano passado. (TP)

 

Estrutura da instituição

Reprodução Fachada da Famerp antigamente; região era quase vazia
Fachada da Famerp antigamente; região era quase vazia

Autarquia Estadual de Ensino Superior, a Famerp também mantém cursos de enfermagem desde 1991 e em 2017 abriu o curso de psicologia. Medicina é um dos mais concorridos do País e no último vestibular a instituição teve a maior concorrência de sua história. Foram 16.982 candidatos disputando 80 vagas, ou seja, 212,2 candidatos por vaga - foi o quarto ano consecutivo com recorde de inscritos para medicina.

A Famerp também oferece 67 programas de residência médica e 26 de programas de aprimoramento. Atualmente, 663 alunos estão matriculados na instituição, sendo 465 no curso de medicina, 162 no de enfermagem e 36 no de psicologia. Para que toda esta tradição funcione, são 272 docentes e um total de 514 funcionários.

"Nesses 50 anos, tivemos a participação importante do Hospital de Base, nosso hospital escola que é todo esse complexo, engloba o HCM, Hemocentro, os ambulatórios, o Instituto do Câncer, que contribui muito para a formação dos médicos, enfermeiros e psicólogos. Na minha opinião, não existe faculdade de medicina sem um hospital escola. É um equivoco que tem existido em inúmeras faculdades", afirma o diretor geral da Famerp, Dulcimar Donizeti de Souza. (TP)

"Rio-pretenses" graças à Famerp

Desde a primeira turma, em 1968, quando 68 jovens ingressaram no curso de medicina, a cidade viu profissionais modificarem o cenário rio-pretense e ajudar a fazer da cidade referência nacional. A instituição é responsável por várias histórias de vidas que ao adentrar nas suas salas adotaram Rio Preto como a cidade do coração. São pessoas que vieram, simplesmente, estudar, trabalhar ou fazer residência e que acabaram criando raízes, trilhando a carreira profissional e formando famílias.

Um deles é o oftalmologista Sérgio Grecca, natural de Marília, veio para Rio Preto com 19 anos. Ele iniciou os estudos na Fameca (Faculdade de Medicina de Catanduva), mas logo saiu o resultado da Famerp e optou por mudar de instituição. "Ela (Famerp) já era uma faculdade super conceituada, com ótimos professores e com uma estrutura hospitalar completa. O sonho da maioria daqueles que desejavam cursar medicina”.

Quando Grecca ingressou na Famerp, a instituição ainda era particular. Em setembro de 1994, ela passou pelo processo de estadualização. O oftalmologista relembra que não era membro efetivo da Atlética, mas participava dos jogos da medicina e acompanhava a faculdade nas competições.

“A faculdade contribuiu diretamente para o meu crescimento pessoal. Foi minha primeira experiência fora de casa com uma responsabilidade grande pela frente. Tive muitos momentos difíceis, mas outros tantos prazerosos. Guardo grandes recordações e amigos”, destaca.

Além do crescimento pessoal e profissional, a Famerp também contribui com a vida amorosa do oftalmologista. Foi dentro do campus que conheceu a mulher, Kelly Risso Grecca. “Ela se formou em psicologia pela Unesp em Bauru e foi contratada pelo serviço de psicologia da Famerp. Ela era de Rio Preto. Eu estava no meu sexto ano de faculdade. Fiquei por aqui para fazer residência e nos casamos no terceiro ano da especialização.”

Grecca chegou a morar um ano em Ribeirão Preto para cursar uma especialização na USP. “Minha mulher ficou em Rio Preto nesse período pois trabalhava aqui. Em 2004, retornei para a cidade para fazer parte de um grupo oftalmológico e porque gosto muito da cidade. Rio Preto tem o avanço de grandes Capitais, mas com ares de interior.”

Grecca e a mulher tiveram dois filhos: Luísa Risso Grecca, de 11 anos e Lucas Risso Grecca, de 5. Hoje, o oftalmologista é responsável pelos departamentos de plástica ocular, vias lacrimais e órbitas do D’Olhos Hospital Dia.

De campinas, o estudante do 6º ano de medicina, Rodrigo Pereira Amarante, 27 anos, passou no vestibular da Famerp aos 22 anos. A instituição não era a sua primeira opção. Ele queria Unicamp, mas ao iniciar as aulas e conhecer o local onde passaria os próximos anos, decidiu ficar. E gostou tanto que prestará a prova de residência médica na área de cirurgia torácica na Famerp. "Cheguei sem conhecer a cidade, mas quando vi o HB, todo o complexo da Famerp, os professores cancelei o remanejamento para a Unicamp antes de sair o resultado", conta Rodrigo. (TP)

Selereiro Político

No campus da Famerp surgiram políticos que atuaram em Rio Preto e também no Estado. Entre eles, Regina Chueire, Cacau Lopes, José Carlos Chim, Liberato Caboclo, Renan (da dengue), Valdomiro Lopes, Virgílio Dalla Pria, Eleuses Paiva.

Vereador por dois mandados, 1997 - 2001 e 2001 – 2004, e secretário de Saúde Municipal na segunda gestão, Cacau Lopes, se graduou na Famerp e fez especialização em saúde pública e medicina preventiva na Unicamp. Docente e chefe do departamento de saúde coletiva, o médico conta que seu período acadêmico, entre 1975 e 1981, o despertou para a visão pública. "Entrei na faculdade com 17 anos, e realmente, esses seis anos de faculdade foram muito importantes para a carreira política. Primeiro que nesse período, o país vivia, mesmo que de forma menos violenta, a Ditadura Militar", conta Cacau.

Cacau destaca que os movimentos estudantis da época, nas instalações da Famerp eram bastante ricos e cita a União Municipal dos Estudantes Universitários. "O centro acadêmico era um espaço não só de discussão política, de discussão de ensino, mas também um dissimulador da vida cultural. A faculdade naqueles anos não tinha muita carga horária de extensão para a comunidade e, nós alunos, criamos o primeiro projeto de urbanização de favela, que é a Vila União. Foi um trabalho de estudantes de medicina com a comunidade da favelas Mirassolândia e Gogo do Sapo".

Para a fisiatra Regina Chueiri, hoje presidente da Rede Lucy Montoro, o ambiente da Famerp foi primordial para o despertar da sua vida pública. Formada em Sorocaba, em 1988, Regina foi convidada para atuar na instituição como professora auxiliar de ensino. Atualmente, ocupa uma das cadeiras de professora adjunta. Foi durante sua tese de mestrado sobre "As condições de vida dos pacientes que sofreram acidente vascular cerebral" que se abriu a porta para a política.

"Tínhamos uma parceria com a secretaria de Bem Estar Social e uma vez por semana visitava esses pacientes. Era 1997, que fui descobrindo o mundo da política graças ao trabalho de mestrado. Nessa época, o Liberato Caboclo ganhou para prefeito e me convidou para ser secretaria da pasta", Relembra Regina, que foi vereadora em 2000, e assumiu as secretarias de Bem Estar Social e de Habitação, nos primeiros mandatos do governo Edinho Araújo, além da Secretaria dos Direitos e Políticas para Mulheres, Pessoa com Deficiência, Raça e Etnia, no governo de Valdomiro Lopes. "Sem nunca deixar a faculdade", ressalta a médica. (TP)

Instituição deu origem a vários políticos

O campus da Famerp também foi o espaço de origem de políticos que atuaram em Rio Preto e no Estado. Entre eles, Regina Chueire, Cacau Lopes, José Carlos Chim, Liberato Caboclo, Renan (da dengue), Valdomiro Lopes, Virgílio Dalla Pria, Eleuses Paiva, etc.

Vereador por dois mandados, 1997 - 2001 e 2001 - 2004, e secretário de Saúde Municipal na segunda gestão, Cacau Lopes, se graduou na Famerp e fez especialização em saúde pública e medicina preventiva na Unicamp. Docente e chefe do departamento de saúde coletiva, o médico conta que seu período acadêmico, entre 1975 e 1981, o despertou para a visão pública.

Para a fisiatra Regina Chueiri, hoje presidente da Rede Lucy Montoro, o ambiente da Famerp foi primordial para o despertar da sua vida pública. Formada em Sorocaba, em 1988, Regina foi convidada para atuar na instituição como professora auxiliar de ensino. "Tínhamos uma parceria com a secretaria de Bem Estar Social e uma vez por semana visitava esses pacientes. Em 1997 fui descobrindo o mundo da política graças ao trabalho de mestrado", relembra Regina. (TP)

 

Estudantes fazem história na gastronomia

A fundação da Famerp, em 1968, cruza com a história da tradicional pizzaria San Remo, que neste ano também completa 50 anos e mantém a famosa pizza, carinhosamente nomeada de "medicina". Um simples pedido dos estudantes da faculdade contribuiu para a criação da pizza, que leva mussarela, molho, calabresa, cebola, ovos cozidos e azeitonas pretas.

Eram estudantes e queriam economizar. Eles, então pediam uma pizza de mussarela, que era a mais "em conta" e em seguida acrescentavam: "Coloca uma calabresa de cortesia pra mim", conta Alexandre Galdino, proprietário da San Remo, "e assim conseguimos o agradinho. Com o passar do tempo, quando chegava estudantes da medicina. O pedido para o pizzaiolo era "faz uma pizza medicina" e assim ficou o nome". Os alunos fizeram história, que é mantida até hoje. (TP)

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