Diário da Região

18/03/2018 - 00h00min / Atualizado 18/03/2018 - 00h00min

RIO PRETO - 166 ANOS

Revolução verde no São Deocleciano

Moradores se unem e transformam área tomada por mato e lixo em praça aconchegante

Mara Sousa 17/2/2018 Moradores na praça batizada "Nosso Canto", espaço aberto a todos os vizinhos
Moradores na praça batizada "Nosso Canto", espaço aberto a todos os vizinhos

Um fogão a lenha, uma rede pra descansar. Mesas e bancos pra colocar o papo em dia sob a sombra aconchegante de um pequeno arvoredo. Uma horta, jabuticabeira e o canto dos pássaros ao entardecer. As cenas bucólicas descritas remetem a algum endereço no campo, mas são dentro de Rio Preto, mais precisamente no São Deocleciano, onde os moradores decidiram colocar a mão na massa e transformaram um terreno tomado por sujeira e mau cheiro em um local de lazer coletivo muito além de uma praça convencional.

O espaço é democrático e aberto a todos os vizinhos, que se revezam na vigilância e nos cuidados com o lugar. Ambiente perfeito e convidativo, pra todo tipo de ocasião. Uma conversa logo vira motivo pra uma “pipocada”, um bolo de fubá com aquele cheirinho irresistível. E logo em seguida alguém chega com um café, um chá ou refrigerante. E enquanto os adultos “filosofam” de um lado, a garotada se esbalda correndo em volta das árvores, em ambiente limpo e seguro.

A propósito, e não por acaso, a praça com toques personalizados, nascida das mãos dos próprios moradores, ganhou o sugestivo nome de Nosso Canto. Um lugar sem uma placa dessas típicas do poder público, com nomes de autoridades em inaugurações feitas em meio a discursos repetidos e logo esquecidos por esse mesmo poder público. Apenas um nome entalhado em um pedaço de madeira: Nosso Canto.

“Aqui é assim, todos cuidam e todos se beneficiam. Hoje, quem é de fora, nem acredita que até mais ou menos três anos atrás isso aqui não passava de um lugar cheio de entulho, mato e até lixo doméstico. Um chegava, jogava uma coisa, o outro mais um tanto e logo a poluição estava enorme. Perdemos as contas de quantas vezes pedimos ajuda da prefeitura, até que a gente se cansou e resolveu mudar essa situação por meio de nossos esforços”, conta Célio Marcos Brazolin, espécie de zelador informal da praça.

Célio, que é comerciante, nem sabe como surgiu essa aptidão por transformar materiais descartados - madeira, vidro e pneu - em objetos que imprimem uma atmosfera agradável ao “Nosso Canto”. Tábuas viram bancos e mesas, uma delas até com tampo de vidro. Pneus se transformam em vasos. E tudo o mais que é possível reciclar ganha uma função prática ou decorativa.

“Quando começamos a ajeitar as coisas percebi que era possível fazer um pouco mais. Tentei arrumar um jeito da gente se reunir com algum conforto, confraternizar, e naturalmente fui descobrindo que eu tinha habilidade pra fazer essas coisas. Não foi fácil, e claro que todos os vizinhos colaboraram e colaboram até hoje, e o mais importante é que hoje temos um lugar único e confortável que serve a todos nós”, conta Célio.

A dona de casa Fátima Fortes, 62 anos, lembra muito bem como era o lugar antes da transformação. Não tinha sossego, porque o espaço descuidado atraía gente estranha, gente com segundas intenções, que representava uma ameaça também pra garotada. “Era complicado, porque lugar que não é cuidado atrai tudo que é ruim. Hoje não, hoje todos nós temos tranquilidade, inclusive as crianças, que usam os bancos debaixo da sombra pra estudar.”

O “Nosso Canto”, na altura do número 141 da rua Antônio Menegheti, hoje é um endereço valorizado e disputado. Tem até lista de espera pra quem quer utilizá-lo pra alguma comemoração. Isso porque ali, além de todo esse ar bucólico, conta com uma pequena infraestrutura de lazer que inclui churrasqueira, espaço pra acondicionar bebida, fogão à lenha (com forninho e tudo) e até luz elétrica. Falta só ligação de água, que o pessoal já está mobilizado pra resolver.

“Aqui o pessoal comemora aniversário, por exemplo, e até outras datas como Carnaval. Tudo, é claro, mediante algumas regras que devem ser cumpridas à risca - som pode, mas dentro dos limites de tolerância, e os participantes devem se comprometer a entregar o lugar do jeitinho que encontram, ou seja, limpinho”, diz Célio.

Desse jeito, todos usufruem do cantinho verde e garantem que ele permaneça como está. O que é ótimo, por exemplo, para a dona de casa Senia Rosária Simão, 57 anos, levar a mãe, dona Berenice, de 80 anos, para passear. “Aqui e ótimo pra ela, que tem Alzheimer. É calmo, tem os passarinhos, parece até que a gente está em outro lugar”, declara Senia.

Bom também para o aposentado Antônio Carlos Fortes Burin, 63 anos, que pode aproveitar o final da tarde para um descanso estratégico bem em frente de casa, aproveitando o ar livre e a natureza, que presenteia os moradores com os cuidados que recebe. “Aqui tem sempre passarinho, vem canarinho e às vezes passo-preto. Pra ficar perfeito de tudo a prefeitura precisava fazer o restante do calçamento, que vai além do pedaço que a gente cuida. Mas ter um lugar desse pertinho de casa não tem preço”, sorri seu Antônio Carlos, feliz por poder aproveitar a aposentadoria com um pouco mais de qualidade de vida.

Vazios urbanos

A cidade que avança e que se urbaniza em todas as direções é a mesma que “tinge” de concreto e cinza onde o verde era, até pouco tempo, quase absoluto. E na pressa da cidade que cresce, ficam para trás os chamados vazios urbanos.

São áreas incorporadas ao perímetro urbano, algumas delas estrategicamente sem ocupação à espera de valorização imobiliária e outras, definidas como área verde - a cargo da prefeitura para, por exemplo, erguer pontos de lazer nos bairros - simplesmente esquecidas. Espaço propícios para degradação e todo tipo de poluição, quando não cuidadas.

Apenas os vazios urbanos correspondem a quase 20% dos 431 quilômetros quadrados que formam a área urbana de Rio Preto. Imagine o quanto iniciativas como esta dos moradores do São Deocleciano poderiam fazer a diferença?

Ainda mais se considerarmos que a cidade tem cerca de 270 mil árvores em frente a imóveis. Um número que sobe para 400 mil se considerada a arborização de canteiros centrais, praças, áreas verdes e áreas de preservação ambiental. Parece muito, mas não é. Esse montante equivale a 8 metros quadrados de área verde por habitante. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o ideal seriam 12 metros quadrados por habitante, ou seja, Rio Preto tem quatro metros quadrados a menos que o ideal por morador.

“Não é muita coisa. Cada um colaborando um pouco, o pessoal se unindo, é possível transformar uma área poluída em um espaço agradável para todo mundo aproveitar”, resume Célio, o zelador informal da área que os moradores revolucionaram no São Deocleciano.

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