Diário da Região

18/03/2018 - 00h00min / Atualizado 18/03/2018 - 00h00min

RIO PRETO - 166 ANOS

Um sonho ao som das Valquírias

Entidade atende garotas em situação de vulnerabilidade social e procura mostrar que cada pessoa pode mudar seu destino e ter um futuro melhor

Mara Sousa 16/2/2018 (esq. para dir.) Larissa, Michele, Amanda, Ana Leandra e Bianca: As Valquírias procuram ajudar as pessoas a superarem adversidades
(esq. para dir.) Larissa, Michele, Amanda, Ana Leandra e Bianca: As Valquírias procuram ajudar as pessoas a superarem adversidades

Qual é o teu sonho? Uma pergunta apenas, mas cheia de significados. As garotas que colocam os pés no Instituto As Valquírias já ficam sabendo, de cara, a primeira lição e talvez aquela que a acompanhará dali em diante. Qual é o teu sonho e onde exatamente você quer chegar? É assim, preparando as meninas para vencer na vida por meio da educação em tempos ásperos, que as Valquírias transcende sua força para além dos muros onde fica a sua sede, de frente para o Jardim Paraíso - zona do meretrício oficial de Rio Preto.

Pontuar o endereço do projeto não é mero preciosismo, mas apontar para a realidade com a qual a fundadora Amanda Oliveira trabalha e ao mesmo luta de forma obstinada para mudar. Mudar, sem jamais mascarar o estado de vulnerabilidade social e emocional que a maioria chega ao atravessar o portão branco de parede rosa.

“As meninas chegam ao Instituto machucadas (física e psicologicamente) por terem sofrido abuso, por terem perdido suas mães - não raras vezes, mães que estão presas - ou por serem rotuladas como meninas que não vão virar nada, justamente por morarem em bairro que é cercado pelo tráfico de drogas e pela prostituição”, relata Amanda.

E para essa batalha cotidiana, ela reveste-se da arma que acredita ser mortal contra o determinismo, a educação. “Quando você educa uma menina, você educa uma nação”, é o seu lema. “O meio em que você cresceu não pode jamais determinar suas escolhas. Nós, aqui dentro, procuramos mostrar que há caminhos e que há uma realidade que pode ser alcançada por meio do estudo, por meio da aplicação e da dedicação ao que se faz e ao que se acredita”, complementa.

Criado por Amanda em novembro de 2007, As Valquírias é uma organização da sociedade civil que se dedica a dar oportunidade a crianças, jovens, idosos e seus familiares que se encontram em risco de vulnerabilidade social e emocional. O objetivo é proporcionar formas de enfrentamento dessa realidade.

Com esse objetivo, o instituto estruturou-se em três frentes: a Banda Musical, o Instituto Social e a Escola de Empreendedorismo. São 13 comitês em ação atualmente com 11 projetos em andamento, impactando diretamente 1,8 mil famílias por mês e, indiretamente, cerca de 32 mil pessoas por ano.

Para a empreendedora social, o trabalho fundamental com a turma consiste exatamente no despertar para uma nova realidade. “Primeiro você provoca o sonho, depois altera as referências e por último muda a história. É um processo, dentro do qual a música é uma ferramenta muito eficaz”, explica Amanda, que tem dez garotas fixas nas bandas, mas que nas aulas de música tem mais de 100 alunas inscritas, de 5 a 19 anos.

De acordo com a fundadora, o trabalho de educação emocional é tão imprescindível que ela não tem dúvidas de que deveria ser inserido na grade curricular das escolas. “Educação emocional é promover o olho no olho, a mudança real, que acontece quando você olha nos olhos dessas meninas e pergunta qual é o sonho que carregam. Elas têm o sonho adormecido e pensam que sonhar é algo que está muito distante da realização. Nosso objetivo é exatamente o de despertar aquele sonho que está adormecido.”

O papel das Valquírias é fazer exatamente com que essas meninas, jovens e mulheres tenham a sua autoestima reconstruída. “Procuramos mostrar que se a gente nasceu na pobreza, não quer dizer que tenhamos que viver com ela a vida toda. Nascer pobre é ter o poder de construir, de desenvolver a resiliência, de ampliar nossa empatia, além de termos em nós o espírito coletivo, da ajuda mútua. O mundo é de todo mundo e temos que descobrir como podemos contribuir a para melhorar a vida do outro”, enfatiza.

Por meio do empoderamento e do empreendedorismo, “As Valquírias” ensina como lidar com as questões da vida e com as adversidades. “Não importa de onde você vem, mas pra onde vai. Temos esse poder em nós, de mudar nossa história. O que oferecemos é olho no olho e uma simples frase: Eu acredito em você”, destaca Amanda.

Reescrevendo sua história

A empreendedora fala com a convicção de quem teve de rescrever uma novo capítulo para a sua própria história, marcada por intenso bullying sofrido entre a infância e a adolescência. É que ela sofreu um acidente doméstico quado criança, ainda em São Paulo, onde vivia coma a família em uma favela.

Amanda cresceu observando a mãe sacrificar-se ao extremo para alimentar as filhas. E era comum ver a enchente levar tudo de dentro do barraco feito de papelão e madeira. A luta pela sobrevivência era constante. Certa vez, em uma noite fria, Amanda estava com gripe e a mãe foi improvisar uma inalação com água fervendo. O pai de Amanda cochilou com ela no colo, e ela caiu com o rosto dentro da água e sofreu queimaduras de terceiro grau.

“Minhas cicatrizes foram além das que são visíveis. Sofri bullying terrível na escola. Mas eu sou prova de que podemos mudar nosso destino. Fui salva em todos os sentidos. A periferia te leva para muitos caminhos que parecem ser mais fáceis. Por meio da música estamos conseguindo recalcular a rota da vida de tantas ‘Valquírias’. Elas estão quebrando ‘a lógica’ de um ciclo familiar e as próximas gerações serão diferentes”, ressalta a empreendedora social e musicista.

Mudando vidas como a da aluna Michele Roberta dos santos Maurity, de 17 anos. Ela chegou ao instituto aos 12 anos, com sérios problemas dentro de casa em razão do alcoolismo do pai. Nas Valquírias reconstruiu seu destino e agora inicia uma nova caminhada: inicia, agora, o curso de graduação em Arquitetura. “Aqui aprendi a sonhar e a acreditar em mim. Serei a primeira da família a ter um diploma. Isso, sem dúvida, mudou a minha vida.”

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