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RIO PRETO - 166 ANOS

A escola de salas 'invisíveis'

Inspirada em modelo português, a escola Maria Peregrina aplica método que procura estimular o estudante à pesquisa e ao conhecimento de si próprio


    • São José do Rio Preto
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Oi! Você conhece a escola da Lara e da Raíssa? Ela fica aqui em Rio Preto, na zona norte. E quem apresenta as instalações, metodologia e projetos desenvolvidos são as próprias alunas, que cursam o 9º ano do ensino fundamental. A Escola Maria Peregrina é assim, diferente até mesmo na forma com que os visitantes têm o primeiro contato com ela.

A Maria Pegrina, com seu estilo de aparência informal, é na verdade um dos exemplos mais bem-sucedidos no País do conceito de independência curricular, de autonomia estudantil e da ideia de escola como uma extensão da comunidade onde ela está inserida. Haja vista, para quem possa torcer o nariz, as 15 teses de doutorado e outras 15 de mestrado que a escola rio-pretense já inspirou e os 500 candidatos em fila de espera para matrícula.

Discípula da Escola da Ponte - uma instituição pública de Portugal que, desde 1976, compreende que o percurso educativo de cada estudante supõe um conhecimento cada vez mais aprofundado de si próprio e um relacionamento solidário com os outros - a Maria Peregrina faz o que Max Wada, um dos fundadores da instituição ao lado da irmã, Mildren, uma revolução ao mesmo tempo silenciosa e inquietante.

Silenciosa porque nem todos compreendem o que se passa por trás daquele prédio de muros baixos, de paredes “relativas” - onde não há divisão de séries, que não tem salas de aula com carteiras enfileiradas e nem sinal informando o horário do recreio. E inquietante porque parte do princípio de transformar a família e por extensão a comunidade, não apenas o aluno.

“É por isso que gosto de dizer que somos 100% ONG e 100% particular. A condição socioeconômica é importante, mas para nós o requisito mais importante que os pais ou responsáveis devem preencher quando nos procuram é se estão realmente dispostos a se envolver com a rotina da escola”, diz Max.

Esse envolvimento inclui participação efetiva no dia a dia escolar e nas atividades propostas, que incluem reuniões periódicas. Para a Maria Peregrina, esse envolvimento familiar é imprescindível.

“O mais importante aluno da escola, por assim dizer, é a família. Por isso, cada família recebe um acompanhamento pessoal visando a sua transformação. Esse acompanhamento se dá pelas visitas constantes nas casas e pelo plantão pedagógico mensal, que é uma partilha com a família sobre o desenvolvimento do aluno na instituição. Visitar a casa das famílias tem como objetivo a formação pessoal pela solidariedade e partilha objetivando a reeducação moral e ética dos indivíduos”, detalha Max.

A escola propõe também formações semanais e mensais, com a função de restaurar o convívio entre casais e demais familiares. Com esse objetivo, reúne em seu prédio todos os pais no último domingo do mês - é o chamado Domingo da Vida, dia em que a família celebra a unidade num almoço comunitário, participa das apresentações das pesquisas dos filhos e eventuais dificuldades que estejam enfrentando.

A Maria Pegrina possui a grande curricular convencional, com as disciplinas-base, mas os alunos não se prendem a elas. Na verdade, a proposta é que elas sirvam para que as turmas alcem voos muito maiores. Então um aluno pode aplicar seus conhecimentos básicos (e obrigatórios) em matemática para desenvolver, por exemplo, um projeto em engenharia mecatrônica ou ciência espacial.

“Na verdade a questão das séries é apenas para formalizar no currículo. Na prática as turmas são divididas em grupos de estudos. Apesar de não haver distinção de séries, procuramos formar os grupos com alunos de idades próximas. É importante dizer que o aprendizado sempre será o equivalente ao que ele precisa aprender em determinada série. Mas se ele estivar à frente, vamos dar suporte para ele aprender além”, explica Max.

A instituição conta atualmente com 120 alunos, do 1º ano do ensino fundamental ao terceiro ano do ensino médio, em turmas nunca superiores a 12 cada uma. Todos com total liberdade para criarem os seus espaços de estudo, que não só não são mais diversos (do pátio à biblioteca) por razões físicas - “herdamos o prédio assim, pronto, e não dá para sair quebrando as paredes”, enfatiza Max - e livres também para formarem seus grupos, devidamente supervisionados pelos professores que, neste conceito, ganham o nome de tutores.

De acordo com Max, o tutor precisa estar sintonizado com as atualidades, isso porque os temas escolhidos pelos estudantes são os mais variados. “Pode ser desde as migrações em massa por guerras ou fome vivenciadas em vários países até as novas tecnologias e desenvolvimento de jogos, por exemplo. Tudo amparado nas disciplinas como em um processo educativo normal, o que envolve cálculo, história, língua portuguesa e assim por diante. todas as disciplinas, de uma forma ou de outra, abordam o tema escolhido pelo grupo”, explica Max.

Mildren enfatiza que a ideia central baseia-se em um processo de aprendizado sem lousa e giz. Não que tais materiais não estejam presentes na Maria Peregrina. No dia da visita da reportagem, por exemplo, uma lousa “gigante”, do teto ao chão de uma das salas, estava preenchida com desenhos livres, de charge à arte abstrata. O principal meio é a pesquisa nos livros, que pode ser apoiada em pesquisa na internet, mas desde que o aluno pesquise ao menos em três fontes diferentes para checar sua confiabilidade e que faça essa menção em seu trabalho.

“Quanto maiores forem as opções para os alunos e quanto mais instigantes forem os meios em seu processo de aprendizado, mais ele desenvolverá suas habilidades, tanto para a futura carreira que vier a abraçar quanto para a vida”, conclui Wada.

Método revolucionário

Inserida no sistema público de educação e localizada no município de Santo Tirso (próximo à cidade do Porto), em Portugal, a Escola da Ponte não adota um modelo de séries ou ciclos. Lá, os estudantes de diferentes idades se organizam a partir de interesses comuns para desenvolver projetos de pesquisa. Os grupos se formam e se desfazem de acordo com os temas e a partir das relações afetivas que os estudantes estabelecem entre si.

O processo individual de cada estudante passa por três núcleos distintos: o de iniciação, consolidação e aprofundamento.

Em vez de um único professor, os estudantes acessam todos os orientadores educativos, que os acompanham tanto nas questões de aprendizagem acadêmicas quanto comportamentais.

Em vez de disciplinas, o projeto pedagógico é dividido por “dimensões”, nas áreas de linguística, lógico-matemática (Matemática), naturalista (Estudo do Meio, Ciências da Natureza, Ciências Naturais, Físico-Química e Geografia), identitária (Estudo do Meio, História e Geografia de Portugal e História), artística, tecnológica, entre outras.

O autor desse método revolucionário que se propagou pelo mundo, alicerçado em uma proposta pedagógica que vislumbra o exercício da autonomia e da liberdade, é José Pacheco. E o próprio fundador se tornou uma espécie de propagador do trabalho na Maria Peregrina.

“Ele nos visita de tempos em tempos, atestando o nosso desempenho e difundindo nossos resultados país afora”, diz Max Wada.

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