Diário da Região

18/03/2018 - 13h28min / Atualizado 18/03/2018 - 13h28min

CONSULTÓRIO SENTIMENTAL

O Abuso Sexual

Para homens e mulheres mortificados, haverá sempre o "antes" e o "depois" do abuso.

“Karina, passei por uma experiência na minha infância que me deixou marcada. Fui molestada por um homem, amigo de meus pais. Um dia, a pretexto de me ajudar, passou as mãos em meus seios e genitais. Nunca revelei o episódio aos meus familiares, mas a lembrança também nunca passou. Desde então eu me pergunto: como poderia seguir a vida adiante uma pessoa que passa por algo ainda mais grave, como um estupro? O que poderia a psicologia fazer por alguém nessa situação?”

Uma questão que muitas mulheres me fariam, por isso escolhi responder sua carta. Tema complexo que nos remete à perda da confiança primordial, por isso é que se diz que o molestador “rouba a infância”. O abuso cria um hiato entre a realidade e o sentimento de que a vida será boa. Todo terapeuta deveria compreender melhor o abuso sexual, suas consequências e como ajudar a vítima a sair do cenário de sofrimento interno emocional.

Ultrapassar a mágoa e os ressentimentos gerados pelo abuso são inimigos maiores para a sua condição de saúde atual. Voltar a viver sem o sobreaviso do pós- trauma. Se recusar a ouvir as vozes internas que a mantém na culpabilidade e vergonha e se pôr à escuta da voz da verdade, que a conduzirá para a libertação.

Deverá também abandonar as vias sem saídas que pessoas bem intencionadas, mas incompetentes, lhe propõem: negar o abuso ou minimizá-lo para esquecer, para perdoar o culpado sem que este se arrependa seriamente, para virar a página, para parar de reclamar, etc.

Será necessário revisitar o passado, abrir o baú das más lembranças e o terapeuta sabe que cada vez que a pessoa abusada mergulhar no horror do episódio, pagará um elevado preço emocional.

Perceber que houve crime e desculpabilizar-se é de fundamental importância, ainda mais quando o tal abuso acontece na infância. Na projeção dos anos, a falta de ações quanto ao abuso sofrido pode ser uma tortuosa forma de auto culpabilidade e essa compreensão básica, de que o abusado não pode se responsabilizar por seu abuso, se faz indispensável para que não se apresente um desprezo à própria imagem.

O desprezo por si própria pode referir-se ao seu corpo, a sua sexualidade, a sua necessidade de amor, a sua pureza, a sua confiança. Também é possível que, não tendo revelado o abuso e tentando “esquecer” e virar a página, perceber que construiu um equilíbrio fictício, por exemplo, com os seus parentes. Se decidir fazer explodir a verdade, vai desorganizar este equilíbrio e suscitar pressões familiares.

Para homens e mulheres mortificados, haverá sempre o “antes” e o “depois” do abuso, porém é possível que as consequências desse depois sejam cada vez menos aterrorizantes.

Perceber estes dois elementos, o silêncio e a inocência, é frequentemente um momento de verdade e um alívio para a pessoa, que faz o seu segundo passo para a cura quando não se sente mais responsável.

Sartre disse que a vergonha é “a hemorragia da alma”. Um abuso sexual marca a pessoa a ferro e fogo, a suja, a leva a esconder-se dos outros. A vergonha é uma mistura de medo da rejeição das pessoas e revolta contra o ocorrido.

Ainda assim, pode fazer parte de todo o processo de ajuda emocional, perceber que existe um consenso social de reprovação à pessoa que tem a coragem de remexer neste tema que é um grande tabu, mas como disse Claire Poujol “que ela continue como morta viva, não é grave”.

Falar pode não ser a melhor decisão para o equilíbrio familiar mas pode ser o caminho para uma faxina mental necessária para se encontrar em paz com a verdade. Parar de proteger o medo que o fez encobrir o passado. Essas decisões são sempre individuais, não devendo jamais serem aconselhadas, ao invés disso, reforçar sempre que a busca pela própria saúde mental deve ser priorizada em detrimento do interesse de terceiros.

O psi deverá ajudá-la na tarefa de avaliar o preço da luta que deverá efetuar para sair do lamaçal do abuso sexual e realizar o seu desejo de sair do sofrimento.

É necessário, às vezes, tempo para que chegue a exprimir a sua indignação face à injustiça que sofreu. Esta expressão da cólera poderá fazer-se seja de maneira real ou simbólica. Em todos os casos cabe à vítima decidir. A vergonha sentida após um abuso está ligada ao olhar que leva sobre si mesma. É esta concepção sobre si que deverá se alterar, e isto altera a sua maneira de pensar e, consequentemente, viver.

O verdadeiro adversário pode ser a determinação da pessoa em permanecer no sofrimento, a sua morte espiritual e psíquica e a recusa em voltar a viver. O inimigo reside, paradoxalmente, na própria vítima.

Este passo para a cura é sem dúvida o mais difícil de cruzar. A pessoa deve compreender que tem na frente dela a vida e a morte, e que pertence à ela a escolha de permanecer existindo ou viver de fato.

A via que leva ao bem-estar compreende duas etapas: olhar a realidade de frente, e decidir viver.

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