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Diário da Região

01/04/2018 - 00h00min

THE SCHOOL OF LIFE

Sobre amar e odiar em excesso

Não devemos rotular as pessoas em categorias como "do bem" e "do mal"

Divulgação Alain de Botton é um escritor suíço residente em Londres, famoso por popularizar a filosofia e divulgar seu uso na vida cotidiana
Alain de Botton é um escritor suíço residente em Londres, famoso por popularizar a filosofia e divulgar seu uso na vida cotidiana

Tradução: Patrícia Reis Buzzini

Qualquer tentativa de generalização da ideia de maturidade subentende a capacidade de não idealizar nem denegrir outras pessoas. No que tange ao desenvolvimento infantil, a pioneira psicanalista vienense Melanie Klein, em meados do século XX, chamou a atenção para algo muito dramático que acontece na mente dos bebês durante a amamentação. Quando vai tudo bem, o bebê irradia felicidade e entende que tem uma “boa” mãe. Mas se, por algum motivo, ocorrer algum problema, o bebê não consegue compreender que está lidando com a mesma pessoa que amava há apenas algumas horas ou minutos. Por isso, é tomando por uma mistura de ódio e raiva.

Para tolerar essa situação, o bebê cria uma versão “ruim” da mãe real – idealizada como uma pessoa distinta, odiosa e responsável por frustrar, deliberadamente, os seus desejos e, nesse processo, protege a imagem da “boa” mãe. Em geral, há dois tipos de pessoa na mente do bebê, uma completamente boa e outra completamente má.

Aos poucos, quando as coisas voltam ao normal, inicia-se um longo e difícil processo pelo qual a criança começa a integrar essas duas pessoas diferentes e a perceber, de forma triste e realista, que não há uma mãe “perfeita” e ideal - apenas uma pessoa que costuma ser carinhosa, mas que também pode ficar irritada, ocupada, cansada, cometer erros e interessar-se por outras pessoas.

Muitos anos após a fase da amamentação, a tendência de “dividir” as pessoas entre boas e más permanece. Nunca superamos completamente quem fomos na infância. Na vida adulta, podemos sentir uma paixão avassaladora e acabar criando uma versão ideal de alguma pessoa, ignorando suas imperfeições num estado de total adoração.

Além disso, ficamos aborrecidos com nossos parceiros (celebridades ou políticos), cujas qualidades já foram motivo de grande admiração, em face de qualquer desavença ou frustração. Entendemos que não são dignos de consideração por terem nos causado algum tipo de sofrimento - e concluímos que são pessoas perigosas.

É muito difícil aceitar que a mesma pessoa possa ser maravilhosa em alguns aspectos e completamente desagradável em outros. Em geral, a versão ruim tende a desqualificar a boa, embora, na realidade, sejam aspectos diferentes da mesma pessoa.

É um enorme triunfo psicológico aceitar os outros seres humanos com base na desconcertante mistura de características boas e ruins - e enxergar que, diferente do que pensamos nos momentos de fúria, a maioria das pessoas pertence a uma categoria amorfa e incerta que pode ser definida pelo termo “bom o bastante”.

Para lidar melhor com o conflito entre a expectativa e a realidade, nossa cultura deveria ensinar habilidades de integração, que nos ajudem a aceitar as nossas imperfeições de maneira menos traumática - e, por extensão, as imperfeições dos outros. Precisamos compreender que nenhuma pessoa que amamos será capaz de nos satisfazer completamente – e que isso não é motivo para o sofrimento. Devemos evitar a ingenuidade e a crueldade de rotular as pessoas em categorias como “do bem” e “do mal”, integrando-as com maturidade e sabedoria em uma visão mais ampla de pessoas “boas o bastante”.

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