Diário da Região

09/05/2018 - 00h30min

É A VIDA

Era uma vez...a mala mágica da professora Camila

A jovem professora de Palestina conheceu a magia da literatura através do avô, seu Joraci, e dos pais. Como a família foi importante em sua formação como leitora, resolveu envolver os familiares dos pequenos alunos na missão e criou a mala viajante, recheada de histórias. A cada semana, um estudante leva o objeto para casa

Arquivo Pessoal Os livros da mala viajante da professora
Os livros da mala viajante da professora

“Era uma vez uma onça que estava cansada de ser enganada pela raposa. Para conseguir capturá-la, resolveu se fingir de morta. A raposa, no entanto, receosa de chegar perto do corpo da rival, gritou que o sinal verdadeiro da morte, segundo sua avó, era espirrar três vezes. E assim a onça fez. A raposa foi embora rindo.

A onça, porém não se conformava. Havia apenas um lugar nas redondezas onde a água não havia secado, então resolveu ficar à espera da raposa por ali – uma hora ela haveria de aparecer. A raposa passou sede por dias, mas não resistiu. Para enganar a fera, lambuzou-se de mel e rolou nas folhas. Quando a onça perguntou que espécie de bicho era, a raposa respondeu que era “o bicho folharal”. A onça autorizou que entrasse na água para se refrescar. Quando fez isso, o mel se desgrudou, as folhas caíram, revelando a verdadeira identidade do bicho. A onça então foi capturá-la, mas a raposa conseguiu fugir mais uma vez.”

O conto “O Bicho Folharal” data do século XIX. A professora Camila Peres Maciel, de 25 anos, lembra que quando era criança o avô Joraci costumava contar essa história para ela. Ouvindo narrativas dele e dos pais, Camila cresceu como Daniel Sempere, personagem de Carlos Zafon: “no meio de livros, fazendo amigos invisíveis em páginas que se desfaziam em pó cujo cheiro ainda conservo nas mãos".

Por causa de seu amor pela leitura incentivado pelos familiares montou a “Mala Viajante” na escola municipal Aniderci Soares Vieira, em Palestina. “Sempre fui apaixonada por leitura e gostaria de passar isso para meus alunos. Estava pensando em uma forma que eu pudesse despertar neles desde pequenos ter esse gosto”, fala. Camila leciona para pequenos de quatro anos, ainda não alfabetizados.

A docente comenta que seu avô contava grandes histórias, pelas quais era apaixonada. Seu Joraci Peres, 74 anos, era retireiro e vivia no sítio, mas hoje, único avô vivo de Camila, está aposentado e mora em Potirendaba. Os pais, José e Rogislaine, e os professores que deram incentivo durante toda a vida também contaram para a formação como leitora da jovem. "Eu acredito em como é despertar a vontade da criança os pais estarem lendo. Esse convívio afetivo do pai com a criança é outra coisa", considera. "Na minha infância eu tive muito isso e para mim era maravilhoso esse mundo de histórias, de fantasia. A criança já é fantasiosa, então para ela poder ter contato com histórias é muito gratificante."

A ideia então foi integrar os pais dos estudantes nessa missão – assim como aconteceu na vida da própria educadora. No começo do ano, ela montou a mala com gibis, contos de fada, prosas e poemas. “Tem todos os tipos de histórias. Contos normais, contos do folclore brasileiro, Sítio do Pica-Pau Amarelo, que também é importante na literatura.”

Toda sexta-feira, conforme a lista de chamada, um aluno leva para casa a mala onde cabem muitas pessoas e lugares diferentes. Durante o final de semana os pais podem ler para os filhos. A mala é devolvida sempre às segundas-feiras. Os planos são, assim que terminar a lista de chamada, trocar os livros e recomeçar a experiência. "Quero fazer esse projeto durante o ano inteiro para sempre as crianças estarem em contato com coisas novas."

A biblioteca viajante foi montada com livros que Camila tinha em casa e alguns do acerto da escola. Ganhou decoração em EVA. Formada em Pedagogia pela Unilago, a professora tem pós-graduação em arte de contar histórias e alfabetização e letramento. Para ela, a literatura é algo mágico que está presente na vida desde muito cedo. "Sou apaixonada e quero passar isso para outras pessoas, que outras descubram o prazer da leitura. Traz muitos benefícios para a gente, como conhecimento de mundo, aumenta nosso vocabulário e nosso senso crítico e nos faz viajar por belíssimas histórias", acredita.

O sonho de ser professora também surgiu precoce, ainda criança, quando ela brincava de dar aulas, imitando as próprias mestres. "Aos 15 anos comecei a trabalhar de guarda mirim em uma escola e fui me apaixonando cada vez mais. Quando terminei o ensino médio tive certeza, aí ingressei na faculdade de pedagogia", recorda. Passou em um concurso para lecionar a crianças pequenas e uniu a vocação com o trabalho.

"Deu certo. O ensino, a educação para mim é uma das coisas mais importantes que a gente pode ter. Tem uma frase do Nelson Mandela que é muito famosa e eu gosto muito dela que é 'a educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo'", afirma. "Através da educação a gente consegue muitas coisas, muitas conquistas. Forma cidadãos melhores, mais críticos e com mais oportunidade."

Camila é ciente de que muito é preciso avançar na educação brasileira, mas confia no progresso, sobretudo se cada um fizer a sua parte. "A gente não pode desistir." A educadora não confia apenas no poder transformador da literatura, mas de todos os saberes - matemática, filosofia, história, dentre outras. "O ensino vai formar cidadãos melhores."

Tschayenny Motta Frederico Garcia, escriturária de 35 anos, é mãe de Augusto Frederico Garcia, de 4 anos, aluno de Camila que já levou a mala para casa. Ela adorou a inciativa e o filho gostou de ter as histórias contadas pelos pais. "Acredito que a leitura estimula a criatividade, a curiosidade e possibilita a criança explorar a imaginação, além de expandir muito o vocabulário deles." Tschayenny destaca que a mala incentiva a responsabilidade, pois o aluno fica responsável por ela no final de semana, e incentiva o compartilhamento com os amiguinhos. 

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