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Diário da Região

06/03/2018 - 23h13min / Atualizado 20/03/2018 - 19h14min

É A VIDA

Miroslava fugiu da violência do Rio de Janeiro para morar em Rio Preto

Dançarina trabalhou na Globo e tinha carreira sólida no Rio de Janeiro, mas deixou a violência para trás e veio para Rio Preto

Mara Sousa 5/3/2018 Miroslova Rangel Coletti chegou em Rio Preto em 2003 e consolidou-se como professora de dança
Miroslova Rangel Coletti chegou em Rio Preto em 2003 e consolidou-se como professora de dança

Os cabelos loiros compridos e o rosto sempre sorridente de Miroslava Rangel Coletti escondem os 62 anos que tem. Em Rio Preto há pouco mais de 14, veio do Rio de Janeiro fugindo da violência, deixando para trás uma carreira brilhante, retomada no interior de São Paulo. Bailarina desde a barriga da mãe, dona Maria, de 92 anos, dá aulas em escolas particulares e também na Casa de Cultura Dinorath do Valle.

Dona Maria queria que a filha fosse bailarina depois que viu um filme sobre o assunto, ainda grávida. Morava no Rio, mas era de Fortaleza, então foi para o Ceará dar à luz e viver os primeiros meses da criança. Voltou para o Sudeste e Miroslava foi para a escola de balé clássico aos 5 anos. De lá, foi para o Teatro Municipal do Rio de Janeiro. "Lá dentro você conhece outros estilos, a dança espanhola, a dança moderna."

Aos 17 anos, a dançarina viu as portas da Rede Globo se abrirem. Primeiro, ganhava por programa trabalhado. Após um ano, teve a carteira registrada e foi funcionária fixa da emissora entre 1974 e 1987. Na época, a valorização do corpo de balé era grande. "Apesar de ser bailarina clássica, eu gostava de olhar aquilo pela televisão, admirava aquelas bailarinas e todas elas com formação, a maioria do Teatro Municipal. Aquilo me encantou, eu fui aprendendo e ficando. Dançávamos tudo. Foi uma escola como artista."

Na Globo a bailarina participou de pelo menos seis aberturas do Fantástico, do programa Viva o Gordo, apresentado por Jô Soares, de musicais, de programas especiais com artistas e gravações de novelas como Cambalacho, de 1986, em que Edson Celulari vivia um dançarino. "Era muito divertido. Ali você lidava com um monte de gente, várias pessoas que passaram pela Globo, que conheci, então foi muito bacana para mim."

Na segunda metade da década de 1980, Miroslava decidiu diminuir um pouco o ritmo de trabalho para se dedicar aos filhos: Pedro, 37 anos, Bruno, 35, e a caçula Luiza, 30 anos, e pequena na época. A maternidade sempre foi um sonho para ela, mesmo com a vida corrida que a dança exigia. A jovem seguiu os passos da mãe e também é professora de dança em Rio Preto.

Mesmo 30 anos depois do fim do vínculo com a Globo, a rio-pretense de coração diz que não perdeu contato com as meninas da época. "Quando entrei na Globo era a mais novinha. Era um grupo muito unido profissionalmente e cuidavam de mim, tinham carinho. Algumas se foram, estão dançando lá no céu, outras estão aqui comigo, dão aula. As mais jovens estão no Rio dando aula ou participando de algum evento."

Entre a saída da empresa e a vinda para Rio Preto, no fim de 2003, Miroslava não deixou a dança de lado. Integrou o grupo de dança contemporânea Elizabeth Oliosi e atuou como professora na Academia Andrea João, no Rio de Janeiro. 

Em 2002, Miroslava foi assaltada quando saía de um shopping na Barra da Tijuca. Fisicamente, nada aconteceu, mas ela já estava abalada com o falecimento do pai, Nelson, na mesma época. "Emocionalmente me chocou muito. Fiquei com pânico, aquele negócio de não querer sair de casa, com medo. E eu amava vir para cá."

Como o marido, Adilson, com quem é casada há 39 anos, é de Rio Preto, ela já conhecia e adorava a cidade. Buscando vida tranquila em uma casa, o casal veio para o interior. "Aqui eu floresci, aprendi a dirigir, faço minhas coisas sempre sozinha, aprendi a me virar com alegria porque aqui eu gosto demais. Fico muito mais à vontade", diz.

Em Rio Preto, foi professora e coreógrafa do grupo de dança folclórica Amici d'Italia, deu aulas de jazz no Instituto de Artes Bizet e de jazz e balé clássico no Núcleo Santa Cecília. Hoje, leciona na Casa de Cultura Dinorath do Vale e na Escola Maria Peregrina, onde ensina introdução à dança, balé clássico, jazz, sapateado e dança contemporânea.

Em algumas ocasiões, ela ainda visita o Rio, onde moram os dois filhos - a mãe, Maria, mora no mesmo prédio que Miroslava, em Rio Preto. Veio atraída pelo calor da cidade. A dançarina fica triste com a violência que tomou a capital fluminense. "As pessoas estão desmotivadas e apavoradas e quem diria que os cariocas, que sempre amaram a cidade, querem ir embora viver em outro lugar. A violência envolve falta de administração, falta de mais escolas, mais hospitais. Só teve corrupção há muitos e muitos anos", acredita.

Vocação

Miroslava afirma que a dança representa sua vida. "Onde me fortalece a alma, eu me sinto feliz no que eu faço, amo", celebra. Há quatro anos, ela fez sua despedida como bailarina no Teatro Paulo Moura. "Eu dancei muito. Tem um prazo de validade, é tipo jogador de futebol. Foi minha despedida aqui em Rio Preto. Dancei com alunos e foi muito gostoso e tranquilo. A gente tem que saber a hora de parar."

A aposentadoria da arte, no entanto, nem tem data para acontecer, pois ela se identifica como professora. "Ensinando tudo que aprendi. Até sou taxada de muito brava. Falo 'não sou brava, sou exigente' porque foi assim que aprendi. Imagina Tatiana Leskova, Eugenia Feodorova, as russas no meu pé. Você vai aprendendo disciplina, que é muito importante não só na dança, mas na vida, se não a gente não faz nada." Tatiana e Eugenia são bailarinas russa e ucraniana, respectivamente, radicadas no Brasil.

Parar é algo que não passa pela cabeça. "É lógico que a gente vai cansando, mas não quero parar de dar aula não, só quando eu não puder mesmo. Ficar bem velhinha lá sentadinha e falando, bailarino pode dar aula até morrer. Eu danço, eu danço na sala de aula com elas. Que elas ali estão vendo de perto como fazer. Posso diminuir, mas ainda está muito legal, estou muito bem, com muita vontade, com muita garra."

Para a professora, todos os alunos são iguais, dos mais novos até os mais velhos, mesmo que não sigam carreira. Atualmente, ela leciona para 150 adultos. "Quero que todo mundo aprenda a coisa certa de dança. Cada estilo exige as mesmas coisas: disciplina, respeito, humildade."

A dança trouxe ensinamentos além da disciplina. "Na arte em geral, se você não for humilde não consegue nada na vida. Me ensinou muita coisa, a ser alegre, a ser feliz. Os problemas chegam mas 'ah, estou indo para a dança'. E esquece a vida."

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