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Diário da Região

26/03/2018 - 18h14min

Mocinho Íntegro

Thiago Lacerda fala sobre o personagem Darcy de Orgulho e Paixão

Aos 40 anos, o ator Thiago Lacerda mata a saudade de fazer um herói como o Darcy em Orgulho e Paixão e afirma que não se sente um galã

Divulgação/TV Globo Thiago Lacerda divide a cena com Maurício Destri na novela que é livremente inspirada em romances como Razão e Sensibilidade
Thiago Lacerda divide a cena com Maurício Destri na novela que é livremente inspirada em romances como Razão e Sensibilidade

Thiago Lacerda estava sentindo falta de interpretar um mocinho íntegro como o Darcy de 'Orgulho e Paixão'. Na nova novela das 18h da Globo, o ator é o herói da trama de Marcos Bernstein, inspirada nas obras da escritora inglesa Jane Austen. Na história, ele se apaixona por Elisabeta (Nathalia Dill) e terá que driblar as armações de Susana (Alessandra Negrini) e disputar o coração da amada com Ernesto (Rodrigo Simas).

Na entrevista a seguir, Thiago, que completou 40 anos em janeiro último, fala da crise com a nova idade, da identificação entre Darcy e Elisabeta, da vilã Susana e da dificuldade em interpretar o mocinho. Além disso, o ator comenta o que o instigou a voltar a ser o herói de um folhetim e reflete sobre os 20 anos de trabalho, desde que estourou como galã em 'Hilda Furação' (1998).

Seu último trabalho na televisão foi o vilão Ciro, de 'A Lei do Amor' (2016). Como é voltar a ser o mocinho?

Thiago Lacerda - Adoro, nunca escondi isso de ninguém. Tenho um apreço por esses personagens éticos, íntegros. A minha carreira é cheia desses caras, no teatro e na TV especialmente. Fazer o vilão é muito divertido, mas tenho saudade dos heróis. Estou muito feliz de que o Darcy não é mau. Em muitos momentos eu me identifico com ele.

Depois de tantos anos de carreira, qual a dificuldade de fazer o herói?

Lacerda - É muito difícil, especialmente em um folhetim. Numa obra abertamente romântica, os personagens mais difíceis são sempre os mocinhos, como a Elisabeta, o Camilo (Maurício Destri) e o Darcy também, claro. Mas é muito gostoso. Conheço esses caminhos do herói, então, de certa maneira, o meu desafio é passear por essa trilha com frescor, como se não tivesse feito aquilo.

Você acha que o Darcy e a Elisabeta se identificam um com o outro por causa da personalidade que possuem?

Lacerda - Os dois têm um temperamento muito parecido. O Darcy é uma figura um pouco mais dura. A Elisabeta é uma mulher com os conflitos dela, mas que está à frente daquele homem. Acho que ela é uma evolução da espécie dele, mas o meu personagem olha adiante e a enxerga.

Na trama, o Darcy vai para o Vale do Café, mas não pertence àquele ambiente. Isso também gera conflitos na história?

Lacerda - O Darcy é um homem da cidade, do mundo, de negócios. É um industrial inglês, mas também um humanista. Curiosamente, isso é um elemento que promove conflito. Como ser um negociante no auge da industrialização considerando o humano?

Os desencontros entre Darcy e Elisabeta serão arquitetados pela Susana. Como é a relação dele com a vilã?

Lacerda - A Susana está ali quase que como uma titereira, ela que manipula os desencontros do núcleo romântico. A Alessandra está fazendo num tom muito gostoso e surpreendente. A personagem defende os interesses econômicos de um grupo, mas é uma mulher que tem desvios éticos e morais. O caráter dela é estranho e isso faz com que seja um tipo de vilã, mas não gosto muito dessa ideia de dar etiqueta.

O que chamou a sua atenção no Darcy?

Lacerda - O que me pegou nesse personagem foi o conflito dele, essa coisa de pertencimento a uma época, mas o pensamento estar à frente. E a Jane Austen, a obra dela, a importância da discussão do espaço do feminino, e estar com a Nathalia (Dill) de novo. Essa relação dos dois personagens é uma delícia, essa afinidade de personalidades, mas, ao mesmo tempo, a incompatibilidade de encaixar porque são figuras muito parecidas.

Faz 20 anos que a minissérie 'Hilda Furação' foi exibida. Você ainda mantém a essência do Thiago daquela época?

Lacerda - Caramba! Ah, não, 20 anos é muito tempo e a gente vai se transformando. A vida é dinâmica, vamos aprendendo, vivendo coisas, nos modificando. Eu sou diferente do que era duas décadas atrás, ainda bem. Mas, de alguma maneira, sou aquele cara e mais 20 anos em cima. Já tomei muita pancada e agora sou pai.

Como lida com o rótulo de galã?

Lacerda - Nunca me senti assim, você nunca me ouviu dizer que sou um galã, isso não é uma coisa minha. O que vem de fora, eu lido de uma forma natural. Desde que comecei a minha carreira, as pessoas têm uma necessidade de etiquetar. Nosso papel é não se preocupar muito com o que está escrito na nossa etiqueta. Meu trabalho sempre teve foco nos personagens. O que me interessa é contar a história para as pessoas e o meu compromisso é fazer da melhor maneira que puder. Se vão achar que é bonito, feio, alto, baixo, gordo, magro, isso não é uma preocupação que preciso ter.

E teve alguma crise ao completar 40 anos?

Lacerda - Confesso que tenho parado para repensar a minha vida, os meus valores, conceitos, para me perguntar quem de fato sou e quem pretendo continuar sendo pelas próximas quatro décadas. Não é lenda esse papo de crise nos 40, mas não tem nada a ver com estética, com o cabelo que cai ou com o corpo que não é mais o mesmo. Vou jogar bola com os meus amigos e no dia seguinte tenho essa idade e não mais 22. Perceber o tempo passar fisicamente é muito legal. O que pega é muito mais profundo que isso, é olhar para o lado e ver tanta gente, ver minha mulher, meus filhos, amigos, os companheiros de trabalho. Essa crise é intelectual, construtiva, benéfica e muito bem-vinda, mas é difícil. Daqui a pouco passa.

Você tem sentido necessidade de ficar mais tempo com a família?

Lacerda - Isso é uma coisa que a idade vem me trazendo, de me preservar cada vez mais, de ficar quieto. A nossa vida no show business, dessa coisa de figuras públicas e artistas populares que trabalham na televisão, gera um ruído grande. Para quem sou e a maneira como enxergo a vida, tenho sentido a necessidade do silêncio. Esse deve ser, talvez, um caminho mais concreto da vida, de ficar cada vez mais perto, mais sozinho, com meus livros, meus filmes, com os filhos. Acho que é por aí.

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