Diário da Região

03/03/2018 - 00h30min / Atualizado 02/03/2018 - 22h56min

"BABEL" NA SALA DE AULA

Região tem 69 estrangeiros nas escolas

Professores dizem que Estado não prepara escolas para recepcionar estudantes

Mara Sousa 1/3/2018 Boliviana de 12 anos que estuda em escola de Bady Bassitt diz sentir saudades do seu país de origem
Boliviana de 12 anos que estuda em escola de Bady Bassitt diz sentir saudades do seu país de origem

A região de Rio Preto se tornou um destino atraente para imigrantes. Os dados de novembro do Cadastro do Aluno da Secretaria Estadual da Educação, mostra que há 69 alunos de 14 países matriculados nas escolas da rede. Em todo o Estado são 10.298 estrangeiros, número 15% maior do que o registrado em 2016, quando 8.942 imigrantes estavam nas unidades escolares de São Paulo.

A Secretaria Estadual de Educação afirma que os estrangeiros recebem o suporte educacional adequado e que oferece capacitação constante aos docentes. No entanto, a realidade na sala de aula é diferente. Alunos dizem sofrer bullying e têm dificuldade de aprendizagem. Professores e direção de escolas relatam que a dificuldade da língua é o principal obstáculo para a adaptação e aprendizagem dos alunos. Além do que, não haveria capacitação para atender adequadamente esses estrangeiros.

A maioria deles é boliviano. São 14 filhos de imigrantes que estão na região, principalmente para trabalhar em fábricas de roupas. Seguido de japoneses, 12. Vivendo, em sua maioria de forma clandestina, eles se recusaram a dar entrevista e não permitiram que seus filhos aparecessem. Apenas uma mãe, de duas meninas, de 12 e 13 anos, falou com a reportagem.

Uma boliviana, de 31 anos, foi a única que concedeu entrevista. Duas filhas dela, 13 anos e 12 anos, estão no 6° ano do ensino médio. A mulher veio para Bady Bassitt há dois anos para trabalhar em uma fábrica de roupas. A esperança é garantir um futuro melhor para as filhas, que chegaram no Brasil há um ano. "Viemos para buscar um futuro melhor. Aqui tem emprego e lá não tinha. O papai delas foi embora e eu não tinha dinheiro. Passamos até fome. Aqui é melhor."

Tímida, a garota de 12 anos conta que sente saudades de seu país. Indagada sobre o que mais gosta no Brasil, ela diz gostar de ler. E sobre o que não gosta: "Os meninos falam muito palavrão. As meninas não fazem amizade". Ela também revela sofrer com a forma como é tratada pelos colegas. "Se eu pudesse voltava para a Bolívia."

Um menino haitiano, de 13 anos, mora em Rio Preto há três anos e já se sente à vontade. "No começo foi difícil fazer amizade. Hoje tenho amigos, jogo bola e estou aprendendo matemática. Meus professores dizem que eu estou melhor a cada dia". Ele veio com os pais e um irmão bebê, hoje com 3 anos.

 

Clique na imagem para ampliar  (Foto: Reprodução)

A difícil adaptação

A Secretaria Estadual de Educação permitiu que a reportagem fosse somente até uma unidade escolar em que há estrangeiros a escola Professora Áurea de Oliveira, em Bady Bassit. A diretora Silmara Teixeira conta que para que a criança ou o adolescente consiga se comunicar de forma mais efetiva, opta em colocar alunos novos em salas de aulas em que já há um estudante da mesma nacionalidade há mais tempo.

"Quando o aluno chega é feito uma avaliação. A grade curricular deles é muito diferente da nossa. No ensino fundamental, eles focam em ciências naturais, comportamento e quase não têm exatas, o maior problema na aprendizagem deles", disse a diretora.

A dificuldade em se comunicar é presente na instituição que atende 11 bolivianos. A diretora fala espanhol e conta que "eles vêm de diferentes regiões e costumam se comunicar em dialetos, que é mais difícil de entender", diz Silmara.

Uma professora de Rio Preto confirma a dificuldade que há na interação entre os estrangeiros e os alunos brasileiros. Ela, que prefere não ter o nome divulgado, contou o caso de um aluno boliviano de 15 anos que, no ano passado, não se adaptou e deixou a escola. "Ele só repetia 'yo no entiendo'". Agora estamos com duas irmãs que aos poucos têm se soltado. Nos primeiros dias de aula, elas sentavam no fundo da sala e não falavam nem quando eu tentava, elas não respondiam".

Estado se omite

Questionada sobre as dificuldades que os estudantes enfrentam para se adaptar e para se comunicar com os professores, a assessoria de imprensa da Secretaria Estadual de Educação não se manifestou. A pasta queria saber de quais escolas havia a denúncia dos professores.

Em um texto de divulgação sobre o acolhimento e número de estudantes estrangeiros na rede, a secretaria informa que "para que a dificuldade da língua e dos costumes sejam minimizados, crianças e jovens são incentivados a participar de eventos culturais e pedagógicos. Já os inscritos na EJA (Educação de Jovens e Adultos) recebem, além da alfabetização em português, ferramentas para a inserção no mercado de trabalho".

A nota diz ainda que a Secretaria Estadual oferta capacitação constante aos docentes e publicou documento orientador para acolhimento dos estudantes da rede estadual. "Além disso, as Diretorias Regionais de Ensino também ofertam suporte técnico e pedagógico às unidades escolares, cursos, seminários, palestras, entre outras modalidades de formação continuada".

Interação é fundamental

Para a psicopedagoga Larissa Fonseca, é importante que a escola acolha as demandas do grupo e as individuais. "Sempre que a gente recebe alguma criança nova na escola, independente da idade, é importante familiarizar o grupo com esse novo aluno que vai chegar. "Fazer uma pesquisa prévia do local de origem dessa criança, qual a língua é falada, procurar na escola alguém que saiba essa língua facilita a interação."

Ela acrescenta que "aos professores seria indicado conhecer essa família e estabelecer alternativas para facilitar a comunicação criar cantos na sala sobre o país de origem para que a criança perceba que a cultura dela está sendo preservada."

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