X

Diário da Região

24/03/2018 - 17h59min

EXPEDIÇÃO RIO PRETO

Dois rios, unidos por belezas e ameaças

O rio Preto está umbilicalmente ligado ao Turvo; quando as águas de ambos se encontram, em Pontes Gestal, une-se a força de dois mananciais a cumprir o papel de gerar vida a cada curva

Johnny Torres 20/3/2018 Cachoeira de São Roberto, em Pontes Gestal, a 5 quilômetros da foz, convida à contemplação e a momentos de lazer
Cachoeira de São Roberto, em Pontes Gestal, a 5 quilômetros da foz, convida à contemplação e a momentos de lazer

Diz Pessoa, na figura de Alberto Caeiro: "Ninguém nunca pensou no que há para além/Do rio da minha aldeia/O rio da minha aldeia não faz pensar em nada/Quem está ao pé dele está só ao pé dele". Para o poeta, o rio nunca é apenas um rio, é uma ponte pras coisas visíveis e pras coisas intangíveis também. E quem está ao pé do rio Preto, só está ao pé do rio Preto, talvez não imagine o quanto ele carrega de vida para além da maior cidade que atravessa.

Da mesma forma que talvez não paremos pra pensar o quanto o rio Preto está umbilicalmente ligado ao Turvo. Quando as águas de ambos se encontram, em Pontes Gestal, une-se a força de dois mananciais a cumprir o papel de gerar vida a cada curva e a cada cidade que banham, a despeito das seguidas agressões que sofrem ao longo de seus cursos.

O que une os dois, além do fato de o rio Preto ser afluente do Turvo, é exatamente as permanentes ameaças ambientais que pesam sobre eles.

Talvez o episódio mais emblemático seja o risco que duas de suas maiores belezas correram de literalmente desaparecer do mapa. As cachoeiras do Talhadão e de São Roberto, localizadas no Turvo e no Preto, respectivamente, teriam desaparecido se o projeto de duas Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) tivesse sido autorizado, em episódio polêmico que opôs ambientalistas e a direção da construtora Encalso seis anos atrás.

A ideia da empresa com a obra era gerar 12 megawatts de eletricidade na PCH do Talhadão e 16 megawatts na de São Roberto. No total, seriam atingidos cerca de 384,7 hectares de área, o que a Cetesb considerou "incompatível com as ações voltadas para a conservação da fauna e da flora". Além do impacto ambiental, o órgão ambiental estadual levou em consideração as características históricas e paisagísticas da região do Talhadão, que segundo estudos pode abrigar sítios arqueológicos que seriam inundados com a criação dos reservatórios.

"Estes rios, Preto e Turvo, são fundamentais para a nossa região sob vários aspectos, desde o econômico ao ambiental propriamente dito. Me entristece em ver que em pleno século XXI temos ainda desafios que já deveriam ter sido há muito superados para preservação de nossos rios, matas, flora e fauna. Para mim, o principal deles ainda é a falta de educação ambiental de todos. Fico feliz em ver que nossas crianças já estão vindo com uma nova mentalidade com relação ao meio ambiente", afirma a advogada e presidente da Amertp (Associação de Defesa do Meio Ambiente dos Rios Turvo e Preto e da Cachoeira do Talhadão), Gisele Paschoeto, uma das líderes do movimento contrário à instalação das hidrelétricas.

Graças à mobilização preservou-se a famosa queda d'água, na zona rural de Duplo Céu, distrito de Palestina. O Talhadão que a Expedição Rio Preto encontrou para esta série de reportagens especiais encontra-se como sempre, imponente, com suas águas encachoeiradas, a correrem por sobre pedras em paisagem singular.

O destaque negativo vai para a poluição deixada pelos frequentadores. Restos de comida e muitas embalagens plásticas deixadas em locais de parada ou até acampamento contrastam com as belezas naturais do lugar.

"O homem ainda desmata, comprometendo as nascentes, polui os rios e matas deixando o lixo que produz, principalmente plásticos. Enquanto o poder público não colocar como uma das metas prioritárias de atuação a preservação ambiental continuaremos tendo e vendo tanta destruição", avalia a ambientalista.

análise

Como (não) jogar dinheiro fora

Li e reli a matéria de capa do Diário da Região de 23/02/2018 sob o título "A prévia milionária de um sonho bilionário". Surpreendi-me com declarações do Semae, que afirma possuir outorga para captação de água no Rio Grande e a afirmação do senhor prefeito que diz tratar-se de projeto inicial. O tema deve ser analisado sob a ótica do licenciamento ambiental como determina a lei e seguindo duas diretrizes principais: a elaboração do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) e ser discutido em audiência pública com as comunidades envolvidas: Fronteira/MG, Icem, Nova Granada, Onda Verde e São José do Rio Preto.

A responsabilidade da outorga caberá ao Ibama, por se tratar de rio federal, ouvindo-se a Agência Nacional de águas pois a represa da UH de Marimbondo é uma represa de regulação entre as UsHs de Colômbia e de Água Vermelha. O sistema de abastecimento da cidade utiliza-se de águas superficiais (28%), aguas dos Aquíferos Bauru (42%) e Guarani (30%), números que são variáveis dependendo da época do ano.

As perdas, segundo o Plano Municipal e Água e Esgoto foi de 42,84%, ano de referência em 2013. Sem mais delongas o PMAE que estudou as possibilidades de captação de água nos rios Grande, Turvo e aquíferos diz em suas Conclusões e Sugestões: ... que em qualquer caso, é mais importante investir em redução do índice de perdas do que reduzir o horizonte de planejamento. Evidentemente, a redução do índice de perdas representa investimento e despesas de custeio que deveriam ser colocados na análise, e que por isso poderiam até inverter a conclusão ora externada; ocorre, porém, que a redução das perdas não pode ser considerada nesta análise como custo, uma vez que não se trata de benefício, mas de inquestionável obrigação das concessionárias, visando a eliminação de qualquer tipo de desperdício.(sic)".

Em outro ponto afirma o relatório que "não houve disciplina na expansão urbana" o que levou e se perder cerca da metade das nascentes do município.

Tese defendida no Instituto de Geociências/USP sob o título "Subsídio para o manejo do Sistema Aquífero Guarani em S.J. do Rio Preto" (2015) conclui que a extração de 68.700 m3/dia poderá ser mantido por mais de 500 anos e multiplicando-se a explotação por 5 vezes o aquífero tem água por mais 100 anos.

Portanto, trata-se de um enorme equívoco buscar água longe, a preços que não se sabe (mas que o consumidor pagará por ela seja qual for), para despejá-la em rede furada, obstruída e envelhecida. Um segundo ponto é proteger os mananciais para que não percamos as nascentes remanescentes e, por fim realizar um trabalho permanente de educação ambiental para o uso racional da água. Não se trata de ser contrário ou a favor do projeto neste momento, mas de ser racional no uso do recurso público e não jogar dinheiro fora. Ao Semae cabe responder com seriedade o título deste artigo.

Arif Cais, biólogo e professor voluntário na Unesp/Ibilce

 

A busca pela foz, uma grata descoberta

Da nascente mais distante do rio Preto, entre Cedral e Potirendaba, até a sua foz, entre Pontes Gestal e Riolândia, são 120 quilômetros. Para a equipe do Diário, percorrer toda esta extensão atenta aos detalhes foi ao mesmo tempo um desafio e oportunidade para gratas surpresas pelo caminho.

Desafio, por exemplo, para acessar alguns pontos da margem. Os caminhos, obviamente, não são sinalizados. Em geral, estradas de terra e até carreadores que rasgam as plantações (canaviais, principalmente) são o primeiro obstáculo. Depois, existem as cercas e alguns lugares alagados que exigem muito cuidado.

Surpresa, por exemplo, ao encontrar poluição ainda em zona rural, próximo da nascente. Um contraste que chama atenção: sujeira de um lado, espetáculo de plantas e aves de outro.

Surpresa maior ainda foi poder encontrar a foz do rio Preto - ponto em que ele se encontra com as águas do Turvo - ainda bem preservada.

Na fazenda Pontal da Tijuca, onde se localiza a foz, placas pelo caminho nas margens deixam muito claro. Aquela é "uma reserva particular de preservação ambiental", onde a caça e a pesca são proibidas.

E entre desafios e surpresas, um susto pra nossa equipe quando um dos integrantes, o cinegrafista Marco Aurélio, desequilibrou-se do barranco e caiu nas águas da foz. Um tremendo susto, superado com algumas escoriações e equipamento encharcado.

Refeita do susto, a equipe pôde contemplar a beleza da água a cumprir seu destino. Naquele ponto, o Turvo segue adiante para também desempenhar seu papel de afluente.

Belo e estratégico

O Turvo é um afluente da margem esquerda do rio Grande, localizado inteiramente no Estado de São Paulo. Nasce em Monte Alto e percorre 267 quilômetros até o seu desague, em Cardoso, divisa com Minas Gerais.

"No Noroeste paulista, região onde o rio se localiza, predominam, do ponto de vista hidrográfico, grandes reservatórios artificiais oriundos de barragens de usinas hidrelétricas situadas nos rios Grande e Paraná. Devido às profundas alterações ambientais causadas por essas hidrelétricas, o Turvo passou a ser um dos rios mais importantes da região. Por ser um dos maiores cursos d'água livres de barramentos, desempenha um importante papel na conservação da ictiofauna", analisa o biólogo Joaquim Maia Neto, consultor legislativo do Senado e ex-chefe do escritório regional da Cetesb em Barretos.

A saga das águas para cumprir seu papel

A região por onde o Preto e o Turvo correm é uma área predominantemente agrícola. É o lar de aproximadamente 30 indústrias sucroalcooleiras, que juntas foram responsáveis por produzir próximo de 24 bilhões de litros de etanol apenas em 2017. As plantações de cana ocupam mais de 20% da área da bacia hidrográfica Turvo/Grande. Além disso, um parque industrial envolvendo outros setores, como alimentos, móveis, joalheria, metais e couro, está atualmente em expansão e inclui mais de 4 mil unidades.

É este cenário adverso que os dois atravessam. O rio Preto, depois de passar pela cidade que leva o seu nome, já com 30 quilômetros de extensão, avança no formato de um pequeno ribeirão. Seguindo rumo ao norte, passa por Onda Verde e então vira-se para noroeste novamente, cruza Ipiguá, aumentando para 50 quilômetros de extensão. Quando está quase saindo da cidade, recebe as águas de seu primeiro grande afluente, o ribeirão Barra Grande. Passa agora por Mirassolândia, onde recebe as águas do Macaubinha.

Em seu curso final mais à frente, em Américo de Campos, recebe a confluência de seu maior afluente, o ribeirão da Piedade. Sai da influência urbana e chega ao seu destino, Pontes Gestal. Lá ele recebe as águas do córrego Botelho, seu último afluente, e segue rumo a nordeste, passando pela cachoeira de São Roberto, este um ponto muito especial em nossa expedição.

A cachoeira de São Roberto é onde o rio Preto, em forma de corredeira, propicia momentos ideias de contemplação. O acesso é urbanizado, uma vez que um centro de lazer foi criado pelo poder público de Pontes Gestal em 1982. Dispõe de quiosques, lanchonete e estrutura suficiente para bons momentos de descontração.

A pesca é terminantemente proibida ali, mas há espaço de sobra para caminhadas às margens do Preto ou até mesmo, para quem curte uma adrenalina, descer de bote pelas corredeiras na prática conhecida como rafting. De São Roberto até a foz do rio Preto são apenas alguns poucos quilômetros.

Aviso: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Diário da Região. É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O Diário da Região poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.

Di´rio Im&ocute;veis

Di´rio Motors

Esqueci minha senha
Informe o e-mail utilizado por você para recuperar sua senha no Diário da Região.

Já sou assinante

Para continuar lendo esta matéria,
faça seu login de acesso:

É assinante mas ainda não possui senha? Clique Aqui!
É assinante mais quer redefinir sua senha? Clique Aqui!

Assine o Diário da Região Digital

Para continuar lendo, faça uma assinatura do Diário da Região e tenha acesso completo ao conteúdo.

Assine agora

Pacote Digital por apenas R$ 16,90 por mês.
OUTROS PACOTES


ou ligue para os telefones: (17) 2139 2010 / 2139 2020

Cadastro Grátis
Diário da Região
Clique no botão ao lado e agilize seu cadastro importando seus dados básicos do facebook
Sexo
Defina seus dados de acesso