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Diário da Região

22/02/2018 - 00h30min / Atualizado 21/02/2018 - 20h22min

Painel de Ideias

Três anúncios para um crime

O filme é um incessante abrir-se as janelas para atitudes que, no fundo, sugerem que somos também equívocos, frágeis, indelicados, quiçá perversos e intoxicados pelas sequelas da inutilidade e o fracasso

Divulgação Romildo SantAnna | rsromildosantanna@gmail.com
Romildo SantAnna | [email protected]

'Três Anúncios para um Crime' (2017), de Martin McDonagh, é um dos azarões na festa do Oscar. Porém reúne atributos estéticos dos filmes que devem ser vistos, revistos e guardados. Em vez dos temas virtuosos, das espetaculares sagas escapistas ou do namoro conveniente com modismos (sexismo, racismo, feminismo e outros ismos), a câmera capta o populacho duma vila remota, uma "cidadezinha qualquer". Parece levar à risca a frase de Leon Tolstói: "Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia".

Na pequena Ebbing, todos os moradores se conhecem e se nivelam na rivalidade e fuxicos camuflados. A solidariedade, sentimento de justiça e compaixão só afloram como espírito de corpo e os desvios dos costumes são coletivamente reprovados. Mas a narrativa se acerca da alma de alguns habitantes e os revela como pessoas. Para tanto, conta com diálogos em que cada palavra é artisticamente precisa, a fotografia enfatiza os vazios do isolamento e as sonoridades desenham estados interiores sem clichês. Os atores vão ao clímax do desempenho em cinema.

Na conjunção de personagens ambíguos está a empatia do filme com o público. Com o humor pungente das tragicomédias, reconhecemos neles retratos sutis de nós mesmos. E ficamos face a face com a contingência divertidamente melancólica de constatarmos que "de perto, ninguém é normal". O filme é um incessante abrir-se as janelas para atitudes que, no fundo, sugerem que somos também equívocos, frágeis, indelicados, quiçá perversos e intoxicados pelas sequelas da inutilidade e o fracasso.

Parece que questões incômodas permeiam a elaboração da obra. Como e de que maneira aflora a bondade? Ou a maldade é uma rasura inelutável da condição humana? Uma criança, com sua aura de inocência e encanto, seria naturalmente boa? Talvez não. Em geral, é egoísta, possessiva, invejosa, escravista, reúne as "desqualidades" que a família, a educação, o receio do além e o denodo pessoal as moldam para o bem. Quando adultas, se são inescrupulosas, parasitas e ingratas, eis um retardo do caráter, a felicidade em decaída. No filme, um a um, todos são infelizes, patéticos.

E o crime cometido? Uma mãe enlutada põe em outdoors à margem duma rodovia erma, imune aos de fora: "Sr. Delegado", "Minha filha foi violentada e morta", "Cadê o culpado?". A cidade se indispõe com ela porque o zeloso policial está com câncer. Como num novelo com a ponta voltada para dentro, o subxerife, obtuso e valente, vê mais delito na afronta à autoridade que no ato do estupro. A mãe, malquerida pela filha, obstina-se pela vingança; o pai se entretém com uma jovem namorada; os demais pactuam com a aceitação fatalista. São os feitiços do destino.

Spoiler? O filme termina em reticências, aberto às interpretações. Consternações agudas saltam das entrelinhas, no instante próximo de cada cena.

 

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