Diário da Região

16/02/2018 - 00h30min / Atualizado 15/02/2018 - 19h19min

Painel de Ideias

Omertà

De fato, para ingressar em uma das máfias italianas, como a Cosa Nostra na Sicília ou a Camorra em Nápoles, é preciso ser bravo. Seus integrantes devem jurar jamais revelar seus segredos. Para eles, o silêncio é fundamental

Divulgação Sérgio Clementino | sergio.clementino@uol.com.br
Sérgio Clementino | sergio.clementino@uol.com.br

Surgiu na Idade Média, no sul da Itália, uma organização que tinha por objetivo proteger seus integrantes, pequenos camponeses. Com o tempo cresceu e desvirtuou-se. A ideia de fortalecimento virou expansão a qualquer custo. Cobrava-se pela proteção. Quem não pagasse tinha o gado e a plantação depredados. O objetivo de proteção fomentou eliminação dos rivais. Não tardou para que se transformasse em organização criminosa. Somente no século XIX que ela ganhou o nome pelo qual até hoje é conhecida: máfia.

"Máfia" vem do siciliano "mafiusu", com o sentido de bravo, valente, viril. De fato para ingressar em uma das máfias italianas, como a Cosa Nostra na Sicília ou a Camorra em Nápoles, é preciso ser bravo. Seus integrantes devem jurar jamais revelar seus segredos. Para eles, o silêncio é fundamental. Seja resistindo ao cair em mãos inimigas, seja jamais prestando informações às autoridades, todo mafioso obedece a um código de honra: a "omertà".

Não há mafioso sem "omertà". Mas não só máfias valorizam o silêncio como prova de honra. Na criminalidade em geral é bastante difundida a regra pela qual dedurar o outro é ofensa gravíssima. Nos presídios, o X-9 ou cagueta raramente é poupado. Seus castigos só perdem para os dos estupradores.

Mesmo na sociedade em geral há uma "omertà" mais ou menos difundida, uma recriminação em entregar o outro. Crianças aprendem desde cedo a "não ser dedo duro", em uma inversão de valores que privilegia a conivência em detrimento da verdade. Ser fiel a esse silêncio, ainda que protegendo um erro, é tido por muitos como "ser homem", não por acaso um dos significados para a palavra "omertà".

No Brasil, com baixa formação educacional e dificuldade crônica em cumprir regras, isso é particularmente significativo. Uma das consequências é a dificuldade na apuração de ilícitos complexos, em especial aqueles cometidos por organizações criminosas. Não é raro investigações emperrarem por falta de informações de qualidade.

Nos últimos tempos, porém, uma ferramenta legal vem conseguindo quebrar essa "omertà", permitindo o avanço de grandes investigações e a punição de detentores de poder econômico ou político: a delação premiada.

Ela existe no Brasil desde 1990, mas só ganhou força em 2013, quando foi melhor regulada. Tornou-se conhecida do público com a Lava-Jato. Sem ela jamais haveria uma investigação de tal porte. Só a delação possibilita conhecer por dentro organizações criminosas e seu detalhado funcionamento. Por isso, ainda gera resistência, principalmente entre criminosos e apoiadores. Delatores são tratados como fracos. Marcelo Odebrecht resistiu por muito tempo a fazer delação, segundo ele "por princípios". Palocci tornou-se um traidor para seus antigos companheiros.

Não é de se estranhar que vozes se levantem contra a delação. Mas é fácil perceber que essa crítica acaba, mais cedo ou mais tarde, transformando-se em verdadeira defesa da "omertà".

 

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