Diário da Região

11/02/2018 - 00h30min / Atualizado 10/02/2018 - 17h08min

Painel de Ideias

Time do pé rachado

Quando, enfim, tudo se acalmou, o juiz entrou em campo e apitou para o jogo recomeçar. Foi aí que perceberam que faltava a única bola que o dinheiro deu pra comprar. Essa nunca foi encontrada. A partida teve que ser cancelada

Divulgação Jocelino Soares | jocelino@jocelinosoares.com.br
Jocelino Soares | [email protected]

Sinto-me um peixe fora d'água quando numa roda de amigos a conversa pende para o futebol. Não torço por nenhum time, e só conheço jogadores os mais famosos. Consigo "malemá" torcer a cada quatro anos para a seleção brasileira. Odiava quando era escalado para trabalhar nos campos do América ou do Rio Preto como policial militar. Mas nem sempre foi assim. Meu primeiro time do coração foi o São José Futebol Clube. Fui testemunha do seu nascimento, da sua glória e tempos depois da sua extinção. Estou falando do time da fazenda em que eu morava e como ele ganhou o incômodo apelido que dá título a essa crônica.

Em frente à colônia, uma imensa invernada foi preparada para o plantio de milho. Assim que terminou a colheita do cereal, os moradores se reuniram e, de posse de enxadão, enxada e demais equipamentos, as touceiras foram arrancadas e o terreno aplainado. Em poucos dias, o sonho de ter um campo medindo 120 por 90 metros estava concluído, inclusive, com traves de troncos de eucaliptos fincadas em cada extremo do quadrante.

Jogos de tômbola e rifas foram feitas com intenção de arrecadar dinheiro para comprar uniformes e uma bola de capotão para o time que ora nascia. De posse do dinheiro, num sábado pela manhã, a diretoria veio em peso pra cidade e o melhor preço que encontraram foi na Casa Gaúcha, dos Irmãos Buzzini.

Campo pronto, uniforme comprado, faltava agora convidar um time para a grande estreia. Um dos jogadores tinha um parente que morava em Rio Preto. Feito contato, o jogo seria com o time do Morro Pelado - Parque Celeste. No domingo pela manhã, um mutirão foi montado para retirar do campo bostas de vacas, afinal, ali ainda era pasto.

Os jogadores estavam nervosos e as torcidas dos dois times, ansiosas. Aguardavam em pé, nas laterais do campo, o jogo começar. As mocinhas se prepararam para o grande evento. Usavam vestidos de dia santo, passaram pó de arroz e para se protegerem do sol escaldante, cada uma portava sombrinha multicolorida, que davam toque especial ao ambiente. Uma barraquinha feita de bambus foi erguida para vender bebidas alcoólicas, doces e salgadinhos.

Todo esquadrão tinha que ter o primeiro e segundo time. O segundo era composto de jogadores que não jogavam tão bem quanto os do primeiro. Por isso, eram eles que faziam a abertura, jogando antes. E, depois dos 90 minutos, as estrelas entravam em campo.

Torcedores de ambos os lados se excederam nos conhaques, cachaças e demais bebidas alcoólicas bem antes de o jogo principal começar. Sol quente e cachaça não combinam. Em dado momento, um torcedor visitante tentou humilhar o time da casa quando viu alguns jogadores sem chuteiras. Gritou em alto e bom som: "Óia o time do pé rachado!". Foi o quanto bastou para ferir o orgulho de alguns caboclos. Tião Preto sacou de uma garrucha e deu tiros para o alto. Pronto. A confusão estava armada. Foi gente correndo pra todo lado. Gente escondendo atrás das moitas de capim margoso. Roupas foram rasgadas nas cercas de arame farpado. Algum tempo se passou para que voltasse ao normal. Quando, enfim, tudo se acalmou, o juiz entrou em campo e apitou para o jogo recomeçar. Foi aí que perceberam que faltava a única bola que o dinheiro deu pra comprar. Essa nunca foi encontrada. A partida teve que ser cancelada. Depois daquele dia, o São José Futebol Clube ficou conhecido como o time do pé rachado.

 

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