Diário da Região

09/02/2018 - 00h30min / Atualizado 08/02/2018 - 19h08min

Painel de Ideias

Confissões de uma madrugada cansativa

Por volta das três da manhã, meus olhos pareciam cheios de areia. Uma dorzinha latejava atrás da nuca. Queria descansar. No dia seguinte, feriado, receberia visitas, bem cedinho. Começava a queimação no estômago

Divulgação Evandro Pelarin | epelarin@gmail.com
Evandro Pelarin | [email protected]

Madrugada em Fernandópolis. Policiais e conselheiros, como sempre, dispostos e encorajados. Chega a Kombi do Conselho Tutelar. Retorna do shopping cheia de meninos e meninas, alguns, aparentemente, de classe média. Algumas meninas chorando, assustadas.

De repente, entra um pai a falar alto, a esbravejar, com alguns impropérios. Nada ouve e não se acalma. Um policial militar apronta-se para algemá-lo. Mas a situação foi contornada, com muita paciência. A sós, numa sala, o pai se desculpa. Acreditamos em sua sinceridade. Pedimos para levar a filha para casa. No caminho, diz que a ama muito e não vai deixá-la novamente sozinha, altas horas da noite.

Situações assim são difíceis. Prepondera o desejo de autorizar a força policial contra quem tumultua e compromete o trabalho. Porém, devemos dialogar, insistentemente. Assim fizemos. Tocamos adiante.

Ao celular, diante do prédio, dentro de um carro de luxo, ouve-se uma mãe dizer: 'Isto aqui é palhaçada', em tom de deboche. Como se a lei não pudesse alcançar determinadas pessoas. Mas, nos carros da polícia e do conselho tutelar não existem bancos cativos para esta ou para aquela classe social.

Aí, confesso, bateu saudade de casa, do meu sossego. 'Ninguém merece!', como diz a meninada, ouvir, às duas da madrugada, pessoas que acham que tem imunidade em razão de sua posição social.

Algumas meninas de 12 anos, à primeira vista, pareciam ter 10. Surpreendidas com rapazes de 20 e outro de 17 anos. Riam todos eles, num misto de aparente indiferença e medo, em meio a gírias: 'fita', 'mano' e por aí vai. Explicamos aos marmanjos que, para o código penal brasileiro, caso passassem a mão nos seios das meninas já seria suficiente para reclusão.

Por volta das três da manhã, meus olhos pareciam cheios de areia. Uma dorzinha latejava atrás da nuca. Queria descansar. No dia seguinte, feriado, receberia visitas, bem cedinho. Começava a queimação no estômago. Também, depois de tanto café.

Faltavam três meninos. Um deles, 11 anos. Para a lei, uma criança. Ele foi recolhido depois das duas da madrugada. Todo sujo. Shortinho caindo pelas pernas. Olhinhos esbugalhados. Segundo os policiais, um 'aviãozinho' de traficantes. Fazia ponto na esquina da rodoviária. Tivemos que elaborar a papelada, conduzir aos familiares, etc.

Lembrei do capitão Nascimento, do Tropa de Elite. Quantas crianças ainda terão que morrer ou se viciar para que um playboy fume seu baseado ou cheire sua cocaína?

Todos se despendem. Hora de voltar para casa. Que ansiedade. Vamos descansar.

Cheguei. Banho. Escovação dos dentes. Deitei. Depois de uma pequena oração por aquelas crianças e adolescentes encontrados naquela noite, veio-me à mente a determinação, o espírito público e o tratamento igualitário dos policiais e dos conselheiros tutelares. Um pouquinho antes de apagar, um rápido pensamento: por este pessoal aí vale muito lutar. Ainda que fosse por qualquer outra luta. Eles são companheiros de verdade. Eles me motivam e zzzzzz.

 

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