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Painel de Ideias

Um F para fake

Monalisa rompe a "quarta parede" e nos espiona de dentro do quadro como se nós é que fôramos uma invenção de Da Vinci. E Brás Cubas da literatura é um defunto a narrar futricas deste mundo


    • São José do Rio Preto
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O fenômeno 'fake news' concerne à divulgação de boatos e notícias falsas capazes de interferir nas relações pessoais, corporativas e, sobretudo, sociopolíticas. Pressupõe o poder multiplicativo das redes sociais. Como não se submete às leis tradicionais da propaganda, participa das estratégias do marketing eleitoral-partidário. No caso, conspira contra a liberdade do voto ao incutir desconfiança ou entusiasmo no eleitor. Em geral se baseia em premissa bem antiga: a mentira muitas vezes repetida assume ares de verdade.

Detenho-me num velho dilema: o falso e o verdadeiro. Que é a verdade? - perguntou Pilatos quiçá a si mesmo. Submeteu sua incerteza ao plebiscito. O suplício e morte de Jesus foi a drástica resposta. Assim, verdade é um consenso passageiro entre o que parece ser verdade e as coisas-mesmas do mundo. Aristóteles foi taxativo: "Afirmar o que é e negar o que não é, é verdade" (Metafísica). Porém, o que é, senão os significados que damos às coisas? A questão pôs Fernando Pessoa em recaída pessimista: "Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?" (Tabacaria). Ó, graveto ardiloso como um F para fake!

Dom Quixote real e plausível é ficção da ficção, pois nasceu de outros livros num berço de palavras. Monalisa rompe a "quarta parede" e nos espiona de dentro do quadro como se nós é que fôramos uma invenção de Da Vinci. E Brás Cubas da literatura é um defunto a narrar futricas deste mundo. Beliscando-me, sinto que sou de verdade; tais criaturas, imagino, são também de verdade. Então, que é falso ou verdadeiro? No entanto, as 'fake news' se esparramam, sorrateiras, a alterar os rumos da história.

O filme 'O Melhor Lance' (2013), de Giuseppe Tornatore (de Cinema Paradiso), fala dum solitário leiloeiro de arte, especialista em distinguir pinturas autênticas e falsificadas. Possui uma esplêndida coleção de retratos femininos. Contempla-os como se fossem suas amadas platônicas. Porém, conhece uma jovem, apaixona-se e a convida para viver consigo. Um dia, encontra a casa em pandarecos: seus quadros de mulheres foram furtados. Nem por instinto percebera que a namorada real em sua vida era uma falsificação.

Orson Welles era um mago das verdades ilusórias no cinema. Em 1938, inspirado no romance 'A Guerra dos Mundos', de H. G. Wells, realizou um programa radiofônico sobre a invasão de alienígenas nos Estados Unidos. Tão realista, algumas cidades entraram em pânico. Seu último filme, 'F for Fake' (1973), é um documentário em que ele volta a câmera para si mesmo. Começa fazendo um número de magia para uma criança. Após nos revela que o tema de sua obra são as fraudes e trapaças. A engenhosa montagem de fatos reais e fictícios põe em prática a tese do próprio filme: o abismo entre o falso e o verdadeiro.

À beira desse abismo, distinto leitor, com sua vênia, também vou lavar as mãos.