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Editorial

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    • São José do Rio Preto
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Com apenas 13 meses de mandato, vereadores de Rio Preto já se articulam de olho na eleição para deputado, em outubro deste ano. Reportagem publicada pelo Diário na edição de ontem mostrou que pelo menos três deles têm essa expectativa, enquanto outra parte negocia apoio a deputados, federais e estaduais, que tentarão a reeleição. Costuma-se dizer que o ano, de trabalho mesmo, só começa depois do carnaval. Para certos vereadores, começa é a campanha eleitoral que, a rigor, nunca termina.

É natural e legítimo que tentem galgar novos espaços na carreira política, e isso se faz disputando eleições ou participando ativamente de campanhas eleitorais em defesa de um candidato e uma ideologia. Em circunstâncias normais, quando guiada por causas nobres, essa mobilização pode até se transformar em benefício à sociedade. Entretanto, seria muita ingenuidade acreditar que sejam movidos só pelo interesse público, embora se deva reconhecer as sempre honrosas exceções. O que está em jogo de verdade, em primeiro lugar, é a sobrevivência política.

Sem uso de eufemismos, pode-se dizer que comete uma espécie de traição ao eleitorado o vereador que decide disputar outra eleição sem cumprir o mandato, e isso vale também para prefeito, deputado, senador e governador. O mesmo raciocínio vale em relação aos eleitos que se licenciam para assumir secretarias e ministérios. A desfaçatez é tão imensa que permite bizarrices como a do ano passado, quando o presidente Michel Temer exonerou uma dezena de ministros apenas para que reassumissem seus mandatos na Câmara temporariamente e o ajudassem a se salvar da denúncia de corrupção passiva movida pela Procuradoria-Geral da República.

A possibilidade de se nomear integrantes do Legislativo para cargos no Executivo leva ao sistema de cooptação entre os poderes, que deveriam ser independentes. Permite ao governante de plantão manipular a formação do parlamento, redefinir bases, influenciar de diferentes maneiras, sempre lançando mão do conhecido toma lá dá cá. Faz parte do jogo político e do folclore nacional. Trata-se da política como um fim em si mesmo.

Uma boa iniciativa seria determinar que o político, para assumir outro cargo, renunciasse ao mandato. Mudar essa realidade é muito difícil numa classe acostumada a legislar impunemente em causa própria. Pelo menos existe um consolo: cabe ao povo, soberano na hora do voto, decidir se quer manter gente assim no poder.