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LAÇOS COM A REGIÃO

PF prende 13 em operação contra seita

Líderes são investigados por tomar bens e escravizar fiéis


    • São José do Rio Preto
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A Operação Canaã - A Colheita Final prendeu 13 pessoas até esta quarta-feira, 7. A ação foi deflagrada na terça-feira para fiscalizar propriedades rurais e estabelecimentos comerciais ligados à Igreja Cristã Traduzindo o Verbo, antes conhecida como Comunidade Evangélica Jesus - A Verdade que Marca. O nome da Operação é uma referência bíblica à terra prometida.

Conforme o Diário já noticiou, a seita mentém fiéis - entre eles pelo menos 20 rio-pretenses - em condição análoga à escravidão em fazendas no sul de Minas Gerais e na Bahia. A igreja obrigava os fiéis a doarem todos os bens, pois a ideia era viver em regime de igualdade absoluta.

Os rio-pretenses foram arrebanhados entre 1999 e 2005, quando a seita manteve um templo no Parque Industrial. Um dos líderes era José Donizetti Buzatto, fazendeiro de Olímpia que ajudou a fundar a igreja em Rio Preto. Em outubro de 2005, o templo da cidade foi fechado e 64 fiéis foram levados em ônibus fretados para uma fazenda em São Vicente de Minas, no sul do estado. Todos foram obrigados a doar seus bens.

A Operação Canaã acontece em Minas Gerais, São Paulo e Bahia. A Justiça autorizou o cumprimento de 22 mandatos de prisão preventiva, 17 de interdição de estabelecimentos comerciais e 42 mandados judiciais de busca e apreensão, todos expedidos pela 4ª Vara Federal em Belo Horizonte/MG.

A operação está sendo feita para dar base à investigação que apura crimes de redução de pessoas à condição análoga à de escravo, de tráfico de pessoas, estelionato, organização criminosa, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro.

Por meio da apropriação do patrimônio dos fiéis e do desempenho de atividades comerciais sem o pagamento da mão de obra, a seita teria acumulado um grande patrimônio, contando com casas, fazendas e veículos de luxo. Atualmente, estaria expandindo seus empreendimentos para o estado do Tocantins, baseados na exploração ilegal.

 

Clique na imagem para ampliar  (Foto: Editoria de Arte)

Desenvolvida com a participação do Grupo Especial de Fiscalização Móvel do Ministério do Trabalho e Emprego, a investigação aponta que dirigentes da seita religiosa teriam aliciado pessoas em sua igreja em São Paulo/Capital, convencendo-as a doarem todos os seus bens para as associações controladas pela organização criminosa. Para tanto, teriam se utilizado de ardis e doutrina psicológica, sob o argumento de convivência em comunidades, onde todos os bens móveis e imóveis seriam compartilhados.

A investigação teve início em 2011, quando a seita estava migrando de São Paulo para Minas Gerais. Em 2013, foi deflagrada a "Operação Canaã", com inspeções em propriedades rurais e em algumas empresas urbanas. Em 2015, foi desencadeada sua segunda fase: "De volta para Canaã", quando foram presos temporariamente cinco dos líderes da seita. A deflagração de hoje representa a terceira fase da Operação, com a prisão preventiva de 22 líderes da seita, que poderão cumprir até 42 anos de prisão, se condenados.

Segundo auditor-fiscal do Trabalho e coordenador do projeto de combate ao trabalho escravo em Minas Gerais, Marcelo Gonçalves Campos, centenas de pessoas já foram encontradas em condições que, pelos critérios legais, os auditores-fiscais entendem constituir trabalho degradante. As ações de fiscalização estão acontecendo em fazendas, postos de gasolina, restaurantes, fábrica de confecções e outros empreendimentos comerciais de pelo menos 14 cidades mineiras, baianas e paulistas.

A reportagem tentou contato com a defesa de José Donizetti Buzatto, mas seu advogado não foi encontrado para comentar o assunto.

Na terça-feira (6), o Ministério do Trabalho e Emprego divulgou nota em que afirmava que o número de resgatados poderá chegar a 900 pessoas. Campos, no entanto, preferiu não precisar um número. "A ação está em curso e ainda não temos certeza do número de vítimas, mas é bastante provável chegarmos a um número próximo a esse", disse o coordenador.

(Com Agência Brasil)