Diário da Região

15/02/2018 - 08h24min / Atualizado 15/02/2018 - 08h24min

Entrevista

Novas formas de amar

Consultora do programa Amor&Sexo, da Globo, a psiquiatra Regina Navarro Lins fala sobre a crise do amor romântico em seu novo livro

Caiuá Franco/Divulgação A psicanalista Regina Navarro Lins, do Rio de Janeiro, lançou recentemente o livro Novas Formas de Amar - Nada Vai Ser Como Antes: Grandes Transformações nos Relacionamentos Amorosos (Editora Planeta)
A psicanalista Regina Navarro Lins, do Rio de Janeiro, lançou recentemente o livro Novas Formas de Amar - Nada Vai Ser Como Antes: Grandes Transformações nos Relacionamentos Amorosos (Editora Planeta)

O amor romântico, aquele que propõe uma fusão total com a pessoa amada, de modo a dissipar suas particularidades, está fora de moda. Ou melhor, esse modelo de relacionamento amoroso está em crise, dando lugar a uma troca afetiva pautada no respeito às individualidades e aos desejos do parceiro ou da parceira.

É sobre essa nova dinâmica das relações amorosas que trata o mais recente livro da psicanalista Regina Navarro Lins, do Rio de Janeiro: Novas Formas de Amar - Nada Vai Ser Como Antes: Grandes Transformações nos Relacionamentos Amorosos (Editora Planeta).

“Preservar a própria individualidade começa a ser fundamental, e a ideia básica de fusão do amor romântico deixa de ser atraente porque vai no caminho inverso aos anseios contemporâneos”, comenta Regina, que atua como consultora do programa Amor&Sexo, da TV Globo, além de ter uma coluna semanal no programa Em Pauta, da GloboNews.

Em sua nova publicação, a psicanalista relata que, cada vez mais, os casais que vão até seu consultório estão em crise porque um dos parceiros quer abrir o relacionamento, buscar outras experiências sexuais. Não que essa prática inexistia antes, mas agora está entrando no diálogo do casal.

“Quando analisamos o passado do amor, constatamos que os comportamentos amorosos e sexuais, e as expectativas em relação à própria vida a dois, são bem diferentes em cada período da história. Apesar de todos os ensinamentos que recebemos desde que nascemos – família, escola, amigos, religião – que nos estimulam a investir nossa energia amorosa e sexual em uma única pessoa, a prática é bem diferente”, comenta.

V&A - Na sua opinião, quais os principais aspectos que influenciam essa ‘crise’ do amor romântico?

Regina Navarro Lins - O amor é uma construção social que em cada época se apresenta de uma forma. Estamos no meio de um processo de profunda mudança das mentalidades. A busca da individualidade caracteriza a época em que vivemos. A grande viagem do ser humano é para dentro de si mesmo. Cada um quer saber quais são suas possibilidades na vida, desenvolver seu potencial. O amor romântico propõe o oposto disso; prega que os dois se transformam num só, havendo complementação total entre eles. Preservar a própria individualidade começa a ser fundamental, e a ideia básica de fusão do amor romântico deixa de ser atraente porque vai no caminho inverso aos anseios contemporâneos. Ao sair de cena esse tipo de amor está levando com ele a sua principal característica: a exigência de exclusividade. Com isso, aumenta o número dos que aceitam viver sem parceiro estável, recusando-se a se fechar numa vida a dois.

V&A - Em seu novo livro, você fala que muitos casais que chegam ao seu consultório têm um desejo em comum: dar uma variada. Acredita que a monogamia gera um peso moral que impede as pessoas de manifestarem seus reais desejos?

Regina - Atendo no consultório há 45 anos, em terapia individual e de casal. De aproximadamente cinco anos para cá passei a receber casais trazendo novos conflitos, que ocorrem porque uma das partes propõe a abertura da relação - partir para uma relação não monogâmica - ou então uma nova prática sexual. A outra parte se desespera com essa possibilidade, se sente desrespeitada, agredida, não amada. Desde cedo somos estimulados a investir nossa energia sexual em uma única pessoa. Mas não é o que acontece na prática. É bastante comum homens e mulheres casados compartilharem seu tempo e seu prazer com outros parceiros, geralmente, de forma secreta. A exclusividade é como um valor agregado ao amor porque, supostamente, quem ama só se relaciona sexualmente com a pessoa amada. As pessoas são obcecadas pela certeza da exclusividade do parceiro ou da parceira. Penso que está mais do que na hora de se refletir sobre essa questão. Em vez de nos preocuparmos se nosso parceiro (a) se relacionou sexualmente com outra pessoa, deveríamos apenas responder a duas perguntas: “Sinto-me amado (a)?; Sinto-me desejado (a)?” Se a resposta for ‘sim’ para as duas, ótimo. O que o outro faz quando não está comigo não me diz respeito. Não tenho dúvida que dessa forma as pessoas viveriam muito melhor.

V&A - O discurso da pessoa traída geralmente reforça uma espécie de propriedade sobre a pessoa amada, um amor romântico extremamente egoísta. Por que é tão difícil para muitas pessoas reconhecer a individualidade e liberdade de seu parceiro ou parceira?

Regina - Uma das características fundamentais para uma boa relação amorosa é se livrar da ideia de fusão - ideal do amor romântico -, e preservar a distinção entre si próprio e o outro. A pessoa amada é vista e aceita como tendo uma identidade inteiramente separada do parceiro, o que favorece a relação. Mas é bastante comum não se perceber nem se respeitar a individualidade do outro, o que gera desentendimentos e sofrimento. O respeito à individualidade do parceiro, como o fato de cultivá-la, mesmo com o risco de separação ou perda, é crucial. A ideia de fusão entre um casal é aceita com tanta naturalidade que abrange até a vida sexual, como no caso do orgasmo. Em 1970, na França, a grande maioria de homens e mulheres considerava desejável que, durante uma relação sexual, ambos alcançassem o orgasmo ao mesmo tempo. A boa notícia é que 20 anos mais tarde, mesmo considerando importante que as duas partes sintam prazer, já não parece mais indispensável às novas gerações, em particular às mulheres, que o orgasmo seja simultâneo. As expectativas quanto ao prazer se individualizaram. A passagem da fusão com o parceiro amoroso à diferenciação, ou seja, quando há a ruptura de crença de que os dois são uma só pessoa, é muito importante.

V&A - Na sua opinião, é possível amar várias pessoas ao mesmo tempo, identificar algo especial que lhe atraia em cada uma delas?

Regina - Várias pessoas possuem aspectos que nos agradam e nos atraem. Quando analisamos o passado do amor, constatamos que os comportamentos amorosos e sexuais, e as expectativas em relação à própria vida a dois, são bem diferentes em cada período da história. Apesar de todos os ensinamentos que recebemos desde que nascemos – família, escola, amigos, religião – que nos estimulam a investir nossa energia amorosa e sexual em uma única pessoa, a prática é bem diferente.

V&A - Essa onda conservadora que vemos hoje em várias instâncias, como nas artes, pode, de algum modo, gerar conflitos no que diz respeito à vida afetiva? Um conflito entre o que é desejado e o que é imposto socialmente.

Regina - A repressão sexual é um conjunto de interdições, permissões, valores e regras estabelecidas pelo social para controlar o exercício da sexualidade. W. Reich, profundo estudioso da sexualidade humana na primeira metade do século 20, diz que o objetivo da repressão sexual consiste em produzir indivíduos submissos, com medo da autoridade e temendo a liberdade, apesar de todo o sofrimento e humilhação de que são vítimas. Estamos no século 21 e essa censura à arte é indefensável. A obra de arte, além do deleite estético que proporciona, é oportunidade de reflexão fundamental. Reprimi-la é revelar desrespeito e ignorância. Acreditar que o que é retratado num obra de arte significa induzir à sua prática é de ignorância total. Por esse critério, quantos artistas fantásticos seriam proibidos? É claro que essa repressão toda gera conflitos. Freud vê três origens para o sofrimento humano: a força superior da natureza, a fragilidade dos nossos corpos e a inadequação das normas que regulam as relações mútuas dos indivíduos na família, no Estado e na sociedade. Não é difícil perceber que a doutrina de que há no sexo algo pecaminoso é totalmente inadequada, causando sofrimentos que se iniciam na infância e continuam pela vida afora.

V&A - Acha que ainda é possível ser feliz na monogamia, para além de qualquer imposição moral?

Regina - Até recentemente só foi aceito quem se enquadrasse em modelos. Isso é prejudicial porque todos se tornam parecidos, aniquila as singularidades. É provável que no futuro predominem formas variadas de se viver as relações amorosas e sexuais. No momento, o comportamento tradicional está sendo profundamente questionado. Cada vez menos pessoas consideram fundamental se enquadrar em modelos. Se você desejar ficar 40 anos com uma única pessoa, fazendo sexo só com ela, tudo bem. Mas acredito que o fato de se desejar vários parceiros também será visto como natural. O importante é que cada um possa escolher sua forma de viver.

V&A - Como imagina que as as futuras gerações vão encarar um relacionamento afetivo?

Regina - Está cada vez mais distante o tempo em que se acreditava que amar exigia sacrifícios. Até algumas décadas atrás, todos valorizavam quem abria mão dos próprios anseios em prol do outro. ‘Ceder’ era a palavra de ordem para um bom relacionamento. E quem não se dispusesse a isso corria o risco de ser rotulado de imaturo ou de egoísta. Agora, ainda bem, as coisas estão mudando. Afinal, a vida a dois numa relação estável - namoro ou casamento - se tornou difícil de suportar diante dos apelos da sociedade atual. Principalmente porque sempre se aceitou como natural que um casal vivesse numa relação fechada, onde faziam parte o controle, a possessividade e o ciúme. Mas, no momento em que os modelos de amor, casamento e sexo se tornaram insatisfatórios, abriu-se espaço para novas experimentações no campo afetivo-sexual. Acredito que as relações amorosas no futuro serão mais livres e, por isso mesmo, mais satisfatórias. Não alimentando fantasias românticas de fusão com o parceiro, cada um tem a oportunidade de se sentir inteiro, sem necessitar de outro para completá-lo. Aí então será possível descobrir as incontáveis possibilidades do amor e como ele pode se apresentar para cada pessoa em cada momento de diferentes maneiras. 

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