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Diário da Região

31/01/2018 - 17h52min / Atualizado 01/02/2018 - 10h18min

Painel de Ideias

O pregador que sucumbiu à encruzilhada

O modus operandi da música de (Eddie James) House estrutura-se sobre uma incômoda mistura entre desejo de ascese e interesses profanos que o inscreve numa permanente encruzilhada moral e existencial

Divulgação Fernando Aparecido Poiana | fernando_poiana@hotmail.com
Fernando Aparecido Poiana | [email protected]

A vida e a música de Eddie James 'Son' House Jr. (1902-1988) são exemplos de como o blues é pródigo em conjugar contrários. Desse traço decorre a expressividade marcante do gênero, criada pelas tensões musicais e existenciais que ele evoca e nunca resolve. No caso de House, essas contradições são levadas ao extremo, como argumenta Peter O. E. Bekker Jr. no livro The Story of the Blues (1994).

Bekker Jr. afirma que "House sofreu conflitos internos a respeito de sua música durante a maior parte da vida", completando que esse bluesman, "criado num ambiente religioso, [até] mesmo admitiu que, quando jovem, realmente acreditava que guitarristas eram, na prática, mensageiros de Satã".

O crítico deixa implícito, na sua análise, que o cantor nunca se livrou completamente desse equívoco moralista, resultado direto de uma educação familiar puritana. Bekker Jr. conta que "House ia à igreja frequentemente, cantava em corais, e pregava numa igreja Batista perto de sua casa", e sugere que "é provável que se alguém tivesse lhe dito aos vinte anos de idade que o seu legado seria o de ter sido um grande expoente do Delta blues, ele jamais teria acreditado".

Nesse sentido, é irônico que, como explica Bekker Jr., House tenha "contribuído tão brilhantemente para o desenvolvimento de um tipo de música que outrora desprezara tão fervorosamente".

Embora peque por alguns determinismos biografistas, Bekker Jr. levanta questões importantes para entendermos a obra de House. Isso porque ao ouvirmos suas canções, percebemos, sem muito custo, que parte do seu apelo e força expressiva vem do fato de que a estética musical desse bluesman é permeada pelo conflito incessante entre as exigências restritivas da moralidade (com seu apego cego aos supostamente bons costumes) e a busca pela liberdade de espírito individual traduzida em vontade de criação artística.

Quando olhamos para essa tensão atentamente, vemos que o modus operandi da música de House estrutura-se sobre uma incômoda mistura entre desejo de ascese e interesses profanos que o inscreve numa permanente encruzilhada moral e existencial, para citar a imagem popularizada no mundo do blues pela canção "Crossroads", de Robert Johnson. Desse modo, quando ouvidas e pensadas no conjunto da discografia de House, canções como John, the Revelator, Walking Blues, Grinnin' in your Face e Death Letter Blues dão forma e vida a um universo temático multifacetado cuja coerência interna é garantida pela necessidade circunspecta dos seus sujeitos poéticos de lidarem com as contradições que lhes constituem como indivíduos.

As músicas de House são artisticamente fortes porque recusam os simplismos das visões moralistas de arte e mundo. A discografia de House é um universo musical conflitante, paradoxal, ilógico, e existencialmente turbulento. E é por isso tudo que o seu blues soa tão inexoravelmente vivo.

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