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Diário da Região

13/01/2018 - 16h46min / Atualizado 13/01/2018 - 16h45min

Painel de Ideias

Esteio de aroeira

Voltar ao lugar onde na infância brinquei com meus primos e tantas vezes caçamos 'bagalum' nas noites escuras do sertão, me aplacou a saudade

Divulgação Jocelino Soares | jocelino@jocelinosoares.com.br
Jocelino Soares | jocelino@jocelinosoares.com.br

Meu avô materno tinha um pequeno sítio, Canto Chão, lá pros lados do Pirajá, distrito de Neves Paulista. Em meados de 1960, ele se desfez da propriedade para ir morar em Serradão. Era assim que ainda chamava José Bonifácio, por não concordar com a troca de nome da cidade onde tinha vivido quando menino. Italiano das antigas, com ajuda dos filhos, construiu a maior parte das benfeitorias. Desde a casa onde morava, passando pelo paiol, chiqueiros, forno, tulha e casas da colônia. Também construiu alambique, onde fazia cachaça pro gasto, e o monjolo na beira do rio Jacaré. Além do moinho tocado pelas águas, onde fazia girar a pedra de moer milho para o fubá. Um pouco mais distante, pequena olaria para o fabrico de tijolos e telhas.

Como diz a música Reino Encantado, de Valdemar Reis, "Nosso sítio que era pequeno/ Pelas grandes fazendas cercado/ Precisamos vender a propriedade/ para um grande criador de gado". Eu, menino, ia acompanhado de meus pais visitar meus avós, quando morávamos na fazenda São Miguel, em Neves Paulista, cujo dono era Moisés Miguel Haddad. Depois da venda do imóvel, nunca mais voltei para aquelas bandas. Até que, no final do ano, velhas lembranças vieram à tona. Uma baita saudade tomou conta de mim. Foi então que, na véspera do Ano Novo, senti que deveria fazer o caminho de volta, e voltei.

Faltava pouco pras 10h, quando passei pela minha sempre amada vila Guebo - Neves Paulista - em direção ao Pirajá. A velha estrada boiadeira que dá acesso ao distrito continua como antes. Na seca, poeira de fazer dó. Na época das chuvas, lama pra todo lado. Subi até o espigão, depois de passar o rio Jacaré. Do alto se avista a torre da igreja do povoado. Sinto que estou próximo. Depois de muito procurar, encontro uma referência que me emocionou: o velho pau d'alho na beira da estrada permanece intocável. Deixo o veículo à sua sombra. Ele fica bem em frente da antiga entrada. Caminho pelo pasto em na direção onde ficava a casa de vovô. Alguns cacos de telhas e pedaços de tijolos encontro espalhados na relva, indicando que ali, um dia, no passado, teve morador. Procuro por um tijolo inteiro. Depois de algum tempo, eis que encontro, para minha surpresa, um com a marca BLG, Benedito Lúcio de Godoy, meu avô.

A emoção bateu ainda mais forte quando me deparei com um esteio de aroeira tomado por cipó melão de São Caetano. Aquele tronco foi colocado ali como coluna da casa. Lembrei-me de que a vida imita a arte. José Fortuna, na música Esteio de Aroeira, escreveu uma das mais belas canções que fala justamente daquele encontro insólito. "Esteio de aroeira corroído pelos anos/ O vendaval do tempo até hoje tu resistes/ Quem hoje vê seu vulto no sertão abandonado/ Não sabe que encerras tua história longa e triste".

O sol ardia forte naquela manhã, quando me despedi daquilo que um dia foi meu torrão amado. Voltar ao lugar onde na infância brinquei com meus primos e tantas vezes caçamos "bagalum" nas noites escuras do sertão, me aplacou a saudade.

A última estrofe da música diz: "Nós que nascemos juntos, véio esteio de aroeira/ Será quem vai primeiro ser tombado pela sorte?/ Se és tu lá na floresta derrubado pelo tempo/ Ou eu por este mundo derrubado pela morte?".

 

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