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Diário da Região

16/01/2018 - 22h34min / Atualizado 16/01/2018 - 22h34min

Artigo

A fábula das abelhas

Por aqui, os vícios são públicos, porém os benefícios são privados, ou seja, para aqueles poucos privilegiados

Em 1714, foi publicado em Londres um livro que se tornaria muito importante para a política, a economia e a ética: "A Fabula das Abelhas, ou Vícios Privados, Benefícios Públicos". Seu autor é Bernard de Mandeville, nascido na Holanda, mas radicado na Inglaterra. Assim que foi publicado, o livro causou grande furor na sociedade local; mais tarde receberia duras críticas por parte de influentes pensadores da época, como Adam Smith.

A fábula pode ser assim resumida: era uma vez uma grande colmeia, onde as abelhas viviam em paz e se produzia de tudo, num ambiente próspero, porém dominado pelos vícios e pela corrupção. E assim foi até que um grupo de abelhas moralistas resolveu pedir aos deuses que acabassem de vez com os vícios e os comportamentos imorais.

O pedido foi atendido e, partir daí, todos passaram a adotar um modo de vida honrado e virtuoso. Entretanto, dentro de pouco tempo, as coisas começaram a desandar: os tribunais e os advogados ficaram sem serviço, pois ninguém mais cometia crimes e todos pagavam suas dívidas, inclusive aquelas esquecidas; como não havia mais insegurança, os policiais foram dispensados; muitos bares e fábricas de bebidas fecharam, afinal ninguém mais bebia.

Logo a colmeia foi obrigada a dispensar muitos funcionários públicos, já que todos passaram a trabalhar e não havia lugar para todo mundo nas repartições; bancos quebraram, pois ninguém mais tinha interesse em poupar ou tomar empréstimos. E, assim, o caos foi se instalando na colmeia.

Como todos passaram a consumir pouco, ou seja, somente o necessário, as fábricas diminuíram suas atividades e demitiram muitos trabalhadores. O dinheiro quase não circulava mais na colméia. Para que, se não havia mais vícios ou diversões, e nem o consumismo para se gastar tanto dinheiro? Moral da história: segundo Mandeville, o bem comum não seria produto da virtude das pessoas, mas sim dos seus vícios individuais, como o consumismo, a ganância, a vaidade, a luxúria e a inveja.

Daí, concluiu Mandeville que, se para manter uma sociedade próspera nós dependermos da bondade de cada um, nada funcionará. A seu modo, Mandeville revelou as entranhas do capitalismo, ao afirmar que a política e a economia não dependiam do bem moral para um bom funcionamento. Na verdade, o autor pretendia atacar o ideal moralista - vigente à época - de que todos os homens eram naturalmente dotados de virtudes.

Para finalizar, costuma-se dizer que, no ambiente de corrupção moral do Brasil de hoje (e de sempre!), o ditado de Mandeville foi invertido: por aqui, os vícios são públicos, porém os benefícios são privados, ou seja, para aqueles poucos setores privilegiados, que todo mundo sabe quem são.

João Francisco Neto, Advogado, doutor em Direito Econômico e Financeiro (USP) - jfrancis@usp.br

 

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