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Ler ou não ler?

No Brasil, o aumento da escolaridade associou-se mais ao quantitativo do que ao qualitativo

Ademar Pereira dos Reis Filho
Publicado em 13/01/2018 às 22:00Atualizado em 08/07/2021 às 15:08

Todo ávido leitor acredita que os livros, juntamente com os cães, são os melhores e mais fiéis amigos do homem. A razão é simples: todas as palavras contidas em um texto, e todos os textos que se tornam parte indissociável de um livro, se revestem de verdades absolutas, mesmo quando descrevem histórias fictícias e fantasiosas. Isto porque, aquilo que o autor concebeu em seu universo criativo foi, de fato, narrado e entregue ao leitor. Não há, portanto, gesto mais verdadeiro e leal do que esse.

Por aqui, no entanto, grande parte da população não é leal, tão pouco, fiel aos livros e à leitura. De acordo com o último estudo divulgado pelo Instituto Pró-Livro, em 2016, denominado Retratos da Leitura no Brasil, apenas um em cada quatro brasileiros domina plenamente as habilidades de leitura, escrita e matemática. Apesar do indicador de alfabetismo funcional (INAF) ter tido uma melhora nos últimos anos, infelizmente, o aumento da escolaridade média da população brasileira associou-se mais ao aspecto quantitativo do que ao qualitativo.

Entre outras questões, a pesquisa revelou que o tempo livre dos brasileiros está cada vez mais sendo preenchido com o uso da Internet e com as conversas e interações (pouco úteis) nas redes sociais. E, ainda, que 43% dos entrevistados declararam que não gostam de ler. Outro dado interessante é que 57% dos leitores viam suas mães ou responsáveis lendo. Por outro lado, 64% dos não leitores, nunca viam essas figuras referenciais lendo. Estes dois últimos números revelam a importância de como os exemplos vindos de casa, do seio familiar, podem transformar o indivíduo. Equivocadamente, muitas famílias acreditam que o processo de construção do conhecimento é de responsabilidade exclusiva da escola.

Todas estas informações reveladas pelo estudo, explicam muita coisa. Inclusive, o fato de que boa parte dos problemas que o Brasil vivencia, estão relacionados ao desmando e ao descaso, de parcela significativa da classe política que governa e determina, para desespero geral, os rumos deste país. É claro que este tipo de político celebra e depende da existência de analfabetos funcionais e de indivíduos desinteressados pelo conhecimento.

Voltando aos livros, em 1512, quando Nicolau Maquiavel escreveu O Príncipe, parecia querer antecipar muitos dos acontecimentos que se fariam presentes em vários momentos da história recente deste, e de outros países. Neste livro é que ficou consagrada a expressão "os fins justificam os meios", ou seja, não importa o que o governante faça, desde que seja para manter-se no poder. Ao que tudo indica, muitos dos que governam, atualmente, leram somente esta frase do livro. Se tivessem chegado, ao menos, na parte do texto que diz: "acima de tudo, um príncipe deve empenhar-se em dar de si, com cada ação, conceito de grande homem e de inteligência extraordinária", muitos deles abdicariam de ocupar cargos e funções públicas. Porém, como a conivência é grande, eles continuam vorazes.

É provável que o Leviatã esteja mais próximo do Brasil, neste século, do que Thomas Hobbes imaginou que estaria da Inglaterra, no século XVII. E, o que é pior, que eleitores não leitores deste país estejam alimentando o monstro com votos dados àqueles que desconhecem a lei e a justiça e que, mesmo assim, nos governam.

Ademar Pereira dos Reis Filho, Doutor pelo IGCE - UNESP de Rio Claro-SP; diretor da Fatec de São José do Rio Preto.

 
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