X
X

Diário da Região

17/01/2018 - 19h00min / Atualizado 23/01/2018 - 09h12min

ENTRE LIVROS E PALAVRAS

Sob o jugo das redes sociais

A hipocrisia social e os limites entre o público e o privado surgem como temas centrais neste romance de Laub

Na era de profundas transformações nos códigos de conduta entre os sexos, selecionamos um livro que ousa abordar temas como homofobia, feminismo, assédio e intolerância de maneira irônica e pouco convencional: O Tribunal da Quinta-Feira, de Michel Laub (2016). O autor - jornalista e ex-diretor de redação da revista Bravo! - já conta com sete romances publicados e acolheu premiações nacionais e internacionais. Em linhas gerais, trata-se da história de um publicitário casado e bem-sucedido que se envolve com uma colega de trabalho mais jovem e tem seus e-mails compartilhados nas redes sociais pela ex-mulher. Com base no conteúdo "sem filtro" das conversas entre o protagonista e seu melhor amigo, inicia-se um grande e impiedoso tribunal inquisitório, com consequências previsíveis no mundo real e virtual.

Como relata Francesca Angiolillo (Ilustrada, 12/11/16), Laub não teme enfrentar temas polêmicos e constrói "um romance cuja brevidade não nos faz intuir sua complexidade". Ambientado em 2016, inicia-se com as memórias da juventude do narrador, José Victor, a respeito da descoberta da Aids e do início do tratamento:

Lauro Corona morreu em 1989. Freddie Mercury morreu em 1991. Em pleno Vietnã da Geração Seguinte, ficou difícil não pensar neste jogo estatístico - a porcentagem de material orgânico que pode passar por um furo na camisinha, as chances de alguém levantar da cama e ir até a pia lavar uma superfície do próprio corpo lacerada por um ato que pode ser esquecido em duas horas ou nunca mais.

As dúvidas a respeito do contágio fazem o publicitário percorrer uma insondável lista de relacionamentos passados, até chegar ao último, com a elegante e "civilizada" arquiteta paulistana conhecida pelo nome de Teca. Mas o fim do casamento de quatro anos, inevitável pelas diferentes visões de mundo e de personalidade, reservaria-lhe outra surpresa: a vingança da ex-mulher traída que decide compartilhar trechos cuidadosamente selecionados de antigos e-mails do ex-companheiro com o amigo homossexual e soropositivo, Walter. Desde então, José Victor, Walter e Dani, pivô da separação, começam a sofrer uma enxurrada de comentários xenofóbicos e moralistas, em uma algaravia de vozes clamando por "um momento de glória" nas redes sociais. Nas palavras do narrador:

Bastam algumas piadas sobre merda. (...) Basta uma dúzia de termos ofensivos registrados no presente eterno das caixas virtuais, e algo escrito há anos e em outro contexto equivale a uma ofensa cara a cara dita hoje. (...) É preciso ser muito estúpido para transformar esse registro teatral e hiperbólico entre duas pessoas conversando em privado numa declaração literal e pública que revela intenções de caráter.

Pois é. Em 3 de maio de 2014, a dona de casa Fabiane Maria de Jesus foi espancada até a morte no Guarujá, por ter sido confundida com uma "feiticeira" que sequestrava crianças na região. E o que dizer a respeito das consequências da piada infeliz do renomado jornalista William Waack, em 2017? Considerando que o filósofo francês Voltaire escreveu o seu Tratado sobre a Intolerância em 1774, não dá para acreditar que o tema ainda seja atual. A propósito, o livro de Voltaire acaba de receber uma nova tradução para o português.

A hipocrisia social e os limites entre o público e o privado surgem como temas centrais neste romance de Laub, em passagens que ironizam o uso frequente de frases motivacionais e de autoajuda para mascarar possíveis resquícios de ambição, inveja, competitividade e agressividade:

Todo fascista julga estar fazendo o bem. Todo linchador age em nome de princípios nobres. Toda vingança pessoal pode ser elevada a causa política, e quem está do outro lado deixa de ser um indivíduo que erra como qualquer indivíduo, em meia dúzia de atos entre os milhares praticados ao longo de quarenta e três anos, para se tornar o sintoma vivo de uma injustiça histórica e coletiva baseada em horrores permanentes e imperdoáveis.

Um texto sublime e provocativo, para leitores que desejam sair do lugar comum. Mais um clássico contemporâneo!

Aviso: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Diário da Região. É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O Diário da Região poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.

Di´rio Im&ocute;veis

Di´rio Motors

Esqueci minha senha
Informe o e-mail utilizado por você para recuperar sua senha no Diário da Região.

Já sou assinante

Para continuar lendo esta matéria,
faça seu login de acesso:

É assinante mas ainda não possui senha? Clique Aqui!
É assinante mais quer redefinir sua senha? Clique Aqui!

Assine o Diário da Região Digital

Para continuar lendo, faça uma assinatura do Diário da Região e tenha acesso completo ao conteúdo.

Assine agora

Pacote Digital por apenas R$ 16,90 por mês.
OUTROS PACOTES


ou ligue para os telefones: (17) 2139 2010 / 2139 2020

Cadastro Grátis
Diário da Região
Clique no botão ao lado e agilize seu cadastro importando seus dados básicos do facebook
Sexo
Defina seus dados de acesso